Sexta-feira, Março 10, 2006
Check In / Check Out
Cinco da madrugada. O efeito dos sedativos vai-se dissipando. Vozes. Umas ténues, outras nem tanto assim. Alguns raios de luz vão inundando os quartos. Nas camas corpos mais ou menos inertes, outros em agitação quase permanente. Grande parte deles envolvidos pela urina e defecação incontinente.
As campainhas dos que ainda conseguem premi-las, emitem os peculiares sinais sonoros com uma frequência progressiva. Durante a (in) quietude da noite os sinais sonoros são mais espaçados.
É altura do costumeiro ritual dos cuidados de higiene e primeira refeição do dia. Quem consegue locomover-se dirige-se para a sala de refeições, sós ou acompanhados, dependendo do seu estado psico-motor.
Homens. Mulheres. A maioria no estado invernoso da Vida. Mas também lá permanecem seres de outras faixas etárias. Até um ou outro caso de quem ainda está na fase Primaveril, mas que cedo conheceu a degenerescência física, psíquica, ou ambas.
Após o pequeno-almoço dirigem-se ou são dirigidos para a sala de convívio. Juntam-se-lhes alguns utentes totalmente dependentes que são colocados sobre os sofás onde se mantêm praticamente imóveis, salvo um pestanejar ou algumas contracções faciais. E o que é mais doloroso, para estes Seres e para quem nutre por eles carinho e dedicação, é o facto de uma parte deles estar no pleno uso dos seus desempenhos psíquicos e como tal, aperceberem-se do porquê de ali estarem.
A maioria permanece calada. Outros, os que ainda conseguem raciocinar, têm pequenas e dispersas conversas entre si. Mas há os que se encontram em estado de delírio e é como que uma tragicomédia que protagonizam. Aparentemente direccionados para os seus parceiros laterais, estabelecem vários monólogos entre si.
Octávio pertence a este grupo. Senta-se, levanta-se, passeia ao redor da sala e pelo hall da recepção. Dirige-se com frequência ao sanitário. Uma vez saiu da casa de banho com a roupa em desalinho e um volumoso dejecto na mão direita. Era hora de visitas e o Octávio na imponência do seu quase metro e noventa rodopiava na sala com o braço direito levantado como se transportasse uma bandeja. Discreta e calmamente, uma funcionária retirou-o dali e conduziu-o para o quarto para o lavar e mudar de roupa.
Guinevere, uma gentil octogenária, de estatura pequena, num corpo seco e uns belos olhos azuis, permite imaginar a beleza Primaveril de que ainda conserva muitos traços. Fala pouco, mas com doçura.
Hora de almoço. Inicia-se a caminhada para a sala de refeições. Sentam-se nos lugares habituais e a tragicomédia continua. Há quem fique indiferente ao conteúdo do prato à sua frente. Assim como quem coma sofregamente. António pertence a este último grupo, sentado em frente de Joaquim, vai retirando do prato do parceiro pedaços de comer. Ambos entrados no tal estado delirante irreversível. Durante a sobremesa, perante a indiferença de Joaquim, António tira-lhe a laranja que deglute sofregamente incluindo a casca.
Uma parte destas pessoas necessita de ser de novo lavada e mudada de roupa, pois para além das marcas da recente refeição, a incontinência também as acariciou.
Elisabete observa tudo isto da prisão da sua esclerose múltipla. Quarenta e poucos anos. Em contraposição, o seu desempenho psíquico é normal e célere. Mulher inteligente e culta, fluente de palavras. Aparentemente conformada pela rigidez de um corpo que só lhe permite balancear os olhos e entreabrir os lábios Elisabete vive o quotidiano eivado de lembranças e entretém-se a analisar o ambiente restrito onde se encontra confinada.
Por entre estes Seres existem alguns com os corpos minados pelas escaras, com os tecidos num estado de necrose progressiva. Necessitam de ser tratados várias vezes ao dia. O cheiro exalado por aqueles buracos, alguns de enormes proporções, é insuportável. Mesmo com as mascaras a protegerem os rostos, algumas prestadoras de cuidados paramédicos não resistem e afastam-se para vomitar.
Quanto aos que se locomovem mais ou menos bem e que estão no seu perfeito estado de salubridade mental, têm comportamentos variados. Desde os que denotam atitudes comportamentais correctas, a outros que, pela sua hostilidade perante os companheiros ou funcionários, revelam um refinamento da agressividade latente durante a sua vida não dependente de terceiros, agravada pela revolta que sentem ao reconhecerem-se confinados àquele local até que o seu coração deixe de bater.
De vez em quando alguns partem. Terminam as suas angústias e os seus martírios. Quem fica, já está habituado a ver e a sentir os que partem. Os que não estão delirantes, obviamente.
Como a doce Guinevere aguardando serenamente a hora do seu embarque ou a imóvel Elisabete com o cérebro latejando de recordações, ocupando-o numa permanente análise dos seus pares e de todo o meio envolvente.
Todos estes Seres Humanos, foram colocados ali ou noutros locais similares para aguardarem a sua Partida.
Quando chegam são objecto de um breve Check In, para mais cedo ou mais tarde lhes prepararem o seu Check Out.
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