Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quinta-feira, novembro 03, 2005

AUTISMO - o Inato e o Adquirido

Pela óptica da Psicologia, o Autismo é uma «Forma primitiva de pensamento em que se utiliza material subjectivo ou subjectivado, em grande parte proveniente do inconsciente. É uma das características normalmente observadas na sintomatologia esquizofrénica…»
(CABRAL & NICK, 1996/97)

Segundo a Medicina convencional, trata-se de uma «Perturbação mental muito estranha que começa na infância e que (sem tratamento) persiste na vida adulta. A criança parece isolar-se do resto do mundo. A sensibilidade é normal, mas há pouca percepção. A criança porque ouve sem prestar atenção, pode não aprender a falar; nem sequer manifestar desejo de comunicar…»
(WINGATE, 1977)

Se bem que aflorado de uma forma sintética, na minha perspectiva, ambas as concepções se complementam, não sendo minha intenção dissecar neste texto, todas as variáveis inerentes a esta disfunção patológica.

Segundo alguns autores, é essencial diferenciar Autismo, como sintoma psicótico, do Autismo Infantil, que classificam como doença específica. O Autismo sintoma diz respeito ao relacionamento entre o sujeito e a realidade, entre o paciente e as pessoas que o rodeiam ou com quem venha a privar. No autismo esta relação deforma-se de maneira caricata, auto-excluindo-se o seu portador da comunidade, que se manifesta por um afastamento do envolvimento Cultural que deveria permear a vida gregária de um determinado sistema.

O paciente autista vive a sua própria convicção doentia sem nunca se preocupar com outros pontos de vista, interesses ou juízos de valor. O paciente autista quase exclui o outro, ou quase se exclui dos outros, ele não sente necessidade de comprovar a sua convicção perante a realidade, não se preocupa em fundamentá-la nem para si, nem para os demais.

Em casos de esquizofrenia, o autismo, na sua expressão de perda do contacto vital com a realidade, serve para explicar certos tipos de estereotipias, como a catatonia, por exemplo, as alterações da linguagem oral e escrita. Nesses casos poderá suceder que os enfermos repitam, sem cessar, as palavras ou frases, em tom de voz monótono, em voz sussurrada ou aos gritos.

O autismo infantil, caracteriza-se pela presença de um desenvolvimento acentuadamente anormal ou danificado na interacção social e comunicação e um repertório marcadamente restritivo de actividades e interesses. As manifestações do transtorno variam de caso para caso, dependendo do nível de desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo.

O Transtorno Autista é chamado, ocasionalmente, de autismo infantil precoce, autismo da infância ou autismo de Kanner. O prejuízo na interacção social recíproca é amplo e persistente. Pode haver um prejuízo marcante no uso de múltiplos comportamentos não-verbais (por ex., contacto visual directo, expressão facial, posturas e gestos corporais) que regulam a interacção social e a comunicação. Pode haver um fracasso em desenvolver relacionamentos com os seus pares que sejam apropriados ao nível de desenvolvimento, os quais, assumem diferentes formas, em diferentes idades.

Os indivíduos mais jovens podem demonstrar pouco ou nenhum interesse pelo estabelecimento de amizades; os mais velhos podem ter interesse por amizades, mas não compreendem as convenções da iteração social.

Pode ocorrer uma falta de busca espontânea pelo prazer compartilhado, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex., não mostrar, trazer ou apontar para objectos que consideram interessantes).

Uma falta de reciprocidade social ou emocional pode estar presente (por ex., não participa activamente em jogos ou brincadeiras sociais simples, preferindo actividades solitárias, ou envolve os outros em actividades apenas como instrumentos ou auxílios "mecânicos").

Frequentemente, a consciencialização da existência dos outros pelo indivíduo encontra-se bastante prejudicada. Os indivíduos com este transtorno podem ignorar as outras crianças (incluindo os irmãos), podem não ter ideia das necessidades dos outros, ou não perceber o sofrimento de outra pessoa.

O prejuízo na comunicação também é marcante e persistente, afectando as habilidades tanto verbais quanto não-verbais. Pode haver atraso ou falta total de desenvolvimento da linguagem falada. Em indivíduos que chegam a falar, pode existir um acentuado prejuízo na capacidade de iniciar ou manter uma conversação, um uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou uma linguagem idiossincrática. Além disso, podem estar ausentes os jogos variados e espontâneos de faz-de-conta ou de imitação social apropriados ao nível de desenvolvimento.

Quando se verifica um desenvolvimento na fala, o timbre, a entoação, a velocidade, o ritmo ou a ênfase podem ser anormais (por ex., o tom de voz pode ser monótono ou elevar-se de modo interrogativo ao final de frases afirmativas). As estruturas gramaticais são frequentemente imaturas e incluem o uso estereotipado e repetitivo da linguagem (por ex., repetição de palavras ou frases, independentemente do significado; repetição de spots publicitários) ou uma linguagem metafórica (isto é, uma linguagem que apenas pode ser entendida claramente pelas pessoas familiarizadas com o estilo de comunicação do indivíduo). Uma perturbação na compreensão da linguagem pode ser evidenciada por uma incapacidade de entender perguntas, orientações ou piadas simples.

As brincadeiras imaginativas em geral estão ausentes ou apresentam prejuízo acentuado. Esses indivíduos também tendem a não se envolver nos jogos de imitação ou rotinas simples da infância, ou fazem-no fora de contexto ou de um modo mecânico.

Chegados a este ponto, atrevo-me a concluir, que o Autismo de que tenho estado a falar e a citar, é fruto de uma disfunção genética. Assim esse desempenho foi, por factores de vária ordem, herdado dos progenitores. Logo, uma patologia inata. Uma doença do foro psíquico provocada pelo seu desempenho fisiológico.

Tenho estado a tentar, ainda que sumariamente, dar uma panorâmica do Autismo enquanto doença congénita ou, se quisermos, inata. Mas, seria do meu ponto de vista interessante as Ciências Psicológicas ou Sociológicas, debruçarem-se, direi mesmo, exaustivamente, sobre outro tipo de Autismo, o Social. E porquê?

Comecemos por fazer a nossa auto-introspecção. Como tem sido o nosso desempenho comportamental ao longo da Vida? Quantas vezes teimámos, inconsciente ou conscientemente em cometer os mesmos erros? Quantas vezes uma voz Amiga ou a nossa própria Consciência, nos disseram que estávamos a seguir o Caminho errado? E nós o que fizemos? Continuámos a manter uma atitude obstinada perante os outros e perante nós próprios, assumido assim comportamentos similares aos de um doente Autista ou Esquizofrénico.

Estamos então perante uma forma comportamental Autista adquirida, visto que até a uma determinada fase da nossa Vida, o nosso desempenho interno e externo foi considerado normal. Mas os desenvolvimentos posteriores ocorridos no meio externo, aliados à nossa incapacidade, momentânea ou não, de lhes darmos a resposta mais correcta, podem envolver-nos numa via labiríntica, na qual, poderemos permanecer mais ou menos tempo, ou até, nunca encontramos a sua saída.

Isto, quanto a mim, não é um jogo metafórico de palavras. Trata-se da constatação de uma realidade que nos envolve e que sempre envolveu os chamados Seres racionais. Mas vamos experimentar alguns exemplos.

Quando determinada pessoa é acometida por algum tipo de depressão motivada por frustrações do foro sentimental, pode assumir várias atitudes comportamentais, nomeadamente: Encerrar-se em si própria, assumindo o mutismo como forma de estar em sociedade, ignorando-a; Avocar atitudes agressivas perante os outros, maltratando-os física e/ou psicologicamente; Fazer um jogo chantagista de vitimização perante os que a rodeiam, para inspirar sentimentos de pena, comprando assim os afectos de que se sente desapossada; Embarcar em delírios aventureiros para colmatar as percas sofridas, que normalmente culminam em novas frustrações; etc., etc., etc.

Se nos debruçarmos sobre o meio político-social envolvente, constatamos de igual modo comportamentos Autistas. Desde as bases orgânicas, passando pelos quadros intermédios, até ao topo. Isto verifica-se em todos os sectores da sociedade, tais como: nas associações desportivas e culturais; nas empresas; nos partidos políticos e nos vários Órgãos de Soberania.

A maioria das pessoas assume-se como detentora da Verdade. Não são permeáveis ao aprofundamento colectivo. Só a sua Verdade prevalece, ainda que os efeitos nocivos causados pela sua postura obstinada sejam bastante visíveis e se encontrem diante de si próprias, arregimentando justificações para o injustificável. Se isto não é uma forma de Autismo adquirido, como é que o vamos classificar?

Convido-vos a compararem as manifestações comportamentais de Autismo inato, com os exemplos que eu classifico de Autismo adquirido ou Autismo Social.



Bibliografia

CABRAL, Álvaro & NICK, Eva – Dicionário Técnico de Psicologia – São Paulo: Editora Cultrix, Ed. 9-10-11-12, 1996/7

WINGATE, Peter – Dicionário de Medicina – Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977

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Comments:
Obrigado pelo texto.
Fiquei esclarecido sobre o Autismo.
A Verdade...o eterno triângulo: Ser, Realidade, Verdade!

Um fraternal abraço.
 
Desculpa lá a falta de assiduidade nas visitas habituais a esta casa mas, uma gripe de todo o tamanho tem estado a morar nestes 120 kilos bem pesados. De manhã até fui ao espelho ver se já me tinham nascido penas atrás das orelhas, eh,eh,eh! que isto com a gripe das aves nunca se sabe.
Uma boa semana para ti.
Aquele @bração do
Zecatelhado
 
Fico sempre espantada com a quantidade de coisas que sabes, e com a maneira como sabes "falar" sobre elas.
Há pessoas "autistas" sem serem efectivamente autistas.
São os autistas a quem o próprio "umbigo" não deixa escutar as vozes dos outros.
É uma forma de autismo sem melhoras.
Beijos
 
Este teu texto é extraordinário de raciocínio e correlação analógica.
E sobretudo chama a atenção para um problema crucial do nosso tempo: o autismo social que nos rodeia, com o qual vivemos/convivemos e que vai deteriorando, desumanizando e corrompendo as relações entre os homens. É uma "doença" grave para a qual deveríamos encontrar antídoto rapidamente !
Os afectos são fundamentais. Tudo passa por aí. Penso eu.
Obrigada por nos obrigares a pensar nestas coisas obrigatórias.
 
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