Sábado, Março 11, 2006
Dez passos do Abismo
Iniciamos a habitual caminhada matinal. No primeiro passeio do dia o Medroso gosta de ir pelas traseiras do prédio. E é logo ali na esquina que alça a pata traseira direita.
Depois, conduz-me por debaixo do túnel que une o nosso ao prédio do lado. Entre as várias pesquisas das feromonas das fêmeas que por ali passam, vai marcando o seu território e prossegue o seu percurso por aquele que eu baptizei de “passeio dos cães”, uma via estreita que acompanha, de um lado, a serpenteante estrada que desemboca no concelho vizinho e, do lado oposto as traseiras dos outros prédios.
De ambos os lados, na área que medeia o “passeio dos cães” e a estrada ondulante e entre os espaços que permeiam aquela via e os prédios, existe uma extensão considerável de terreno baldio com uma inclinação de cerca de 90º, onde costuma florescer vegetação bravia: canas, malmequeres, malvas, cardos, etc., assim como algumas pequenas árvores que ajudam à sustentabilidade dos terrenos e impedem a erosão.
Naquela manhã notei alguma coisa de estranho. A borracheira que alguém plantou em frente das traseiras do nosso prédio tinha perdido o seu belo verde, como se a clorofila a tivesse abandonado, deixando assim de contribuir com a sua fotossíntese, privando-nos da sua quota-parte do precioso oxigénio.
Várias lagartixas e alguns sardões descreviam estranhos movimentos ziguezagueantes por entre as ervas e as flores silvestres amarelecidas. E o mais curioso é que nos últimos dias, a terra tinha sido razoavelmente regada pela preciosa chuva.
O meu fraterno Companheiro denotava sinais de agitação superiores aos habituais. Arrastava-me, através da trela que eu segurava numa das mãos, alternando com a outra.
Medroso volteava a cabeça nervosamente, de vez em quando aquietava-a com o nariz erguido em pequenos movimentos circulares, cheirando o ar, para logo de seguida, serpeando, dar algumas passadas, seguindo em frente com as narinas quase roçando o solo.
Continuámos a nossa caminhada pela estreita via. Notei que no terreno em declive que nos separava da estrada, para além do aspecto desolador das árvores desprovidas de folhagem e das ervas bravias beijando a terra, se encontravam dispersos alguns elementos que num primeiro olhar não consegui discernir os seus contornos.
Aproximei-me um pouco mais. Concentrei o meu olhar naquelas formas. Tratava-se de corpos esquartejados de aves de rapina de grande porte. As longas pernas e as enormes garras assim o confirmavam. Imediatamente o meu cérebro começou a relampejar debitando imagens de há três décadas atrás, quando, pela primeira vez, entrei na enorme câmara frigorifica de uma morgue, pejada de gavetões, que um funcionário alcoolizado, com o cigarro quase mastigado ao canto da boca, ia abrindo, deleitando-se em exibir aqueles corpos inteiros ou retalhados.
De quando em vez, naquele caminho, costumo avistar pequenas aves predadoras em busca de mamíferos roedores e de alguns coelhos que por ali abundam. Não fiquei petrificado. Simplesmente surpreendido pelo cenário mórbido que estava longe de encontrar naquele local.
O Medroso atingiu o cume da agitação. Olhava aqueles despojos para logo me dirigir os seus olhos inquiridores, emitindo uns estranhos sons. Procurei acalmá-lo. Falei com ele, acariciei-o e propus-lhe seguir em frente. Apercebi-me da sua relutância apavorada, puxando-me para trás. Não dei logo conta da razão da sua reacção e olhei em frente para procurar uma explicação.
A cerca de dez metros do local onde nos encontrávamos, a via terminava, abruptamente, na vacuidade de um abismo.
Despertei do meu normalmente pesado sono com um lamento que as feromonas de algumas cadelas da vizinhança, em período de cio, provocam no meu querido e leal companheiro.
Levantei-me. Preparei o café instantâneo que acompanhei com uma bolacha de aveia. Após a useira rotina da higiene diária, vesti-me. Coloquei-lhe o peitoral e a trela.
Saímos para o primeiro passeio matinal.
Depois, conduz-me por debaixo do túnel que une o nosso ao prédio do lado. Entre as várias pesquisas das feromonas das fêmeas que por ali passam, vai marcando o seu território e prossegue o seu percurso por aquele que eu baptizei de “passeio dos cães”, uma via estreita que acompanha, de um lado, a serpenteante estrada que desemboca no concelho vizinho e, do lado oposto as traseiras dos outros prédios.
De ambos os lados, na área que medeia o “passeio dos cães” e a estrada ondulante e entre os espaços que permeiam aquela via e os prédios, existe uma extensão considerável de terreno baldio com uma inclinação de cerca de 90º, onde costuma florescer vegetação bravia: canas, malmequeres, malvas, cardos, etc., assim como algumas pequenas árvores que ajudam à sustentabilidade dos terrenos e impedem a erosão.
Naquela manhã notei alguma coisa de estranho. A borracheira que alguém plantou em frente das traseiras do nosso prédio tinha perdido o seu belo verde, como se a clorofila a tivesse abandonado, deixando assim de contribuir com a sua fotossíntese, privando-nos da sua quota-parte do precioso oxigénio.
Várias lagartixas e alguns sardões descreviam estranhos movimentos ziguezagueantes por entre as ervas e as flores silvestres amarelecidas. E o mais curioso é que nos últimos dias, a terra tinha sido razoavelmente regada pela preciosa chuva.
O meu fraterno Companheiro denotava sinais de agitação superiores aos habituais. Arrastava-me, através da trela que eu segurava numa das mãos, alternando com a outra.
Medroso volteava a cabeça nervosamente, de vez em quando aquietava-a com o nariz erguido em pequenos movimentos circulares, cheirando o ar, para logo de seguida, serpeando, dar algumas passadas, seguindo em frente com as narinas quase roçando o solo.
Continuámos a nossa caminhada pela estreita via. Notei que no terreno em declive que nos separava da estrada, para além do aspecto desolador das árvores desprovidas de folhagem e das ervas bravias beijando a terra, se encontravam dispersos alguns elementos que num primeiro olhar não consegui discernir os seus contornos.
Aproximei-me um pouco mais. Concentrei o meu olhar naquelas formas. Tratava-se de corpos esquartejados de aves de rapina de grande porte. As longas pernas e as enormes garras assim o confirmavam. Imediatamente o meu cérebro começou a relampejar debitando imagens de há três décadas atrás, quando, pela primeira vez, entrei na enorme câmara frigorifica de uma morgue, pejada de gavetões, que um funcionário alcoolizado, com o cigarro quase mastigado ao canto da boca, ia abrindo, deleitando-se em exibir aqueles corpos inteiros ou retalhados.
De quando em vez, naquele caminho, costumo avistar pequenas aves predadoras em busca de mamíferos roedores e de alguns coelhos que por ali abundam. Não fiquei petrificado. Simplesmente surpreendido pelo cenário mórbido que estava longe de encontrar naquele local.
O Medroso atingiu o cume da agitação. Olhava aqueles despojos para logo me dirigir os seus olhos inquiridores, emitindo uns estranhos sons. Procurei acalmá-lo. Falei com ele, acariciei-o e propus-lhe seguir em frente. Apercebi-me da sua relutância apavorada, puxando-me para trás. Não dei logo conta da razão da sua reacção e olhei em frente para procurar uma explicação.
A cerca de dez metros do local onde nos encontrávamos, a via terminava, abruptamente, na vacuidade de um abismo.
Despertei do meu normalmente pesado sono com um lamento que as feromonas de algumas cadelas da vizinhança, em período de cio, provocam no meu querido e leal companheiro.
Levantei-me. Preparei o café instantâneo que acompanhei com uma bolacha de aveia. Após a useira rotina da higiene diária, vesti-me. Coloquei-lhe o peitoral e a trela.
Saímos para o primeiro passeio matinal.
Comentários Alternativos - Haloscan:
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Comments:
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Olá Fernando, bom dia!
Quando comecei a ler o texto pensei num caso obscuro, tipo dos contos do Edgard Allen Poe, mas como pesadelo foi pesado mesmo. Imagino o Medroso metido num necrotério de aves de rapina, com tanta carne e tudo podre... que desperdício...
O texto está interessantissimo e com um fim inesperado.
Ainda bem que foi sonho, pois a meio do texto eu já estava a dizer com os meus botões: será que há sítios por Lisboa e arredores onde se permitem coisas destas? Não há o direito... mas ainda bem que não passou de um pesadelo, pois por aqui já nada admira mesmo...
Beijinhos, gostei muito e depois ainda me ri!
O sono e os sonhos, pregam-nos cada uma...
Quando comecei a ler o texto pensei num caso obscuro, tipo dos contos do Edgard Allen Poe, mas como pesadelo foi pesado mesmo. Imagino o Medroso metido num necrotério de aves de rapina, com tanta carne e tudo podre... que desperdício...
O texto está interessantissimo e com um fim inesperado.
Ainda bem que foi sonho, pois a meio do texto eu já estava a dizer com os meus botões: será que há sítios por Lisboa e arredores onde se permitem coisas destas? Não há o direito... mas ainda bem que não passou de um pesadelo, pois por aqui já nada admira mesmo...
Beijinhos, gostei muito e depois ainda me ri!
O sono e os sonhos, pregam-nos cada uma...
Meu amigo, isso foi um pesadelo e tanto, muito bem narrado.
Obrigado pelos incentivos que depositou no Baú.
Um abraço,
Obrigado pelos incentivos que depositou no Baú.
Um abraço,
Fernando,
Espero que não tenhas saído pelas traseiras do prédio!! Eu, não o faria no teu lugar.
Gostei desta leitura. Saliento duas coisas que sobressaem no teu post:uma maravilhosa forma de escrita e um escritor com emoções.
Repito: gostei.
Espero que não tenhas saído pelas traseiras do prédio!! Eu, não o faria no teu lugar.
Gostei desta leitura. Saliento duas coisas que sobressaem no teu post:uma maravilhosa forma de escrita e um escritor com emoções.
Repito: gostei.
Mas que pesadelo, piores que os meus, pois te digo...
Beijokas e espero que as aves de rapina não te apanhem em nenhum sonho. É que elas vivem, não estão sempre mortas. Livra! Andas em fase negra!
ZZZZZZZZZZZZZZtttttttttttttttt! Safa!
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Beijokas e espero que as aves de rapina não te apanhem em nenhum sonho. É que elas vivem, não estão sempre mortas. Livra! Andas em fase negra!
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