Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, setembro 28, 2005

Trova do Vento que Passa

Caro Manuel Alegre,

O seu extraordinário Poema, Trova do Vento que Passa, escrito nos tempos da Resistência e que foi um dos nossos lenitivos para prosseguirmos a nossa Luta, ainda hoje se mantém actual, passadas que foram três décadas da Revolução dos nossos Sonhos, traídos com a conivência de muitos, que se aliaram ao inimigo de sempre, a pretexto da defesa de falsos valores de Liberdade.

As forças mais conservadoras, utilizando uma classificação suave, não perdoam e é no mínimo lamentável o triste espectáculo protagonizado pelas várias sensibilidades ditas de Esquerda deste País, entregando-o de “bandeja” nas mãos de opressores travestidos de democratas, com o seu exército de gigolos aduladores do Poder instituído.

Porque não é de Esquerda quem se afirma como tal, mas quem, pela sua praxis quotidiana, o demonstra ser.

É evidente que ninguém é perfeito. Mas há erros e Erros. Há aqueles que de tão graves que são, poder-nos-ão conduzir como que a um beco cuja saída não se vislumbra e quando deles tomarmos consciência, será tarde demais para os podermos sanar.

Há algumas pessoas do chamado Centro ou de Direita, pelas quais nutro algum, senão considerável respeito, dada a verticalidade com que defendem as suas crenças. Respeito-os, apesar dos valores que defendem se situarem nos antípodas das minhas convicções. Claro que me refiro a pessoas que defendem os valores em que acreditam, mas que de igual modo, respeitam e tratam cordialmente os seus adversários políticos.

Por outro lado, existem pessoas ditas de Esquerda, que, pelas piruetas exibidas perante a Sociedade, enxovalham os valores que nos animam e que essa gente diz defender, tais como os da trilogia: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Valores esses que deveriam aplicar-se a todos os nossos concidadãos que o mereçam, ao invés de serem desfrutados por um reduzido número de confrades, que do alto dos seus Templos se glorificam mutuamente mantendo a sua equidistante arrogância perante aqueles que lutam honestamente por um Futuro que vá progressivamente diluindo a desigualdade entre os homens.

A Esquerda é corporizada por pessoas e como tal, estas, deverão estar imbuídas por uma Superioridade Moral em consonância com os seus valores humanistas, muito embora divergindo e seguindo por caminhos diversos, têm a obrigação e o dever de os preservar e defender.

Qualquer cidadão consciente e atento às realidades do País em que vive, sabe que desde o 25 de Novembro de 1975, por razões que todos sabemos, o Poder tem sido exercido sempre ao Centro. Direita ou Esquerda. Mas mesmo o Centro Esquerda quando toma assento nas cadeiras do Poder, tem mais apetência por praticas direitistas, arrumando assim no limbo das prateleiras alguma réstia dos seus valores Humanistas.

O Poder, constitucionalmente, deveria na prática ser exercido pelas diversas Instituições consagradas na nossa Lei fundamental. Mas sabemos que não é exactamente assim. Várias partículas nebulosas emperram o seu exercício.

Os cidadãos conscientes andam desencantados, só divisando o tal Beco sem saída. A ampla via conducente a um Futuro condigno não se vislumbra. E é trágico que passadas mais de três décadas que sacudiram a letargia vivida pela maior parte dos nossos concidadãos, nós, os da geração de Abril, a maioria dos quais em pleno Outono da Vida, caminhando, ou alguns já situados na invernosa recta final, não tenhamos conseguido projectar perante os nossos Filhos e Netos, sem os impor, como é evidente, os valores porque nos batemos.

E é assim, que os mais novos assistem ao triste espectáculo de uma Esquerda dividida e muita dela autista, que estende a passadeira do Poder, a uma certa Direita matreira, que vai calmamente entrosando a canonização apoteótica de um obscuro Desejado.

Um antigo menos que sofrível Primeiro-Ministro, exímio na arte da pirueta politica, tornou-se um razoável Presidente da República até há uns dez anos atrás. Dizia depois retirar-se da vida pública, mas ainda voou até Bruxelas, para complementar o seu ego. De regresso fez crer aos seus compatriotas que era tempo de se afastar da cousa pública e dedicar-se à Família e à sua escrita. Eis senão quando o exuberante Patriarca, perante a dormência concertada de muitos dos seus pares, se ergue, da sua poltrona reflexiva e numa jogada de mestre se propõe travar o titubeante sexagenário direitista na caminhada para o assento cimeiro do Poder.

Vários correligionários e não só, muitos já com as indeléveis marcas artríticas, físicas e psíquicas, com que o Tempo os contemplou, aplaudiram tão patriótica decisão do honorável Patriarca.

Perante este patético cenário, dois homens situados à Esquerda do nosso espectro político, respeitáveis perante os seus parceiros ideológicos e perante muitos dos seus concidadãos, decidiram e, quanto a mim, muito bem, participar no Jogo, tomando as suas posições no relvado. Finalmente, o prezado Poeta, homem de valores humanistas, veio juntar-se àqueles dois cidadãos, concretizando assim o que já tinha proposto fazer há uns tempos atrás.

Três homens. Com uma pratica de Esquerda, embora por caminhos divergentes e um Patriarca postado no Centro do terreno aguardando pelo início do Jogo.

Entretanto, o empedernindo e titubeante Professor vai gaguejando algumas palavras desconexas para encapotar a sua entrada no relvado.

Até que ponto nós permitimos chegar a esta situação, meu caro Manuel Alegre. O velho ditado popular que diz que “depois da casa roubada trancas à porta”, certamente se aplicará à tragicomédia de que todos somos espectadores e protagonistas.

Talvez seja um bom bocado tarde de mais, mas a batalha não está perdida por antecipação. Se todos aqueles que amam a Liberdade e a defesa do seus valores se empenharem, unindo-se no essencial e colocando o acessório no seu devido lugar, certamente, juntos encontraremos a tal via conducente a um Futuro eivado pelos valores por que temos Lutado.

Tal como no final do filme do Ernesto de Sousa, D. Roberto, se ouvia uma voz off dizendo: “Mas ainda não é o fim. O fim, é deixar de Lutar”, porque “mesmo na noite mais triste, em tempo de solidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".


Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
k bela reflexão nos ofereces. Obrigada. bjs e ;)
 
Que texto fantástico, meu amigo!
Quanta verdade, quanta garra, quanta luta!
Subscrevo as tuas palavras, se mo permites e digo-te que sinto um orgulho enorme por me "deixares" ser tua amiga.
Tudo vale a pena, sobretudo quando "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".
Força! A tua luta não será inglória.
 
O principal é continuar a luta, água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Mas fernando, se o problema fosse só esse que apresentas, nada ainda estava perdido, mas infelizmente não é tão visivel como o teu texto. Mas isto são contos largos demais para um comentário, é possível que ainda velha a publicar um post sobre o assunto.
Um abraço. Augusto
 
Uma intensa reflexão este seu texto. Fiz uma leitura agradavel. Beijinhos.
 
Com que então " tomar ar " para os lados da Aroeira...
Um óptimo fim de semana e até à próxima.
( Ouvir o Adriano é um encanto. Preciso que me " ajudes " a colocar música. A minha "madrinha" anda muito fugidia.)
Um Abraço.

 
Amigo Fernando, gosto do teu espírito de luta pela liberdade, igualdade e fraternidade... és um lutador nato e isso é muito bom... o mundo precisa de pessoas como tu, meu amigo!
Beijos e sorrisos para ti, caríssimo!
 
há coisas do arco da velha. Abro este site pela primeira vez, e no meu leitor de Cds toca o album COM QUE VOZ de AMALIA RODRIGUES. Começo a escrever este comentario e ouço as primeiras notas da versão de AMALIA, DA TROVA DO VENTO QUE PASSA, com musica de Alain Oulman...

Tenho do Manuel Alegre um especial fervor, pelas suas palavras, que também eu canto, e que dão sentido a muita coisa na vida...
"...Hei-de passar nas cidades
como o vento nas areias
e abrir todas as janelas
e abrir todas as cadeias..."
(Manuel Alegre)
Ainda ontem, cantei em publico estas intensas palavras do grande POETA.
Se se candidatar, votarei nele. Só porque o amo tanto!

Valeria , do blog:
www.fadista-valeria-mendez.weblog.com.pt
 
Fernando,
Li com toda atenção este teu texto, que como sempre tem muito conteudo e está escrito de uma forma irrepreensivel. Aliás como sempre.
Não sei se o Manuel Alegre fará bem em se candidatar à Presidência da Républica, porque julgo que o mais certo será sujeitar-se a uma estrondosa humilhação, mas não queria entrar muito por este tipo de discussões, até porque antes disso ainda temos aí as autarquicas.
Boa semana.
Abraço.
 
bom feriado. bjs e ;)
 
Partilho inteiramente da sua opinião e lamento na agora mais de algum tempo a esta parte que o PS quando governo se disponha a seguir linhas de orientação
que nunca se situaram à esquerda mas sim ao centro. E meu caro amigo essa treta do centro esquerda a mim não me diz nada porque as direcções mesmo as de orientação política têm de estar devidamente definidas. Quando à anunciada candidatura de Manuel Alegre julgo que a mesma só pecou por tardia pois eu próprio cheguei a disponibilizar o meu blog no apoio à sua candidatura, mas como ele havia anunciado não o fazer retirei esse apoio. Julgo importante pois ele vai preencher o espaço de todos quantos e
julgo serem muitos discordaram no avanço da candidatura de Soares. Obviamente que o candidato que irá sofrer as consequências pelo facto de Manuel Alegre ter resolvido avançar, será Francisco Louçã. Com um abraço do Raul
 
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