Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Cravofobia


Cravofobiaestado psicopatológico caracterizado pelo medo de passar por ou estar junto a tão democrática flor e a tudo o que ela representa nas mentes abertas desta Lusitânia do nosso (des) encanto. (termo e definição minha)

Cresci em Lisboa no popular Bairro de Alfama, de onde sai para um Bairro adjacente aos 20 anos de idade, por ter casado um mês após ter sido libertado das masmorras da Pide.

Durante as várias fases do meu desenvolvimento, da meninice até ao chamado estado adulto, recordo-me de nas varandas da minha casa, a minha Mãe ter sempre a preocupação de manter vasos, entre outras espécies, tais como: espargos, sardinheiras e, os populares cravos.

Pelas janelas da vizinhança e por todo o Bairro em geral, raras eram aquelas, que não estivessem pejadas de vasos com as mais variadas plantas, flores e até era frequente verem-se crescer nespereiras nas sacadas daquelas janelas, onde algumas atingiam ou até ultrapassavam as janelas dos vizinhos dos andares cimeiros.

Mas havia duas flores que predominavam em todas as janelas, as das sardinheiras e os cravos vermelhos.

É evidente que isto também se passava nos outros Bairros, mas com destaque para os chamados Populares e por esse País fora. Do litoral urbano ao interior bucólico de então, raras eram as pessoas que não prestavam o seu culto às plantas ou às flores.

Mas retornando aos Bairros Populares de Lisboa e em especial àquele onde vivi e cresci, os cravos assumiam um papel de relevo nos comportamentos das pessoas. A vizinhança era composta maioritariamente na parte feminina, por vendedeiras de peixe, fruta, legumes, caracóis, fava-rica, etc. Quanto aos homens, exerciam as profissões de estivadores, marinheiros, operários de diversas especialidades – funileiros, mecânicos, pintores, bate-chapas, etc. e um número significativo de produtores de mais valias, ou seja, o então proletariado fabril.

A par de uma ou outra escaramuça, principalmente entre as mulheres, que não demoravam muito a dirimir-se, as pessoas eram de um modo geral fraternas entre si, acorrendo aos seus vizinhos quando estes necessitavam da sua ajuda, tanto sob o ponto de vista emocional, como de situações de doença ou de dificuldades financeiras, compartilhando o pouco que tinham com quem tinha muito pouco.

Pelos Santos Populares era uma alegria. Elas, confeccionando flores e outros adornos de papel, multicores. Eles, regressados do trabalho, montavam-se em escadotes de madeira e estendiam os suportes para aqueles adornos onde colocavam balões igualmente de papel. Estes, ainda me recordo, nos primeiros anos da minha meninice, eram iluminados por velas. Posteriormente passaram a utilizar lâmpadas eléctricas.

Numa pequena loja térrea do prédio onde morávamos vivia a tia América, vendedeira de frutas e legumes, o seu marido e uma numerosa prole. A tia América e o tio Fernando, ajudados pelos Filhos e pelas Amigas Celina e Rosinha, também vendedeiras, improvisavam mesas com umas tábuas e toca de colocar o fogareiro a carvão ao lado da casa, nos degraus que davam acesso ao prédio onde nós habitávamos o segundo andar, ateando o lume e era sempre a aviar. Centenas de sardinhas passadas por aquelas brasas.

Encostado ao prédio em frente costumavam erguer um palanque destinado aos animadores populares da Festa. Tocavam acordeão, banjo, bandolim, etc. E mesmo com a rua inclinada em forma de calçada, os pares não se coibiam de dar uns bons passos de dança naquela pista de basalto.

Chegamos então aos simpáticos manjericos que os rapazes compravam para oferecer às suas namoradas ou às moças que pretendiam conquistar. Por entre a verdejante planta aromática sobressaía um cravo vermelho, não de papel, mas natural. Muitos homens colocavam cravos nas lapelas dos casacos ou entre os botões das camisas. E a Festa durava até altas horas da madrugada. No final alguns homens e mulheres, vencidos pelo cansaço ou pelo carrascão da zona Oeste, ficavam descontraidamente prostrados no chão até o sol raiar.

Eram momentos que funcionavam como um paliativo efémero de felicidade, onde a maioria das pessoas atordoava num recanto do seu âmago as tristezas e os dramas do quotidiano.

Os anos foram passando e para agravar a situação dramática vivida pela maioria do Povo Português, fomos confrontados com cerca de 14 anos de guerra, ao longo dos quais foram ceifadas ou estropiadas milhares de Vidas.

Muita gente que viveu esses tempos de negrura, já se esqueceu ou procura camuflar a Verdade histórica. Contudo, há mais de três décadas a esperança renasceu e o Povo que mesclava as suas mágoas nos Santos Populares ou se atordoava no vinho das tabernas, quando ao raiar de uma manhã descobriu atónito um punhado de soldados, correu para junto deles e decorou os canos das suas armas com os fraternos cravos vermelhos.

Seguiram-se alguns tempos de encanto e muitos anos de desencanto, em que muitos ficaram pelo caminho ou venderam a sua consciência, ajudando inconsciente ou conscientemente, à regressão a muitas situações do passado. Espezinharam os cravos, o que quer dizer, o simbolismo que eles representam para os Espíritos abertos à Fraternidade Universal.

Nos tempos que correm pouco mais nos resta do que a Liberdade de expressão e reunião. Mesmo estes valores encontram-se ameaçados pelo revanchismo com mascara democrática ou ostensivo.

É não só necessário, mas urgente, de que todos os se reclamam defensores de uma sociedade mais equilibrada, para não utilizar outra terminologia, embora justa e apropriada, unam as mãos em defesa dos valores que sempre defenderam e lutaram.

Os cravos, assim como toda a flora, fauna, enfim, a Natureza, não são pertença exclusiva de ninguém. São de todos os que quiserem amar e cultiva-los ao invés de optarem pelo derramar de sangue alheio.

Mas, infelizmente, anda por aí muita gente que sofre de cravofobia, um termo que não consta de qualquer dicionário, mas que eu sugiro que passe a figurar.

Espalho os meus cravos vermelhos por todos vós, mesmo sabendo que alguns terão relutância de os tomar e acolher.


Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Fernando,
Gostei muito desta tua exposição, e concordo contigo, as pessoas por vezes dão determinadas simbologias a coisas que antes eram consideradas normais, como é o caso dos cravos.
Parece-me realmente que o termo que sugeres devia constar no nosso vocabulário, porque realmente hoje em dia existe mesmo essa fobia.
Eu pela minha parte aceito de bom grado os cravos que estás a espalhar.
Abraço.
 
Nunca vivi num bairro de Lisboa e o teu texto serviu para eu saber um pouco dessas histórias. Gosto do simbolismo do cravo, mas nunca apreciei essa flor. Gosto de túlipas. Aceito os teus cravos, pelo que eles simbolizam. Beijos.
 
Falando por mim não tenho essa cravo(fobia)gosto muito de flores embora não consiga pegar num ramo de flores bem como por exemp não consigo empurrar um carro de bébé, não consigo pegar num molho de couves etc
Sou do tempo desses vasos nos parepeitos das janelas e estão imortalizados por uma popular musica da Diva Amalia.
Tenho muitas ligações familiares ligadas ao Bairro Alto
Tenho grandes Amigos que trazem "Cravo" ao peito e conhecidos a Nivel Nacional que são visita de casa. Essas fobias amorfas nada me dizem, incomoda-me isso sim, outras fobias disfarçadas que reinam neste DESFEITO PORTUGAL.
UM GRANDE ABRAÇO E SINCEROS VOTOS DE MUITA E MUITA SAUDE.
"SEM PALAVRAS"
http//latf.blogs.sapo.pt
 
Obrigada por lembrar os cravos e o que sempre representaram na cultura popular e como símbolo daquilo que pensamos que foi uma revolução exemplar que comoveu o mundo e a nós todos porque sempre julgámos impensável que um regime daqueles pudesse sucumbir...
É bom ir lembrando que cravos existem e continuarão a existir e a sociedade ao evoluir de uma forma tão desigual como a sentimos, não soube corresponder aos anseios do povo emblemizados numa simples e vermelha flôr...
Por todo o lado já se ouve e se sente que era preciso outro 25 de Abril... mas se calhar aí o cravo não entrava, só a ferradura...
Um abraço,
 
gostei muito do meu cravo vermelho. obrigada.
um abraço
graziela
 
O texto está bonito e interessante, como aliás quase tudo o que escreves, embora eu pessoalmente continue a preferir abordagens mais diretas e frontais aos assuntos. ;-)

Relativamente ao assunto que te motivou a escrever este texto, tenho sérias dúvidas se o problema é essa "muito boa gente" sofrer dessa nova patologia que inventaste com alguma graça, a "cravofobia", ou se se trata apenas de outro velho estado emocional mais clássico e tradicional, a conhecidissima "casmurrice", por parte de outra "muito boa gente"! ;-)

Claro que é mais fácil culpar as inocentes flores. Mas será mesmo a atitude mais proactiva, Fernando???...
 
Adorei os cravos e a tua prosa. Realmente a "cravofobia" deveria ser incluída não só nos dicionários mas quem sabe tb nalguma nova doença q por aí vem surgindo. Eu gosto mto de cravos, nomeadamente os brancos que são os únicos com um aroma incrível. Os cravos vermelhos lembram-me o inesquecível 25 de Abril, e numa simbologia mais triste, o funeral do meu pai, que só levou cravos vermelhos.
Acho q entendo o significado deste texto, mas há q ser tolerante com o próximo. Essa é a minha palavra de ordem.
Beijos doces para ti amigo
 
Gosto mais de malmequeres... bravios, selvagens e crescem em qualquer sítio! Os cravos são muito sensíveis!
 
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