Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, maio 16, 2006

Os três Pastorinhos (I)

I – O meu encontro com o catolicismo e a descoberta de Fátima


Há muito tempo que sentia necessidade de escrever sobre as chamadas aparições de Fátima.

Após muita reflexão, decidi não adiar mais e expressar aquilo que sinto sobre tão polémica matéria, mesmo sabendo que, apesar de ser usualmente bastante comedido nas minhas análises, poder vir a ser alvo de muitas incompreensões, isto, usando uma terminologia bastante suave.

Nasci em Lisboa. Filho de um alentejano do Alto e de uma beirã da Beira Baixa. Os meus Pais vieram viver para Lisboa muito novos, Primeiro a minha Mãe ainda em criança. O meu Pai veio para Capital já adolescente.

Ao contrário do meu Irmão, doze anos mais velho, que conheceu os dois Avós Paternos e a Avó materna, eu só conheci a minha Avó paterna. A minha Avó materna faleceu a 2 Maio de 1940 e eu nasci a 2 de Maio de 1943, em plena II Guerra Mundial. Quanto ao Avô materno, só o conhecemos por fotografia, pertinazmente obtida pela minha Mãe, em Coimbra, junto a familiares próximos desse Avô, sacerdote católico, que exercia o seu magistério numa aldeia da Beira Baixa, onde conheceu a minha Avó, sua criada, como na altura se designavam as prestadoras de serviços domésticos. Logo que tomou conhecimento da gravidez da minha Avó, o “ilustre” senhor prior, abandonou a paróquia e passado algum tempo fugiu para o Brasil. É o pouco que sabemos acerca deste Avô materno.

Desde muito novo que me apercebi de algo que martirizava a minha Mãe. O estigma que carregou até à sua morte, de ser Filha de Pai incógnito. Apesar deste seu drama, aceitou a Fé católica, rezava diariamente e aos Domingos ia assistir à celebração da Missa.

Quanto ao meu Pai, também rezava algumas vezes e, ocasionalmente, acompanhava a minha Mãe à Igreja.

Acompanhei a minha Mãe às celebrações do culto católico desde muito novo e foi ela que me ensinou as primeiras orações. Ainda na pré-adolescência passei a dirigir-me sozinho à Igreja, conversava com o velho pároco, assistia à celebração da Missa, confessa-me e comungava. Nessa época as missas eram celebradas em latim e as respostas dos fiéis às frases do padre eram igualmente dadas num latim, a maior parte das vezes improvisado, pois, como é óbvio, os fiéis, grande parte deles analfabetos, diziam aquelas frases por habituação, sem as compreender como é evidente.

Não tardou muito o decifrar de algumas daquelas palavras, que eu ia apreendendo comparando-as com as orações em português e com a entoação dada pelo padre. Pois como sabemos, as crianças têm, quando para isso estão predispostas, uma maior capacidade de interpretação e compreensão.

Também estava muito atento ao sacristão ou a qualquer outra pessoa que ajudasse o padre na celebração da Missa. Passado algum tempo também já conseguia exercer essas funções, mais ou menos bem.

Com onze ou doze anos de idade filiei-me no Corpo Nacional de Escutas (CNE), uma organização controlada pela Igreja Católica. Mais ou menos por essa altura os meus Pais matricularam-me como aluno externo nas Oficinas de S. José, onde “aguentei” um ano lectivo. Antes os meus Pais tentaram que eu ficasse em regime de internato. Para isso era necessário um estágio de 15 dias, onde fui sujeito a algumas “provações”, entre elas destaco o facto de nos fazerem saltar diariamente da cama pouco depois das 5 da manhã para assistir à celebração da Missa na Capela. Ensonado e irrequieto que era, olhava para todos os lados menos para o altar. Então, um “Inquisidor”, padre, que nos circundava durante esse período, com o punho direito fechado de onde sobressaíam dois dedos em forma de cutelo, aplicava-me o respectivo castigo sobre o crânio, o que me deixava atordoado e com tumefacções na cabeça. Claro que não fui aceite como aluno interno e ainda bem. Mas passemos adiante.

Ainda criança, os meus Pais, de vez em quando, levavam-me com eles nas populares excursões aos locais do costume: Mosteiro de Alcobaça; Castelo do Bode; Tomar; etc. e, como não podia deixar de ser, ao Santuário de Fátima.

Dessa época recordo ter-me impressionado com alguns Seres que de joelhos cobertos ou descobertos, ou deitados, se arrastavam pelo chão dando voltas ao Santuário. De resto, nada mais do que ali se passava despertava a minha curiosidade.

Retornando à minha estada nos escuteiros, um dia, em Maio, eu e o Victor P. combinámos ir a Fátima. Como o dinheiro não abundava, resolvemos o problema fazendo essa jornada à boleia.

Preparámos as mochilas, transportando nelas algumas latas de conserva, fruta e bolachas, além de algum agasalho de reforço. Devidamente fardados metemo-nos a caminho até ao local mais apropriado junto à saída da Capital e de polegar em riste balanceando-o esperámos pela boa vontade dos condutores. Automóveis particulares, camionetas de carga, experimentámos de tudo. Finalmente, a 12 de Maio, chegámos ao Santuário.

O local já se encontrava cheio de gente. Pergunta aqui, pergunta ali e lá nos indicaram quem coordenava os prestadores (voluntários) de serviço ao Santuário. Não me recordo exactamente das funções que nos foram atribuídas. Disseram-nos onde era o refeitório e as enormes tendas montadas pelo exército pejadas de camas de metal.

Íamos circulando por aqui e por acolá, procurando ser úteis em qualquer coisa. O Sol já estava no seu ocaso. A fome apossou-se de nós, Dirigimo-nos ao refeitório, dirigido por religiosas e lá nos refizemos, preparados para uma longa noite de vigília e algum trabalho…

Nunca tinha visto tanto Padre, Freiras ou Frades, por metro quadrado. O Fiéis cantavam, imploravam, gesticulavam, choravam e sei lá que mais. O recinto estava a abarrotar. O frio começava a apertar e nós só com as nossas fardas de escuteiros com as pernas ao léu, pois usávamos calções.

Sei que a determinada altura perdi o rasto ao Victor. Passei pela chamada Capela das Aparições e notei que um pouco mais adiante existia um varandim em meia-lua que dava acesso ao templo principal. Estava pejado de gente. Dirigi-me para lá, furando por entre aquela turba. E lá arranjei um lugar de espectador privilegiado observando aquele mar de gente que povoava o terreiro.

O local onde me encontrava era bastante perto da Capela das Aparições. Estava eu muito entretido a observar tudo o que me rodeava, quando, de mansinho se aproximou um homem talvez na casa dos trinta ou quarenta anos. Gordinho, ar bonacheirão. Blaser claro, camisa branca, aberta, com parte do peito a descoberto. Entabulou conversa comigo, muito de mansinho. Primeiro, com vulgaridades inócuas e, a pouco e pouco, começou a indagar-me de onde é que eu tinha vindo e com quem, sobre o Corpo Nacional de Escutas e qual a minha opinião acerca da Mocidade Portuguesa, entremeando a sua inquirição com alguns temas inocentes.

Foi o meu primeiro contacto directo com um Pide. Apesar de ainda muito jovem já tinha ouvido falar nessa organização sinistra e avisado acerca da contenção que devia ter nos meus actos e nas minhas conversas. Mas este jovem de então, cedo começou a criar os seus anti-corpos, contra os provocadores nazi-fascistas e como tal, tratei-o com toda a deferência e simpatia possíveis, até que me despedi “afectuosamente”.

Estava pura e simplesmente “chateado” e com sono. Dirigi-me para uma das tendas dormitório. Antes da meia-noite. Na semi obscuridade apercebi-me que estava sozinho. Escolhi uma cama. Deitei-me e adormeci. Nem a barulheira daquela mó de gente perturbou o meu sono. Pouco depois de acordar e de me levantar, o Victor reencontrou-me. Fomos juntos tomar o pequeno-almoço. Depois, iniciámos o caminho de regresso.

A partir desse mês de Maio, comecei a questionar-me sobre Fátima e os seus mistérios...

(continua)

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Olá Fernando, tive a ler o teu post, até este momento achei que eras um rapaz como qualquer outro com um passado igual a qualquer outro, nunca tive a sorte de poder sair de casa de mochila ás costas, já na altura devias ser bastante liberal. Admirei a tua memória muito boa ou seja excelente. Beijinhos amigo eu cá voltarei
 
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Voando sobre um Ninho de Cucos...

Acham que o blackangel ainda vai matar alguém?
 
[mini-spam]

-> Borrifem-se para o MONTE DE BANDALHOS!...
-> Reivindiquem o SEPARATISMO na Europa!...


NOTA: O Monte de Bandalhos [ vulgo Parasita Branco -> a MAIORIA dos europeus... ] são INTOLERANTES para com os LEGÍTIMOS Direitos dos Povos Nativos... porque... a Ocupação da Europa por outros Povos... deve ser considerada um ‘Processo Absolutamente Natural’... e não... o resultado da acção de um Bando de Parasitas... que pretendem andar no Planeta a CURTIR À CUSTA DOS OUTROS:
-->> Exemplo 1: O Parasita Branco ( a Maioria dos europeus... ) pretende andar no Planeta a Curtir a abundância de mão-de-obra Servil...... APESAR DE... o Parasita Branco nem sequer constituir uma Sociedade aonde se procede à Renovação Demográfica!
-->> Exemplo 2: O Parasita Branco ( a Maioria dos europeus... ) pretende andar no Planeta a Curtir a existência de alguém que pague as Pensões de Reforma...... APESAR DE... o Parasita Branco nem sequer constituir uma Sociedade aonde se procede à Renovação Demográfica!

O LEGÍTIMO Direito ao Separatismo!!!
SEPARATISMO-50
[ A constituição de Espaços Reserva Natural de Povos Nativos ]
 
Fernando,

Boa noite!

Esta noite faço-lhe um convite:
Vou lançar um livrito, chama-se NADA EM 53 VEZES e
será lançado Sexta-feira, 16 de Junho às 21H na Fnac do Cascais Shopping.

Gostaria muito que estivesse presente no lançamento!


Um excelente fds...
 
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