Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, junho 27, 2005

A Mãe de Carlos – III

Aparecia silenciosamente, só tocando de leve à porta da sala. Segurava um tabuleiro coberto com um pano. Sobre ele duas canecas de café com leite e um prato pleno de louras e apetecíveis torradas, resultantes da abertura a meio de papo-secos. Convém aqui explicar para os mais novos que se designavam assim os pães ovalados com dois bicos nas pontas, como de mamilos se tratasse. Existem nos nossos dias estabelecimentos onde poderemos encontrar pães similares a esses.

O café com leite fumegante e o calor das deliciosas torradas invadiam com um aroma muito agradável a pequena sala de jantar. Afastávamos os livros e demais papelada. Ela pousava com natural delicadeza o tabuleiro no espaço livre da mesa. Esboçava um sorriso angelical e proferia algumas palavras suaves.

Desde o primeiro dia que a vi entrar por aquela porta, que o meu espírito romântico e sonhador, registou todos os pormenores da sua figura esbelta, tal como uma descrição, por exemplo, de uma personagem de Marion Zimmer Bradley.

Era uma Senhora nova. Talvez não tivesse completado os quarenta anos de idade. Estatura média alta, magra, muito elegante. As roupas de tons escuros, simples e sempre muito bem cuidadas, conferiam-lhe no meu imaginário, o porte de um modelo sem quaisquer laivos de artificialidade, com o pisar do chão feito de forma delicada e natural.

Tinha a tez branca, não demasiado, com um leve toque rosado a ilumina-la. Cabelo negro, solto em compostura. Não tinha qualquer traço rugoso a macular-lhe o rosto. Sobrancelhas e pestanas bem desenhadas. Olhos rasgados que albergavam uma íris cor de mel com negras bolinhas concêntricas que à noite se dilatavam um pouco, irradiando do seu olhar, um puro, mas penetrante odor imaginário. O nariz fino e uma boca bem torneada que exibia uns deliciosos lábios cor de cereja claros.

Fazia-nos um pouco de companhia no início da nossa apetitosa ceia. Perguntava que tal estavam as torradas e eu, saboreando-as e acompanhando-as com pequenos goles de café com leite, quedava-me embevecido a contemplá-la. É possível que Ela tivesse notado o meu fascínio adolescente quando os nossos olhos se cruzavam e era premiado com o seu doce sorriso. O que eu sentia acima de tudo era fascinação por aquela Senhora, talvez pudesse definir os meus sentimentos como uma manifestação libidinosa pura, que me impulsionava a abraça-la e beija-la longamente no delírio dos meus Sonhos quando acordado.

Terminada a nossa refeição, Carlos transportava o tabuleiro para a cozinha e prosseguíamos já com os nossos estômagos reconfortados a nossa tarefa de Luta por uma Sociedade mais justa, a caminho da Utopia dos nossos Sonhos, onde o Amor fosse uma palavra de ordem.

(continua)

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quarta-feira, junho 22, 2005

Memórias de prisão e a ignomínia da traição


Zita Cruela Devil, segundo dizem, iniciou-se nas lides politicas ainda adolescente. O mesmo aconteceu com este vosso escriba, que foi encarcerado quinze dias antes de completar os vinte anos de idade. Durante seis meses. Três na prisão Aljube, em Lisboa, e outros três nos cárceres do forte Caxias.

Era o mais novo dos presos políticos nesse ano de 1963. Nos primeiros dois meses, enfiaram-me nos chamados “curros” do Aljube. Um rectângulo muito estreito de onde pendiam suspensos da parede por correntes, dois miseráveis catres alinhados horizontalmente. A cela possuía duas portas. A que estava junto ao primeiro catre, tinha umas grades e a sua altura, segundo me recordo, seria a de pouco mais de dois metros. Entre esta porta e a outra, um pequeno espaço quadrangular, que julgo que era para albergar alguns pertences dos prisioneiros. Ao contrário da primeira referida, que tinha um espaço livre até ao teto, a porta de acesso à cela, estava hermeticamente encaixada nas grossas paredes. Não tinha grades. Em vez delas, um pequeno postigo, que estava quase sempre cerrado, deixando os prisioneiros às escuras a maior parte do tempo e que só viam um pouco da luz do dia há hora das refeições ou quando tocavam a campainha para irem aos sanitários. Dentro do “curro” haviam dois escarradores. Duas peças em lata, com uma pega, para recolher a expectoração dos residentes.

A maior parte desses dois meses estive sozinho. Passaram por lá, por breves dias, três companheiros: Um funcionário publico, um delegado de propaganda médica e um fragateiro. Destes três companheiros, encontrei, depois de “Abril” e às vezes ainda me cruzo com ele, aquele que referi em segundo lugar e que, por motivos óbvios omito o seu nome.

Quando estava só, o meu entretimento era tentar comunicar com os companheiros das celas vizinhas através de toques nas paredes. Só para que se tenha uma ideia, imagine-se as 23 letras do alfabeto (omitia-se o K, o W e o Y). Para construir uma palavra, davam-se tantos toques quanto o posicionamento numérico de cada letra. Chegados ao fim da palavra fazia-se um pequena pausa e recomeçava-se construindo outra palavra. Quando acabávamos a frase, dois toques rápidos.

Ninguém me ensinou esta forma de comunicar. Isto surgiu naturalmente quando comecei a ouvir batidas na parede e depois me apercebi dos movimentos cadenciados. É fantástico como a mente humana face a determinadas situações nos dá a respectiva solução para determinados problemas. E depois eu também “inventei” umas simplificações como por exemplo: bom dia = b d; boa tarde = b t; boa noite = b n; etc.

Ao terceiro mês, enviaram-me, ainda no Aljube, para uma sala comum. No quarto mês para Caxias. Aqui, estive no reduto norte, numa cela comum subterrânea, durante dois meses e finalmente no sexto e último mês transferiram-me para o reduto sul para outra cela comum, com dois compartimentos mais ou menos amplos. Um, com várias camas alinhadas em beliches e o outro que servia de local de refeições, arrumações e convívio. Neste local existia uma mesa comprida com bancos corridos, uma pequena dispensa e um antigo móvel com gavetas. Tudo que recebíamos dos nossos familiares era devidamente arrumado ali. Bolos meticulosamente esquartejados pelos guardas, antes de nos serem entregues e outros artigos alimentares. Os maços de tabaco eram devidamente arrumados por ordem de marcas no referido móvel. Quando algum fumador necessitasse de um maço dirigia-se à gaveta e tirava-o. O mesmo acontecia, com os pedaços de bolo, sandes, etc.

Junto às grades, nessa zona de “lazer”, existia uma improvisada mini-cozinha, com um pequeno fogão eléctrico. Aí se faziam os petiscos, com os artigos alimentares levados pelos familiares. O principal cozinheiro era o “D”. A limpeza das duas salas eram efectuadas por nós, através de uma escala devidamente organizada.

E assim passávamos os dias. Conversando, debatendo ideias, por vezes acaloradamente. Durante este período em que estive junto com outros companheiros de luta, ouvi esses homens mais velhos, alguns já com idade bastante avançada, contarem as histórias da sua vida privada e da luta contra o fascismo. Uns eram proletários, outros corticeiros, fragateiros, trabalhadores da Carris e da CP, dois alfaiates e finalmente, eu e o ex-camarada que foi preso comigo, estudantes.

Da boca desta gente, ouvi, entre muitas outras coisas falar do “culto da personalidade”, repudiando-o, da dureza da luta clandestina e de traições. Sim, de traições. Há uma coisa que temos que reconhecer, é que a Pide, sabia muito bem “radiografar” cada um de nós e como tal, diagnosticava, aquelas ou aqueles, receptivos às suas propostas de traição e como sabemos algumas e alguns, não hesitaram em trair e renegar os ideais por que diziam lutar passando-se de “armas e bagagens” para o outro lado da “barricada”.

Desde muito novo, que digo que as pessoas não mudam. Revelam-se, quando para isso têm oportunidade. É qualquer coisa que virá do inato e do adquirido que se aloja no inconsciente, fazendo um compasso de espera no pré-consciente e quando os factores internos e externos o propiciam, o seu verdadeiro EU revela-se através do consciente, soltando-se-lhes a mascara por vezes muito bem moldada durante anos e anos.

Não havendo verdades imutáveis, existem realidades inegáveis. A Historia da Humanidade é fértil em exemplos de luta de oprimidos contra os seus opressores. Assim como também é verdade, que as ideologias surgidas mercê desta Luta, sendo puras na sua essência, poderão ser adulteradas ao invés de aperfeiçoadas, por muitos dos que são proclamados ou se auto proclamam seus executores.

Os seis meses que estive encarcerado, embora dolorosos, foram uma “gota de água” em comparação com muitos daqueles companheiros, que durante anos a fio, alguns deles, passaram pela prisão de Peniche, pelo campo de concentração do Tarrafal e pelo degredo do longínquo Timor. Este período da minha Vida, apesar das circunstâncias, foi bastante enriquecedor em termos de aprendizagem sobre o comportamento humano.

É evidente que a condição de ex-preso político, por si só, não confere a ninguém o estatuto de imunidade, coerência ou honestidade. É a sua pratica quotidiana, em liberdade, que se encarregará de o ajuizar.

Não sei se a cidadã Zita Seabra, conheceu os cárceres pidescos. Nem isto será relevante. Pois muita gente, que nunca esteve encarcerada ou que despertou para a Luta após o 25 de Abril, tem-se revelado como excelentes combatentes pela Liberdade e pela dignidade do colectivo em detrimento de benesses individuais.

Sei que essa cidadã, após a Revolução de Abril, esteve presente na Assembleia da Republica durante algumas legislaturas como deputada do Partido Comunista Português e que fez parte de órgãos de direcção deste Partido, até à sua suspensão em 1988, tendo sido expulsa dois anos depois.

Não é minha pretensão escalpelizar as razões que levaram o Comité Central do PCP a tomar tal medida. Mas é minimamente estranha ou talvez não, a travessia ou o transformismo politico protagonizados pela cidadã Zita. Revelou-se, caiu-lhe a mascara, quando assentou no lugar que certamente há muito ambicionava – o outro lado da “barricada”. Mas quem trai, os valores que dizia defender, pode fazer o mesmo em relação às novas amizades adquiridas e decerto que as individualidades mais argutas do PPD/PSD estão bem atentas e conscientes acerca da malabarista que “contrataram”.

Sobre Álvaro Cunhal, já tive oportunidade de escrever algumas linhas, realçando a sua Verticalidade como Homem e como Combatente Honesto pela Causa da Liberdade e Dignidade dos concidadãos, do seu PORTUGAL, sem descurar em momento algum a Fraternidade Universal que devotou a outros Povos, igualmente humilhados e ofendidos.

Certamente que teria os seus defeitos. Mas as virtudes reconhecidas não só pelos seus camaradas de Partido, como pelos seus mais ferozes adversários, superavam as suas eventuais imperfeições.

Quando aqui há dias, após o falecimento desse grande combatente anti-fascista, pediram à cidadã Zita um comentário, esta ignóbil senhora, depois de breves palavras mais adocicadas, classificou Álvaro Cunhal como “dogmático, sectário e cruel… o que é natural num comunista”.

Pois é, dona Zita Cruela Devil, você além de torpe, é uma pobre de espírito arrogante, uma trampolineira que não perde a oportunidade de revelar a sua verdadeira face de camaleão fêmea, permanentemente com o espelho em frente da sua cara crispada. O que quer dizer, que você foi naturalmente até 1990, uma reles “dogmática, sectária e cruel” criatura.

Nós, os que permanecemos fiéis à Luta, sempre atentos às mutações da Humanidade, não nos quedamos estáticos, de olhos, ouvidos, ou com os nossos cérebros cerrados. Ao contrário do que você vocifera, nós nunca permitimos quaisquer vendas nos olhos ou que nos amordacem as bocas. Todos podemos exprimir livremente a nossa opinião e dar individualmente a nossa contribuição para o colectivo.

Falando por mim, nunca ninguém ousou calar-me. Sempre disse o que pensava. Mas nos locais próprios, sem procurar protagonismos na praça publica.

Sempre, decidindo o que havia para decidir, colectivamente. E as decisões do colectivo eram isso mesmo, nossas. A esta praxis dona Zita, eu classifico de Democracia.

Tenha vergonha, dona Zita. Já que está comodamente instalada nas mordomias que lhe ofertaram, aproveite. Pare de vomitar o seu traiçoeiro fel para a praça pública.

Divirta-se com os seus amigalhaços e deixe-nos em Paz de uma vez por todas!


In Voz das Beiras.

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domingo, junho 19, 2005

A Mãe de Carlos – II


O Carlos e eu frequentávamos as últimas quatro cadeiras do Curso Comercial. Havia noites que não tínhamos aulas, então combinámos reunirmo-nos na sua casa. Eu residia na pitoresca Alfama lisboeta e o Carlos no Poço do Bispo.

Tinha de usar a mentira perante os meus Pais para as saídas nessas noites. O estudo era a desculpa. Depois de jantar, pegava nalguns livros e numa sebenta. Saía de casa, um segundo andar na Rua da Adiça, passava pelo Largo de S. Rafael, descia umas escadinhas, daquelas muito estreitinhas, como são usuais naquele Bairro, passava para o outro lado da Rua da Alfandega e estava na paragem do carro eléctrico da Carris.

Santa Apolónia, Xabregas, Marvila, Beato, Madre Deus e finalmente o terminal da carreira, Poço do Bispo. Aí chegado, começava a subir a Rua Vale Formoso de Baixo, passava sob a velha ponte do comboio, andava mais umas centenas de metros, virava à direita, para uma rua cujo nome já não me recordo, mais umas passadas e chegava a casa do meu Amigo e Camarada Carlos. Um rés-do-chão. Os dois mapas cujos links direcciono atrás são só para se fazer uma pálida ideia do meu percurso. Porque nos dias de hoje, após as obras efectuadas, principalmente as de requalificação da zona oriental de Lisboa, aquando da Expo 98, alteraram completamente a fisionomia daquele local. A casa de Carlos ficava, sensivelmente a meio caminho, entre a última paragem da Carris no Poço do Bispo e a chamada Rotunda Baptista Russo.

Carlos já me esperava, abria-me a porta e conduzia-me para a sala de jantar. Só me recordo daquela dependência e do pequeno corredor da entrada. Pelo que observei, era uma casa modesta, mas bastante bem cuidada.

Sentávamo-nos diante da mesa onde já repousavam alguns livros e documentos devidamente empilhados. Depois de conversarmos sobre o nosso quotidiano, entravamos na temática politica. Carlos fazia o ponto da situação, sobre o que se passava no país em geral. Nas reuniões que se seguiram após o eclodir da luta armada nas ex-colónias, conversávamos sobre toda a recolha de informação conseguida pelo Partido em relação aos movimentos de libertação.

As lutas, principalmente, nas fabricas existentes na cintura industrial de Lisboa; dos trabalhadores dos campos alentejanos e ribatejanos; as perseguições e prisões efectuadas pela Pide, não só a militantes políticos como a quaisquer trabalhadores que ousassem erguer a sua voz contra qualquer injustiça praticada pelo patronato, na sua grande maioria reaccionário, com especial destaque para as grandes famílias detentoras de vastos monopólios, como eram o caso, por exemplo, dos Mellos, Espírito Santo, Champalimaud, etc., etc., pilares principais de sustentação do regime corporativista, a tal versão pacóvia do nazi-fascismo. Assim como também existiam os Sindicatos Nacionais a que todos os trabalhadores das empresas privadas eram obrigados a pertencer, estando a sua filiação nesses organismos fantoches e respectiva dedução no salário dos trabalhadores e respectivo pagamento a cargo das empresas empregadoras.

Voltando às nossas reuniões - Definiam-se tarefas a realizar. A minha era de publicitar “pela calada da noite”, em locais de passagem tais como: paragens de transportes públicos, igrejas, à porta de empresas, nos prédios de habitação, etc., os materiais impressos nas tipografias artesanais e clandestinas do Partido, que existiam no país e que constantemente os camaradas seus responsáveis eram obrigados a desmontar e a transferir de local por razões de segurança. Esses documentos, como o jornal Avante!, que tinha o formato A5, eram impressos num papel muito fino, com letra muito pequena, para se poder publicar o máximo possível num espaço diminuto e que podia ser rapidamente mastigado e engolido em situações de perigo, como a percepção da aproximação das forças repressoras: Pide, GNR e PSP. Nestas duas ultimas existiam agentes com formação dada pela Pide. Isto para além dos milhares de informadores, os chamados bufos, existentes na Função Pública, Fabricas, Escritórios etc.

Depois, conversávamos sobre os últimos livros editados ou a editar. Daqueles que nós sabíamos que iam ser apreendidos pela Pide e que, dentro da medida do nosso parco orçamento, procurávamos adquirir alguns. Como esclarecimento para os mais jovens, isto acontecia porque ao contrário dos jornais, os livros não eram previamente censurados. Sendo posteriormente apreendidos nas livrarias e nas editoras.

Líamos, estudávamos e interpretávamos alguns autores de referência tais como Marx e Engels. Dos ensaios, António Sérgio e António José Saraiva, eram alguns dos nomes falados. Dos romancistas, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino Ribeiro, Jorge Amado, John Steinbeck, Jean Paul Sartre, Máximo Gorki, etc., etc., etc., passavam por ali. Recordo-me que o primeiro livro que li de Gorki foi a Mãe.

E era sensivelmente no momento em que começávamos a falar de livros, que Ela aparecia, a Mãe de Carlos.

(continua)


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sexta-feira, junho 17, 2005

A Mãe de Carlos - I


Carlos tinha a minha idade. Conhecemo-nos num Externato que já não existe e que funcionava em Lisboa, na zona dos Anjos. Quando nos empregámos, ainda adolescentes, decidimos prosseguir ali os nossos estudos, no período nocturno, pois já tínhamos sido alunos diurnos dessa Escola.

Estávamos nos anos derradeiros da década de 50. Muitos dos nossos colegas do Curso nocturno, eram homens já casados. Os professores, na sua maioria, eram funcionários de empresas públicas ou privadas. Recordo-me que o professor de Direito Comercial, era um licenciado em Direito, funcionário publico, que exercia a sua actividade na então designada Assembleia Nacional.

Conversas de carácter político eram tabu ali, tal como acontecia por esse Portugal fora. Pois ao nosso lado, por exemplo, naquele Externato, poderia haver um colega ou um professor, que a troco de uns escudos, exercessem a abjecta missão de informadores pidescos.

As conversas limitavam-se ao futebol, bailaricos, e banalidades de diverso cariz. E se por acaso alguém aflorasse, embora de forma inocente, algum outro assunto fora do contexto atrás referido, era olhado de lado, muitos afastavam-se e a conversa prosseguia de acordo com os cânones permitidos pelo lusitano poder, versão pacóvia do nazi-fascismo.

Carlos, sobressaía pela positiva, no meio da generalidade amórfica daqueles nossos colegas, que por medo ou por convicção, aceitavam as normas impostas pelo poder salazarento. De estatura média alta, seco, traços caucasianos/judaicos, tinha a figura típica de um jovem intelectual dos anos 50/60, tal como eram caracterizados pela nouvelle vague francófona. Como que um lusitano Jean-Luc Godard, mas de ar mais cuidado. Óculos de massa negra, sóbrio na sua maneira de vestir e devidamente arrumado. Um pouco introvertido, voz pausada e de dicção impecável. Carlos transportava sempre com ele para além dos livros escolares, um ou outro, de romance ou de ensaio literário.

Eu, na época tinha mais ou menos estas características, exceptuando o desalinho no cabelo e a minha extroversão, que por vezes me valeram alguns dissabores, com colegas e professores. Também transportava por vezes um ou outro romance, mas habitualmente, andava com o jornal República debaixo do braço ou entre os livros escolares com a Seara Nova que era editada mensalmente (quando a Censura deixava).

De início falávamos pouco. Observávamo-nos mutuamente e da mesma forma nos fomos aproximando. Trocávamos impressões sobre algumas notícias e artigos, inseridos no “meu jornal” ou na Seara Nova e que muitas vezes notávamos que tinham sido adulterados pela Censura mercê dos cortes efectuados pelos censores de serviço. Carlos falava-me dos “seus romances” e dos “seus ensaios”. Passado pouco tempo a nossa mútua empatia dava os seus frutos.

Um dia, Carlos pergunta-me calmamente se estou disposto a empenhar-me na luta politica devidamente organizada. Claro que não hesitei, pois já antes tinha andado a “meter o bedelho” nas Sedes de candidatura do General Humberto Delgado e do Dr. Arlindo Vicente


(continua)


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terça-feira, junho 14, 2005

Onze Meses na Blogosfera


Ontem, dia 13, este blogue completou onze meses de existência.

Não coloquei no próprio dia, como é meu hábito, qualquer texto a assinalar este facto, isto porque a Vida prega-nos partidas e os acontecimentos que ensombraram Portugal desde o último sábado até ontem, obrigaram-me a sacrificar o que tinha planeado, homenageando duas das grandes figuras desaparecidas: Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, sem qualquer desprimor para o grande Eugénio de Andrade, a quem eu presto também a minha homenagem, ao Homem e ao Poeta, cuja obra perdurará para sempre, aqui e além fronteiras.

A situação que estamos a viver em Portugal, obrigou-me em consciência, nestes últimos 30 dias, a escrever mais textos de cariz político, apesar de, como já o tenho repetido algumas vezes, este blogue não ser um blogue de carácter essencialmente político. Contudo, procurei sempre ser o mais objectivo possível, exercendo o meu direito à critica, mas sem que qualquer tipo de sectarismo toldasse os meus escritos. Pelo menos é o que eu penso com toda a sinceridade que me é peculiar, mas serão bem vindas todas as sugestões e criticas, das Amigas e dos Amigos que têm paciência de me ler.

Para o próximo mês, conto estar aqui convosco a assinalar um ano de “Fraternidade”. Há um mês atrás, propus a realização de uma confraternização de Amigas e Amigos blogueiras/os, independentemente de possuírem ou não um blogue, sob a forma de um jantar que vai ter lugar, aqui, em Carnaxide, no próximo dia 16 de Julho, um sábado, pelas 20,00 ou 20,30h, no Restaurante O Alfredo.

Apesar de ter dado conta desta realização com mais de dois meses de antecedência, logo no primeiro dia recebi as primeiras inscrições e a um mês e dois dias de distância, o jantar de aniversário do Fraternidade já recebeu a adesão de 20 blogues. Espero que todos possam estar presentes, assim como a inscrição de outras/os Amigas/os.

O local da realização deste jantar é bastante aprazível. O restaurante encontra-se inserido no Centro Cívico de Carnaxide, um vasto rectângulo, com várias lojas exteriores, tais como cafés, restaurantes, lojas de roupas, livraria, etc., além de outras que funcionam dentro do Centro Comercial Solatia. Fazem ainda parte deste complexo, uma Igreja e um grande edifício de construção recente, onde funciona a Junta de Freguesia de Carnaxide, Biblioteca, Teatro Ruy de Carvalho e um parque de estacionamento.

Sobre o ponto de vista de acessibilidades, Carnaxide é uma zona privilegiada e bem servida de transportes públicos. Próximo à data da realização do jantar, todas/os, Amigas e Amigos, serão devidamente informadas/os dos trajectos a realizarem, tanto no que diz respeito a transporte próprio, como na utilização de transportes públicos.

Estás à espera de quê? Inscreve-te! Clica no “cozinheiro” e lá no blogue do jantar clica novamente para o formulário de inscrição.

Saudações fraternas para todas/os.

mão em movimento
Jantar de Aniversário
Fraternidade
Chefe Fraterno
Clica na Imagem


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segunda-feira, junho 13, 2005

Cravos no Éter



Álvaro Cunhal

Mais uma noticia que invadiu de tristeza muitos corações no nosso PORTUGAL.

Álvaro Cunhal, mesmo para aqueles que o combateram, foi e será sempre uma figura respeitada, não só no espaço nacional, como no internacional.

Ninguém terá a ousadia de negar-lhe a Coragem, a Verticalidade e a Coerência dos valores pelos quais lutou desde sempre. Pela sua entrega abnegada à causa da Liberdade e Dignidade de um Povo que sempre amou.

Álvaro Cunhal, cidadão de uma praxis impoluta tanto no que concerne ao seu percurso político, como na sua vida privada, sempre foi avesso a qualquer tipo de culto da personalidade. Não tinha nada a esconder, porque a valorização do colectivo, sobrepôs-se sempre à sua prestação individual para o mesmo.

Ninguém é insubstituível. Mas História está cheia de pessoas que se evidenciaram de forma negativa pela sua conduta e consequentemente, pelos actos criminosos que praticaram contra a Humanidade.

Álvaro Cunhal, veio engrossar o rol, infelizmente diminuto, de figuras, que sempre se entregaram de Alma e Coração à Causa da Edificação do Homem.

Neste ocaso de Primavera, perante a sua partida para o éter, a melhor homenagem que lhe poderemos prestar, independentemente, dos aspectos de pormenor ideológico, é continuarmos a Lutar pela dignidade do Ser Humano e pela Fraternidade Universal.

Os Cravos Rubros, acompanharão para sempre o seu Espírito, num movimento Perpetuo envolvente na Luta dos que por aqui ficaram.

Até Amanhã Camarada!

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sábado, junho 11, 2005

Até Sempre Companheiro!


Cravo Vermelho
Imagem de Victor Reis do Blogue Oficina das Ideias

Querido Companheiro Vasco,

Há pouco mais de um mês, em 3 de Maio, data do seu aniversário, senti que devia escrevinhar algumas
palavras para Si.

Passados dois ou três dias, tive a oportunidade de lhe telefonar, para lhe dar conta do meu texto. E o meu Querido Companheiro, afável como sempre, teve a paciência de me escutar e de trocar algumas palavras comigo.

Mas há poucas horas, tive conhecimento que o meu Querido Amigo resolveu partir para outro lugar... A minha primeira reacção foi de uma enorme tristeza e de revolta incontida.

Tristeza, pela partida de um AMIGO. Revolta, por eu e todos aqueles que se mantiveram coerentes (embora não estáticos) com os seus ideais, não termos sido suficientemente fortes para darmos a merecida resposta a todos aqueles que o acusavam por aquilo que fez e, principalmente, escamoteando a nossa História recente, por aquilo que não fez, ou seja, atribuindo todos os males que enfermam a sociedade Portuguesa, a um Homem Vertical como sempre foi o nosso Querido Companheiro.

Todos os actos irreflectidos e aventureiros, cometidos por falsos “educadores do Povo” lhe foram atribuídos. Por esses, que têm sido os amigos fiéis, parceiros nas mesas de jogo e que pactuaram com aqueles que foram o sustentáculo de quase meio século de cinzentismo e de castração de consciências do nosso PORTUGAL.

É muito provável, que essa gentalha, continue a falar do PREC e do GONÇALVISMO. É uma praxis natural de quem não lhe perdoa a sua renúncia aos valores superficiais da Vida, não aceitando mordomias e por nunca ter pactuado com esquemas obscuros para promoção pessoal.

Nós, aqueles que realmente amam os valores da LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE, para todos e não somente para certos grupos de “iluminados”, apesar de muitos já termos entrado no Outono da Vida, continuaremos a Lutar, da maneira que nos for possível, mas nunca, baixando os braços.

Querido Amigo, um dia encontramo-nos por aí…

COMPANHEIRO VASCO, PRESENTE!

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quinta-feira, junho 09, 2005

Um menino chamado Rafael

Era o Rafael… o menino com o olhar mais triste, e vazio que conheço. Um petiz de 14, 15 anos… para mim será sempre o”Rafa”.

Lembro-me dele pequeno, com os seus caracóis louros, e compridos ar de reguila. Do pai nada sei, ou, esperem… minto, creio que está preso num dos nossos estabelecimentos prisionais, algures neste país. A mãe do Rafael, pois essa senhora alcoólica, mãe de 3, mas sem afecto a nenhum por aí se arrasta, atrás do próximo copo de vinho, e/ou de quem lhe troque a fralda.

O Rafa, filho do meio, perdido no meio de responsabilidades e irresponsabilidades, lá vai tentando olhar pela sua irmã mais nova. Por vezes tenta incutir na irmã o que ele não cumpre, mas nunca deixa de ser mais ”velho”.

O irmão mais velho, esse dedica-se a furtos de automóvel, e à toxicodependência, certamente que não é o melhor exemplo, mas ele na sua mais pura inocência diz que o ídolo é o irmão mais velho.

Ele tenta ignorar o que o irmão faz, para tentar sentir algo por alguém, algo por uma figura paterna que nunca teve. Vê as visitas do pai da sua irmã como… uma lufada de ar fresco. E por alguns momentos curtos, sente-se filho, com pai, mãe, e irmã. O mais velho nunca se juntou a eles… ou, nessas alturas está preso, ou está a tentar arranjar a “dose”.

Das poucas vezes, em que vi o Rafa mais ”feliz”, se é que me é permitido o termo, foi sempre quando estava na companhia do pai da irmã e da irmã. Recordo que a ultima vez que o vi assim, foi algures em Fevereiro deste ano, num destes grandes centros comerciais que estão na moda.

Isto após mais um internamento da mãe devido ao problema de alcoolismo. Pergunto-me a mim mesmo como é que ele consegue ter forças para levantar, a sua cabeça da almofada todos os dias… enfrentar um mundo, que nada lhe diz.

Gostava que o Rafa, não entrasse pelo caminho do pai e do irmão. Pelo menos uma vez, gostava que o Rafa fosse, feliz como outro menino qualquer da sua idade. Que pudesse chegar a casa e sentar-se a uma mesa, e comer com a família.

Não pedia”luxos”, materiais, apenas uma família com quem ele pudesse conversar, ao invés do degredo em que ele vive e que o espera dia após dia.
Arriscar-me-ia a dizer, que o Rafa andou num mundo de trampolins de infâncias sós. Ainda hoje quando o vejo pergunto-lhe em jeito de brincadeira – “Tão Rafa tas bem pá?” Tento tratá-lo como um adulto ao mesmo tempo que o vejo como um menino.

Gosto do Rafa, gostava que ele fosse feliz, e que a tristeza abandona-se o seu olhar. Para que finalmente o pudesse ver a sorrir…

Hugo Guerreiro



O Hugo, é um Jovem Amigo, com 27 anos de idade, profissional de Rádio, cheio de força para Viver.

Um Idealista Sonhador, com a pujança de um adolescente, com tudo o que isso significa na pureza dos seus sentimentos.

Pelo que acabaram de ler, não hesitei em honrar este Blogue com a riqueza do seu texto.


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quarta-feira, junho 08, 2005

Voz das Beiras

Prezadas Amigas e Prezados Amigos,

Quero partilhar convosco a minha grande satisfação pelo facto do Jornal Voz das Beiras, ter publicado o meu texto Dez Milhões de Deprimidos.

Fui convidado pelo seu ilustre Director e meu prezado Amigo António Pinto Correia, que também edita os blogues Inapto e Letras ao Acaso, para prestar a minha colaboração regular para o seu jornal.

Procurarei estar à altura deste desafio. Para o Pinto Correia o meu Bem-haja pela confiança com que me honrou


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domingo, junho 05, 2005

Frei Beto João

Frei Beto João é uma figura ímpar e incontornável do espaço lusitano.

Grão-Mestre, há mais de três décadas, de uma Confraria rodeada de água por todos os lados, Frei João, decerto acicatado pelos vapores etílicos da sua “poncha”, deglutida após lautas refeições bem regadas por néctares talvez oferecidos por alguns dos seus amigos do “contenente”, quando a brisa marítima inunda a sua farta face e dá de caras com uma certa malandragem “contenental” não se contém, vociferando os seus infindáveis dislates.

Frei João, entrou definitivamente para o anedotario lusitano. Digam lá se não seria interessante, filmar-se um ágape, uma “grande farra”, em que ele participasse com o antigo czar Boris Ieltsin, dançando os dois no fim do banquete o “balhinho” e a “kalinka” das estepes…

Para Frei Beto, os “jornalistes” do “contenente” são “bastardes” e “filhes de pute”. Assim como os outros, incluindo muitos dos seus alaranjados confrades, são de igual modo mimoseados, com a sua verborreia “madeiresa” vernácula.

Sabemos bem que a vida publica lusitana está recheada de muitos “cavaleiros de triste figura”. Sabemos que a ética é uma palavra de que muitos só ouviram falar nas cadeiras de Filosofia e correlativas, mas que nunca a assimilaram como postura face à sociedade em que se encontram inseridos.

Comportamentos como os de Frei Beto João, ultrapassam tudo quanto é moralmente aceitável, da parte de pessoas com grandes responsabilidades na vida pública nacional.

Haja vergonha!


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sexta-feira, junho 03, 2005

Constituição Europeia - Os Anexos Inquietantes


Constituição Europeia


A Constituição Europeia oferece liberdades enganadoras e prepara o terreno para uma deriva totalitária e policial da Europa, por meio "de anexos" ignorados do público e dos quais os meios de comunicação nunca falam. Estes anexos esvaziam do seu conteúdo a Carta dos Direitos Fundamentais incluída na Constituição e apresentada pelos partidários do "sim" como um grande progresso...

A Constituição contém numerosos anexos cuja função é a de indicar de que modo os diferentes artigos devem ser interpretados e aplicados.

Estes anexos fazem parte, juridicamente, da Constituição:

Artigo IV-442:
"Os protocolos e anexos do presente tratado são sua parte integrante."
Além disso, os anexos são designados como referência para a interpretação a ser feita, eventualmente, por um tribunal:

Artigo II-112,7:
"As explicações elaboradas com vista a orientar a interpretação da Carta dos Direitos Fundamentais são devidamente tomadas em consideração pelas jurisdições da União e dos Estados membros."

Ora, dissimuladas entre estes anexos, encontram-se "explicações" que permitem muito simplesmente a não aplicação da Carta dos Direitos Fundamentais (parte II da Constituição), nos casos em que a definição é deliberadamente vaga e extensível.

[...]

Nota: Este texto é um pouco extenso. Mas garanto-vos que vale, e muito, a pena ler até ao final. Para o lerem na totalidade cliquem aqui.



Ver versão original deste documento

Tradução de MJS.

O meu reconhecimento e agradecimento ao meu prezado Amigo Orlando César, insigne director do Noticias da Amadora pela prestimosa colaboração, ao proporcionar-me o acesso ao presente documento.


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quarta-feira, junho 01, 2005

Cinza de Cigarro

O pequeno café-restaurante como habitualmente àquela hora estava cheio. Em frente ao balcão homens e mulheres mastigavam e bebiam em silêncio. Cerveja, taças de vinho e eventualmente xícaras de café. Nas mesas, atravancadas de gente, casadas aos pares com espaço diminuto entre elas, estavam igualmente sentados homens e mulheres, comendo e bebendo pachorrentamente. As palavras eram parcas e imperceptíveis jorradas através de semblantes imóveis e articuladas a maior parte das vezes de forma inaudível, acompanhadas pelos seus olhos baços e parados.

Quase toda esta gente estava sob o efeito de psicotrópicos, tendo como aditivo o álcool ali ingerido potenciando os efeitos indutores dos fármacos, tal como o manusear de um fósforo perigosamente junto de qualquer artefacto explosivo.

Curiosamente a única mesa vazia, era a que estava mais próxima à porta de entrada, encostada, tal como as outras, a uma parceira. Sentámo-nos. Na mesa que acasalava com a nossa, do meu lado, uma mulher. Pedimos os cafés.

Comecei a observa-la. Cabelos negros, bastante morena, mas de raça caucasiana, erecta, olhar fixado no vazio, um rosto sem qualquer contracção facial. Aparentava cinquenta e poucos anos de idade. Vestia de forma cuidada. Pelo porte parecia ser de estatura média alta. Dedos de unhas bem desenhadas, mãos compridas que permaneciam inertes sobre o tampo da mesa, repousando entre elas uma chávena vazia de café, um maço de cigarros e um isqueiro.

Da boca pendia-lhe um cigarro aceso quase a chegar ao filtro. A cinza permanecia incrivelmente imóvel, com um comprimento considerável. Sem qualquer esgar perceptível o fumo era expelido por entre os lábios envolvendo o que restava do cigarro, incluindo a respectiva cinza. Quando a brasa chegou finalmente ao filtro, ela pura e simplesmente deixou de comprimir os lábios. O filtro e a cinza espalharam-se pela mesa. Continuei a observa-la. Passado um curto lapso de tempo, agarrou com a mão esquerda o maço de tabaco e com a direita, sacou de mais um cigarro, acendendo-o de imediato. Tudo isto com gestos precisos, como um qualquer robot numa linha de montagem.

Paguei a conta e virei-me para ela despedindo-me. Não obtive qualquer resposta. De novo a cinza permanecia estática. O movimento perpétuo do seu mundo assim permanecia.

Distavam não mais que cinquenta metros do largo portão. Caminhámos na sua direcção, gente de todas as idades e sexos ia passando por nós ou permanecia imóvel nos passeios. Alguns vinham na nossa direcção e sem articular uma palavra, com os dois dedos da mão direita num movimento cadenciado exibiam o gesto de fumar. Era a sua maneira de pedirem cigarros. Fomos passando por elas e por eles, com um sorriso complacente e igualmente sem pronunciarmos qualquer palavra, encolhíamos os ombros e fazíamos um pequeno gesto que eles e elas entendiam conformadamente.

Cruzámos o portão. Caminhámos alguns metros pelo pátio até atingirmos a porta principal do edifício. Neste amplo espaço com alguns bancos de jardim e algumas árvores, corriam, estavam parados ou caminhavam com passadas imprecisas, vários doentes. Alguns pediram-nos também cigarros.

A minha Amiga, Delegada de Informação Médica, entrou no edifício para tratar dos seus deveres profissionais. Tinha-a acompanhado até aquele Hospício, pois tinha muita curiosidade de presenciar de perto tudo aquilo que eu sabia existir.

Lá dentro, um doente interno, ia apertando as mãos a pessoas que estavam a aguardar pela consulta externa de psiquiatria. Voltei para junto da porta do edifício, aguardando a minha Amiga. No local onde permanecia podia avistar todo o pátio. Tive de apertar as mãos a vários doentes e a recusar silenciosamente os cigarros que alguns me pediam.

A “roda da loucura” era bastante visível naquele pátio. Ouviam-se guinchos de uma ressonância gutural semelhante à emitida pelos grandes símios no seu habitat natural. Caminhavam descompassadamente, em ziguezague, uns calados e outros articulando frases desconexas. Um deles, um homem talvez na casa dos quarenta, alto e com uma gordura bastante disforme, lançava urros. Com aquela grande cabeçorra e face de patéticos esgares, de vez em quando agarrava um companheiro e beijava-o na boca.

Mantive-me imóvel ante aquele quase dantesco espectáculo do qual era um espectador privilegiado. As cenas sucediam-se em catadupa. O tal movimento perpétuo revelador de graves disfunções no sistema nervoso central daqueles seres.

Começámos a caminhar em direcção ao portão silenciosamente. Lá vinha ela de regresso à “sua casa”. Erecta. Passos cadenciados, mecânicos, da boca pendia-lhe um cigarro e a incrivelmente direita, cinza. Os seus olhos baços não acusaram qualquer estímulo à penetração dos meus. Mundos impenetráveis…

Um dia sentei-me diante do meu PC. Há muito que tinha de expurgar aquilo que senti durante todos estes anos, sempre que me recordava deste episódio. Estimulado por sons não comerciais de um CD rodando no leitor óptico, comecei a dedilhar o que há muito estava bem guardado no “baú” da minha memória.

Claro está, com um cigarro pendente nos lábios que por vezes inundavam de cinza o respectivo teclado.

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