Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, outubro 05, 2005

Neste Cinco de Outubro


Por falta de inspiração ou motivação, hoje decidi repetir o texto aqui colocado há um ano atrás.

Só quero fazer uma advertência às gentes do meu País:

Releiam a História. Pensem nos erros cometidos durante os escassos dezasseis anos de Vida da I Republica que nos custaram 48 anos de obscurantismo, repressão e privação da nossa querida Liberdade. Estejamos atentos aos candidatos a Messias travestidos com novas roupagens, mas que, se atentarmos bem, estão imbuídas por anciãs traças cuja peçonha, após a sua disseminação, será muito difícil de combater.

Em frente pela LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE, para todos os que mereçam desfrutar estes valores e não somente para elites auto-iluminadas.




5 de Outubro de 1955

Há 49 anos (50) atrás, tinha eu 12 anos de idade e já fumava há dois... Mas isso é outra conversa, que relatarei, quando escrever algo sobre a minha entrada no então designado Ciclo Preparatório.

Era uma Quarta-feira, feriado Nacional, mantido a contragosto pelos senhores do chamado Estado Novo, de má memória.

Os meus Pais, tal como a maioria dos Pais portugueses de então, não "ligavam" à política. Ou para ser mais exacto, era um termo que lhes causava temor e arrepios gélidos através da medula espinal. Eu era um pré adolescente irrequieto, muito diferente em termos comportamentais, daquele menino, estudante certinho, que até completar a Instrução Primaria e o exame de admissão ao Secundário, tinha desempenhos brilhantes. Mas ao entrar no Ciclo Preparatório, o meu comportamento alterou-se, tendo chegado a frequentar um conhecido Colégio católico, que teve a virtude de me por a questionar sobre certos valores. Mas, adiante...

Nesse dia, há 49 anos, a minha Mãe, sempre muito diligente no aprumo dos Filhos, deu-me para vestir o fato das ocasiões especiais, ou seja, o domingueiro, camisa branca, gravata, sapatos bem engraxados pelo meu Pai, que era um Mestre na Arte de bem engraxar, sapatos (nada de confusões), com graxa e algum cuspo à mistura. Ficavam a brilhar de forma resplandecente. A D. Carolina deu-me uns escudos e disse-me:

"Meu Filho, já estás com 12 anos e é altura de começares a aprender a ser um homem. Hoje comemora-se o dia da implantação da República e tu vais até cemitério do Alto de S. João, porque vão lá uns Senhores fazer uma cerimónia e tu com certeza que vais gostar".

Lá foi o Fernandinho, a caminho da paragem do eléctrico, rumo ao Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Chegado lá, este menino começou a observar o que se passava em seu redor. Muitos policias com a farda normal de caqui, na parte exterior do portão. Lá dentro umas dezenas ou centenas de pessoas, predominantemente do sexo masculino, falavam muito baixinho. Os homens, na sua maioria, trajavam fatos cinzentos, camisas brancas e chapéu de feltro na cabeça. Uma ou outra bandeira dos Centros Escolares Republicanos e bandeiras Nacionais.

A determinado momento aquelas pessoas começaram a movimentar-se silenciosa e ordeiramente. Paravam num ou noutro jazigo onde iam depositando coroas de flores. E eu ia acompanhando aquela gente de silêncios contidos, com muita curiosidade e tentando obter resposta do que estava a observar. Na última paragem que fizeram, as pessoas dispuseram-se em circulo, os senhores, todos, com os seus chapéus junto ao peito. Até que irrompendo o silêncio, um deles pôs-se a discursar muito baixinho. Foram palavras muito breves, pausadas e no final, todos disseram num tom não muito alto: "Viva a Republica!". Nessa ocasião reparei, que não muito longe, um grupo de policias e de outros indivíduos vestidos à civil (Pides, vim algum tempo mais tarde a saber), observam-nos muito atentamente. Um oficial da policia foi falar com o Senhor que tinha discursado e apercebi-me que ele lhe estava a dar instruções para as pessoas dispersarem rapidamente.

O grupo fez o caminho de volta. Alguns trocavam palavras quase imperceptíveis. Já perto do portão, abeirou-se de mim, um homem, que não estava engravatado e que eu conhecia de vista. Alto, seco e moreno. Vendia jornais e revistas, no Terreiro do Paço (Praça do Comércio), nas arcadas, com esquina para a Rua da Prata. Falou brevemente comigo. Incentivou-me a voltar no ano seguinte e a ler o jornal A República. Achei piada, porque ele disse-me que à noite ia participar num jantar com algumas daquelas pessoas e que também levaria fato e gravata como eu.

E fomos saindo do Cemitério. Cá fora, um grande aparato policial. Policias com capacetes. Iam berrando ordens de dispersar com ar ameaçador para aqueles pacatos cidadãos e fizeram-nos seguir em pequenos grupos. Penso que nesse dia não houve agressões, mas nos anos seguintes assisti a algumas.

Regressei a casa a pensar naquilo tudo que tinha visto e ouvido. Almocei e durante a tarde, pela primeira vez, comprei o jornal A Republica. Sem ser essa a sua intenção, a minha Mãe abriu-me os horizontes para a Vida. A partir desse dia, comecei a por de parte o Mosquito, o Cavaleiro Andante, o Mundo de Aventuras, etc. e comecei a interessar-me pelo fenómeno político e social.

Para além do jornal A Republica, o vespertino mais diminuto em termos de paginas, bem crivadas pela Censura, passei a frequentar os alfarrabistas da zona do Carmo. Aos 14 anos descobri num deles o Pequeno Manual de Filosofia do Professor Vitorino de Magalhães Vilhena e assim por diante...

Obrigado Mãe pelo conselho inocente que me deste!

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
...muito bom o post...e nada inocente o conselho da sua mãe...muito sábia...um abraço...
 
lembranças que marcam...
No momento actual, datas como esta deveriam ter uma maior atenção por parte de todos; mais não; passou a ser para a "maioria" um feriado, um dia para "não trabalhar"...Os republicanos deste país não temos folgas em datas como estas!

Um abraço fraternal
 
Hoje e sempre actual. Há coisas que convém não esquecer.
 
Liberdade... Fraternidade... Igualdade... cruzes canhoto! Afasta para lá esses francesismos!
 
Amigo Fernando, hoje vim para convidar-te para a festa de 1º aniversário do Eu Sei Que Vou Te Amar... És peça muito importante neste um ano de história, afinal é tambem por ti que ele existe!
Muitos beijos, flores e sorrisos para ti!
 
Coisas para não esquecer.onselhos de mãe...

Bjs.
 
Comentei no Haloscan e parece que o comentário desapareceu. Espero que retorne lá. Bjinho grande
 
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