Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, novembro 02, 2005

Do Alto da Minha Janela

Nota Prévia: Este texto foi escrito e publicado no Jornal Noticias da Amadora, no princípio dos anos 70. Antes da Revolução de Abril. É a segunda vez que o publico neste Blog, pois da primeira, em Agosto do passado ano, com pouco mais de um de um mês de actividade blogueira, este conto da vida real passou naturalmente despercebido.

Do Alto da Minha Janela

Hoje, como em outros dias, quando o horário profissional o permite, pela manhã, deste quarto andar, banhado pelo Tejo e pelos odores da brisa petrolífera que nos chega ali de Cabo Ruivo, inundando o interior das casas, desta cidade de ar viciado, que provoca nos seus habitantes um constante enjoo e mal-estar interior, depois de o ter recusado ao Tejo, o meu olhar deteve-se mais uma vez no portão do prédio em frente.

Lá estava ela. Dezenas e dezenas de pontas de cabelo apontadas nas mais variadas direcções. Muito, muito hirtas. Cabelo ruçado, cor mal definida (natural ou poeira acumulada?). Agora vejo-lhe o rosto. Cara quadrada, maçãs salientes, nariz grosso... não, não lhe distingo os olhos. Estatura média, pernas arqueadas e coxeia um pouco. As vestes são sempre as mesmas. Azul, negro, cinzento?. A saia vai quase ao tornozelo em pernas nuas.

Toque, que toque e os caixotes bem catados. Um já está e o segundo saco já vai a meio. Levanta, agacha e aquelas mãos vão percorrendo os detritos da urbe.

Agora chega o carro do lixo. Sem preocupações de estilo, os almeidas saltam pesadamente, deixando o cheiro pestilento (que já não os incomoda) do lixo triturado. Espalham-se pelas portas. Um destes pobres diabos, já há algum tempo que faz a corte à triste trapeira. E este burguesinho cá de cima a bisbilhotar tudo.

Têm longas conversas. O tempo não tem horas, que importa! Desajeitadamente, ele pousa as mãos calosas sobre aquela conversada de ocasião. Puxa-a para si e deposita-lhe beijos na cara. Ela nada recusa. Passa gente?. E eles que se importam?. As mãos do homenzinho descem um pouco, beliscam, entretêm-sem em rudes caricias. A reciprocidade de cheiros não os repele. Pois até isso os junta, não é verdade?. E assim passam uns bocados, suponho que agradáveis, até que o carro do lixo começa a afastar-se lentamente e eles se separam. Ele corre para o carro e ela fica, continuando a acondicionar aqueles despejos, seu ganha pão.

A porteira do prédio costuma dar-lhe um púcaro com café e um naco de pão. E com o muro servindo de mesa, a trapeira, lentamente, mastiga o pão e sorve o café.

E eu cá de cima, impassível, a assistir, do alto da minha janela. Não, não sei o que é que comecei a senti agora. Esta sensação estranha de vazio que me percorre interiormente, provoca-me um certo mal-estar que não suporto. Ah! Já sei... estou com fome.

Mudo, despeço-me da trapeira e dos seus sacos e fecho a janela. Na cozinha esperava-me o café instantâneo, o pão doce que os meus sogros me trouxeram de Coimbra e creio até, que a minha mulher ainda ontem comprou uns bolos secos. O melhor é ir verificar na boleira...

Fernando Bizarro

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Comments:
Esse quadro e outros semelhantes causam-me um nó na garganta e levam-me a pensar em duas coisas: no quanto às vezes sou egoísta e mal agradecida; como sou feliz por ter uma geleira cheia de coisas que ainda me dão a opcão de escolha. Quanto ao afecto entre os dois talvez seja o bálsamo com que suavizam as suas vidas.
Repeti aqui o comentário por uma questão de melhor identificação.

Um abraço
 
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