Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Despedida

Yoko deitado sobre o scanner


Apareceu aqui na escada no final do verão passado, vindo, ninguém soube de onde.

Aparentava não ser um sem-abrigo. Encontrei-o pela primeira vez no hall de entrada do edifício quando regressava do habitual passeio com o Medroso. Este, foi cheira-lo no inicio das escadas onde o garboso gatinho de pelagem prateada se tinha postado com ar amistoso e soltando umas adoráveis miadelas. Entretanto chegou um jovem vizinho com o seu cão Yoko, também regressado do “passeio das necessidades”. Nesse momento os dois cães começaram a ladrar excitados. O Yoko, um simpático cãozinho brincalhão, quis ir cheirar o gatinho, mas este não achou graça e bufou-lhe. O meu vizinho guardou o cão dele em casa cuja porta fica em frente à do meu escritório e eu guardei o meu. Abrimos a porta da rua ao gatinho e ele saiu compassadamente.

No dia seguinte lá estava ele de novo. Falei com o meu jovem vizinho e ele disse-me que não tinha possibilidades de ficar com o bichano. Subi ao quinto andar e fui conferenciar com a Família. Pois… já tinha adoptado o Medroso em 2002 e lá em casa já viviam o gato Pipocas com 14 anos e a gata Farrusca com 13, que fazer?

E o gatinho veio morar aqui para o meu escritório. Adaptou-se bem, incluindo o seu relacionamento com a minha “sombra”, o Medroso. Pedi aos meus Netos para lhe darem um nome e eles escolheram YOKO tal como o cão aqui do vizinho.

Os dias foram passando. De vez em quando, como aqui tenho quase as mesmas condições como na minha residência, dormia cá, com o Medroso, pois claro, para fazer companhia ao gatinho Yoko, atenuando-lhe assim as outras noites de solidão.

Tenho a mesa do computador junto à janela. O Medroso postava-se (o que ainda faz) do meu lado esquerdo encostado à parede da janela e o Yoko do lado direito sobre a carpete, mas volta que não volta, saltava para a mesa a ronronar e eu tinha de fazer uma grande ginástica para mover o “rato” e olhar para o monitor. Ele não dava “marradinhas”, olhava-me com aqueles belos olhos felinos, esperando que o acariciasse. Depois, andava a passear por cima da impressora, scanner e de um móvel contíguo. Outras vezes acomodava-se sobre o scanner.

Há poucos dias notei que o gatinho quase não comia, deixando praticamente de defecar e com dificuldade em urinar. Isto durante esta semana que agora terminou.

Confiando na capacidade de auto-regeneração dos chamados irracionais, ia estando atento e os primeiros sinais de que estaria perante algo mais complicado foram dados quando o gatinho deixou de vir para junto de mim, isolando-se.

Na passada quinta-feira resolvi dormir aqui. Durante o serão, antes de me deitar, o Yoko saiu do seu recanto e veio junto a mim saltando para cima da mesa e emitindo um miado que me pareceu estranho. Acariciei-o e ele foi deitar-se sobre o scanner. Passado algum tempo voltou para o chão e foi refugiar-se sob a cama no quarto. Quando me deitei ainda o chamei várias vezes. Mas ele não fez o que costumava – deitar-se junto à almofada durante um tempo e depois aninhar-se junto às minhas pernas.

No dia seguinte, na passada sexta-feira, quando me levantei deparei com ele no hall, sobre a carpete. Peguei nele e depois do acariciar coloquei-o sobre a cama. Manteve-se lá pouco tempo, isolando-se mais uma vez. Telefonei à médica proprietária da Clínica Veterinária, onde costumo levar os meus bichanos. Disse-me que estava de férias mas um dos colaboradores dela atender-me-ia.

Lá fui eu e a minha Filha, que embrulhou o gatinho numa grande toalha de praia. Fomos atendidos por uma jovem médica veterinária, que se limitou a ouvir o meu relato e depois de uma breve apalpação, diagnosticou uma infecção urinária e desidratação como consequência da mesma. Aplicou-lhe, pelo menos, dois tipos de soro e injectou-o com antibiótico e anti-inflamatório, dizendo que nos próximos cincos dias teríamos de lá voltar para lhe serem aplicadas as doses diárias de soro, antibiótico e anti-inflamatório. Passados esses cinco dias, parava-se o tratamento com o soro e seriam prescritas tomas em casa sem necessidade de deslocação ao consultório. Para além disto, prescreveu uma alimentação especial, que lá vendem, com o objectivo de o fortalecer e de lhe regular o aparelho urinário. Isto aconteceu entre as 15 e as 16 horas.

Regressados aqui, preparámos uma caixa de cartão com tudo o que era necessário para que o gatinho se sentisse confortável. A minha Filha aconchegou-lhe a toalha e deitou-o. De vez em quando eu ia espreita-lo. Por volta das 19 horas quando a minha Filha regressava com o meu Neto mais velho, fomos novamente junto ao Yoko e notámos que ele estava com insuficiência respiratória. Não lhe disse, mas pensei que estava perante um desfecho irreversível.

A minha Filha ainda telefonou para a referida clínica. Atendeu-a um médico que se comprometeu a entrar em contacto com a colega para saber do diagnóstico e da medicação aplicada. Ficou de contactar de seguida connosco. Não o chegou a fazer. Cerca das 20 horas fui junto a ele. Estava sereno, com os olhos abertos. Soergui-o um pouco. Ainda o apalpei com uma ténue esperança de lhe detectar sinais vitais.

O Medroso olhava como que incrédulo para o seu Companheiro de alguns meses. Entrámos no elevador. Quando abri a porta de casa a minha Filha perguntou-me pelo gatinho. Limitei-me a abanar a cabeça. Ela gritou e chorou revoltada e eu também não me contive.

A Sandra correu para o telefone e descarregou a sua revolta numa funcionária do Consultório. Daí a pouco telefonou o médico que tinha ficado de contactar com a colega que tratou o Yoko. Como previsível, colocou “água na fervura” dizendo que a medicina para os animais não estava tão desenvolvida como para as pessoas, blá, blá, blá…

Não quero fazer aqui juízos de valor. Mas penso que se passou algo de estranho. Não foram efectuadas quaisquer análises sanguíneas ou exames radiológicos. Que, julgo teriam de ser feitas para um correcto diagnóstico e aplicação das medidas adequadas. Fui suficientemente claro no relato que fiz a essa jovem médica veterinária e como tal creio ter-lhe fornecido pistas que a poderiam conduzir a uma avaliação, a mais correcta possível, do quadro clínico apresentado.

Desculpem a extensão deste desabafo. Foi um fim-de-semana dramático. Perdi um Amigo. Embora recente era uma Amizade já bastante fortalecida.

Na noite da passada quinta-feira, quando ele saltou para aqui pela última vez talvez estivesse a querer transmitir-me algo.

Tal como uma despedida.

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Descrição sensível de uma alma sensível. É triste mas aconteceu e sabe-se lá o porquê de ter acontecido! Erro? Estado adiantado de uma doença escondida? O que é certo é que quando coisas destas acontecem, se fica muito muito triste pois o afecto não é um sentimento fácil de digerir, na perda...
 
Amigo Fernando, que te posso dizer?
Os animais escolhem os amigos, depois da escolha feita, são amigos de verdade.
Este gato escolheu-te e não me admira nada, porque sei o quanto podes ser amigo tambem. Comoveu-me ler esta despedida ja antes de chegar ao fim, ja previa que tambem em ti ia encontrar uma lagriama, e são essas lágrimas nos olhos do homens que mais me conseguem comover! Pois consigo medir melhor a intensidade o bem- querer nos olhos de um homem, tb o sou e sei que quando choro é porque a dor é muito muito profunda. A partir de certa idade, no meu caso os 40, tornei-me cada vez mais nisso mesmo, um lamechas! Não me envergonho de o dizer, pois foi um sinal de que comecei a olhar para as coisas com outros olhos, olhos de ver, sentir, mas sentir mesmo sem abafar os sentimentos que possam ser provocados pelas situações varias da vida.
A ti digo, os meus sentimentos, perdest um amigo. Valeu pelo que lhe deste em vida e vice-versa.
são as lições que levamos todos os dias mas a vida continua.
Abraço meu amigo
 
Lamento que o Yoko tenha partido depois de encontrar um dono com um coração tão grande. Os animais sõ grandes companheiros e nós afeiçoamo-nos a eles e sofremos sempre com a sua morte. Fizeste bem em partilhar a tua dor porque, por vezes, isso ajuda. Quanto aos médicos, veterinários ou não, infelizmente há aqueles que desvalorizam o sofrimento de cada um que lhe cai nas mãos. Neste caso foi o teu gatinho que teve pouca sorte. Eu teria tido a mesma reacção da tua filha pois é desperante.
Tive uma cadela husky que morreu envenenada. Não sei como aquilo aconteceu, mas aconteceu. O veterinário fez tudo o que lhe foi possível mas não conseguiu salvá-la. Choramos como se fosse uma pessoa que tivesse morrido. Já lá vão 2 anos e ainda pensamos nela com saudade e uma lágrima ao canto do olho...
O Yoko era lindo. Gosto imeso de gatos. Tu tens uma alma grande. Bem hajas!

Um abraço
Leonor
 
Meu querido Fernando senti-me arrepiada ao ler o teu relato, eu também tenho animais e sei a dor que sinto quando os vejo doentes neste momento tenho o meu cão que tem 14 anos e é cardiaco a ser operado para extrair dois dentes que lhe estão a furar o rosto. Tenho também uma gatinha que quando foi fazer a exteractomia, fiquei a dormir com ela ainda meia inconciente devido á anestesia e nem sabes como fico quando tenho um dos meus amigos do peito doentes eles fazem parte da minha vida, a minha gata "Kika" também me prega as partidas que o teu Yoko te pregava quantas vezes tenho de esperar que ela saia para poder ver o monitor se n/ se lembrar sentar-se en frente dele.Fiquei feliz por seres assim, és exatamente como eu pensava uma boa pessoa. beijinhos para ti Fernando.
 
... chama-se, ou pode chamar-se, insensibilidade. não deveria acontecer num lugar desses mas também acontece nos lugares onde nós próprios, os outros bichos, vamos "receber" cuidados de saúde.
agora ele está descansado e a mágoa que vos ficou vai atenuar-se... e, deixa lá, se ela te havia escolhido deve ter sido por saber-te merecedor da vigília que passará a fazer por ti lá no céu dela...
 
Nunca leio este tipo de histórias Fernando, n costumo ser capaz, nc vou até ao fim... tive um gatinho de que pouco falo que tenho quase a certeza que morreu de sobredosagem de medicação...
Nunca fui capaz de culpar a veterinária totalmente pq ela sp fora um amor...
Neste caso, acho que tinha que ser assim...

Hoje li... uma forma de exorcismo... talvez.

Eu acredito que eles tb têm uma energia própria que não nos abandona. E que seguem o seu caminho.

Um beijo grande Amigo.
 
Passaro Azul said...
Meu amigo,
partilho contigo a tua dor pela perda do Yoko, um gato amigo que te escolheu,pois os animais sentem e sobretudo pressentem quando estão perante uma alma boa,generosa,grandiosa e verdadeiramente amiga como a tua.
Deste-lhe todo o carinho e cuidados possiveis desde que o acolheste, e é isso que vale e que agora te pode dar alento.
A lembrança ficará sempre e com ela a inevitável dor da perda de um ser querido. Deixo-te a minha palavra de força,ânimo e coragem para poderes ultrapassar estes dias dificeis.
Obrigada pela partilhada tua dôr.
Abraço-te com as minhas asas de Pássaro Azul,e sonho que nesse abraço posso levar para bem longe as tuas mágoas.
Com todo o meu carinho e amizade, "FORÇA AMIGO".
 
Pois é amigo Fernando, estas coisas fazem parte da nossa vida. Há duas semanas atrás tocou-me a mim a perda de uma relação canina com muitos anos.
É duro mas a gente conforta-se com as recordações que nos deixaram.
Para além disso, tenho a sorte de ter uma excelente veterinária na minha rua mas que nada conseguiu fazer por ela.
Ainda me resta a Gata e um tempinho para te dizer que lamento a tua perda e perceber muito bem o que nos dizem estas coisas.

Um abraço.
 
Tenho 2 Cocker... (há mais de 10 anos) no comments ...
 
Força companheiro. Se tens um coração assim tão grande também será forte para aguentar essa tristeza.
 
Pode parecer ridículo, confortar um amigo pela morte de um gato, mas para mim não. São seres tal como nós, por quem nutrimos grande amisade. Não sei se ele era o que queria sair para a rua, quando te fui visitar. Foi pena não teres comentado comigo o estado do gato, pois podia ter-te diagniscado logo a doença, insuficiência renal, infelizmente experiência no assunto não me falta, como sabes cá em casa tenho dois e um deles com cerca de 20 anos. Foi um erro crasso não lhe terem logo na primeira vez feitos as análises, a cura era muito difícil, mas havia a possibilidade de lhe prolongar a vida por muito mais tempo, é o que se passa com o meu velhote.
O melhor remédio para essa tristeza é adotares um gatinho recem nascido. Vais ver que funciona.
Um abraço. Augusto
 
Sinto muito, Fernando, mesmo muito. Já não falo no teu texto, mas naquilo que deves estar a sentir.

Sei o que é perder um amigo assim.

Beijinhos
 
Caro Fernando o teu desgosto é muito bem compreendido por mim, pois já tive mais que uma perda dessas. Lamento, mas coragem, irás arranjar um outro bichano porque eles são os nossos grandes amigos.Um beijo amigo
 
Só agora li este texto e não consegui evitar a dor e as lágrimas. Sei o que é perder Amigos desses. Sei o que é t~e-los, amá-los e vê-los partir, assim... sem nada poder fazer. Tenho aqui mesmo encostado a mim, o meu fiel Sting, que nunca me abandona. Não sei que faria sem ele.
E, nada, mas mesmo nada, substitui estas perdas, no nosso coração. Eles ficarão sempre dentre dele...

Um abraço carinhoso
 
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