Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quinta-feira, setembro 15, 2005

A Mãe de Carlos – IV (final)


Apanhava o carro eléctrico de regresso um pouco depois da meia-noite. Cerca de dez ou quinze minutos, descia na paragem da Rua do Terreiro de Trigo. Subia compassadamente aquelas escadinhas estreitas com o mesmo nome onde os prédios quase se tocavam desembocando no Largo de S. Rafael. Mais umas passadas e chegava à Rua da Adiça, em pleno coração do bairro de Alfama.

Naquele tempo era usual ouvir-se no silêncio da noite o som de palmas. “Já vai!”, gritava o Senhor Manuel, guarda-nocturno. Um sexagenário bem adiantado, simpático, baixote, bem nutrido, com a espada que na época usavam estes vigilantes da noite, quase a roçar o chão. Lembram-se do boneco sempre-em-pé? Pois era essa a impressão que causava aquele “boneco animado”. Andando pachorrentamente com os pés para o lado, com um grosso molho de chaves na mão. “Boa noite menino Fernando”. “Boa noite senhor Manuel. Muito obrigado”. Abria a porta da rua e com a lanterna apontada a iluminar o primeiro lanço da escada, esperava que eu dobrasse o seguinte que me conduziam ao segundo andar.

A casa dos meus Pais era pequena, dois quartos e uma sala de jantar. A cozinha muito estreita, onde inicialmente, ao lado da chaminé, havia uma pia de despejos sem qualquer resguardo, a não ser uma tábua de madeira para nos preservar do frio incomodo da pedra quando lá nos sentávamos. Ao lado, estava colocado um tanque de cimento com aquelas estrias para lavar a roupa. Ainda na minha meninice, os meus Pais, fizeram obras naquela pequena cozinha e entre a chaminé e o local onde estava o tanque, mandaram erguer uma minúscula casa de banho, substituindo a pia de pedra por uma sanita. Um pequeno lavatório e um esquentador redondo, completavam aquele espaço exíguo. O chão em mosaico tinha um ralo para escoamento da água dos banhos. Umas finas paredes forradas a azulejo branco e uma estreita porta ofereciam-nos a privacidade.

Aquela casa era (e é, porque ainda existe) muito peculiar, pois tinha três portas exteriores de acesso através do patamar. A primeira para a cozinha, a segunda para a sala de jantar e a terceira para um dos quartos, o meu. O Tó, meu único irmão mais velho, já tinha casado.

O meu quarto era “polivalente”. Servia também de escritório para o meu Pai e para mim. Duas secretarias. Numa delas uma barulhenta máquina de escrever Royal, que anos mais tarde foi substituída por uma eléctrica. Na outra secretaria montes de papelada. Completava o mobiliário daquele quarto/escritório, um móvel/cama, rectangular. Na parte superior, longitudinalmente, tinha uma concavidade onde guardava os meus tesouros: Os meus livros.

Quando regressava de casa do Carlos, abria a porta que dava acesso directo ao meu quarto, entrava de mansinho, dirigia-me ao referido móvel e abria-o com cuidado. Lá estava ela, a minha cama, o berço dos meus Sonhos. Despia a roupa e vestia o pijama. Tinha acesso à cozinha através de um minúsculo e estreitíssimo corredor, onde passava quase de lado. Fazia este percurso silenciosamente. Depois deitava-me, ligando um pequeno candeeiro para ler até que o sono me vencesse.

Amiúde, pousava o livro ou o jornal e pensava nela. Adormecia embalado pelos meus Sonhos. Na manhã seguinte acordava para o mundo real, mas continuava a Sonhar acordado.

Os anos rolaram, dois ou três. Com dezoito anos conheci a minha Companheira de sempre. Os delírios de adolescente foram-se esbatendo, restando deles uma doce lembrança.

Em Abril de 1963, duas semanas antes de completar os vinte anos de idade, fui cumprir mais uma missão, com um outro Companheiro, que entretanto me tinha sido apresentado e de quem só conhecia o pseudónimo. Foi curta a nossa tarefa. Entrámos num beco, o dos Remédios, na freguesia de S. Vicente de Fora. No número 3, entretidos a colocar a papelada clandestina nas caixas de correio, não nos apercebemos de nada. De repente, duas mãos possantes agarraram-nos. “Estão presos! Já para a Esquadra”.

Petrificados, não reagimos. Deixámo-nos conduzir pelo chefe Cristóvão até à Esquadra dos Caminhos-de-Ferro. Descemos aquela serpenteante escadaria que termina na Rua do Museu de Artilharia. A esquadra ainda hoje se situa próximo da porta principal do Museu. Teria sido fácil dar-lhe um encontrão e desatarmos a fugir. Mas não o fizemos.

Na esquadra, alguns agentes, ainda nos disseram em voz baixa e com ar triste, porque é que nos tínhamos metido “naquilo”. Ainda aguardámos umas duas ou três horas. Um carro da Pide veio buscar-nos para a Rua António Maria Cardoso, sede da sinistra policia politica. Aí separam-nos.

Fizeram-me subir uma escada em caracol que parecia não ter fim acompanhado por um esquálido pide de feições impenetráveis, tipo cara de inquisidor, como se vê nalgumas telas a óleo ou em filmes, que, silenciosamente, com um gesto de mão, me mandava continuar a subir. Por fim parámos e penetrei num andar com varias salas. Fui conduzido para uma delas. Lá dentro um homem alto, bem vestido, tipo germânico. Era o inspector Passo. Meia dúzia de palavras secas brotaram daquela boca, com os olhos a fitarem-me intensamente, sem qualquer contracção histriónica.

Depois fizeram-me descer. Tinha começado o meu percurso iniciático de preso político. Mandaram-me para a Cadeia do Aljube. Chorei convulsivamente o resto da noite. Os meus Sonhos tinham sido abruptamente interrompidos.

Alguns pormenores da minha vivência prisional já tiveram a oportunidade de ser relatados através do meu texto:
Memórias de prisão e a ignomínia da traição publicado neste blog em 22 de Junho passado.

Só voltei a ver o meu Amigo e Camarada Carlos, onze anos depois ou seja após o 25 de Abril de 1974. O Carlos descobriu-me nas instalações locais da CDE (ainda se designava assim), na Rua do Paraíso, Freguesia de S. Vicente de Fora, em Lisboa.

Abraçamo-nos efusivamente. Após a minha detenção e a do outro companheiro, o meu Amigo e Camarada Carlos, conseguiu dar o “salto” para França, onde viveu muitas emoções, entre as quais, o célebre Maio de 68.

O Carlos sabia, seguramente, que eu não o tinha traído e mostrou-me o seu reconhecimento. Quanto ao outro companheiro, talvez não tivesse aguentado a pressão dos interrogatórios. Mas, enfim, cada um é como cada qual e fico-me por aqui…

Perguntei-lhe pela Mãe. Felizmente encontrava-se bem. O Carlos ainda compareceu a algumas reuniões nossas e acções de dinamização. Seguiram-se, como os leitores sabem, momentos conturbados que culminaram com o 25 de Novembro. Os Sonhos de quem acreditou na pureza dos seus Ideais tinham sido traídos. Mas também me fico por aqui…

Entretanto o Carlos voltou a, ou para França e eu em 1977 (curiosamente em Abril) vim residir para aqui, Carnaxide, nos arredores da capital. Nunca mais nos reencontrámos. Gostava imenso de o voltar a ver, se a Natureza não lhe pregou nenhuma partida. Mas tenho esperança que ele se encontra entre nós.

Quanto àquela Mãe Coragem que me embalava os puros Sonhos de adolescente, sendo mais nova que a minha Mãe, é possível que ainda se encontre por “cá”. E se assim for, vislumbro uma doce e bela velhinha emanando um suave perfume através da beleza dos seus olhos.

Carlos, onde quer que estejas recebe o meu Fraterno abraço. Para a tua Mãe, onde quer que se encontre, a minha vénia e um puro beijo na sua fronte.



Episódios anteriores:

A Mãe de Carlos – I
A Mãe de Carlos – II
A Mãe de Carlos – III

Nota: O 1º episódio desta história foi publicado em 17 de Junho passado e o 3º em 27 do mesmo mês. Circunstâncias várias determinaram que eu só concluísse esta história quase 3 meses depois.

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Fernando,
Como sabes gosto sempre de te ler, porque a tua vida é simplesmente uma lição e completamente preenchida de experiências unicas, inesqueciveis e muito ricas.
Esta história é a prova de que há amigos que por muito que lhes percámos o rasto nunca os esquecemos porque partilharam connosco momentos unicos e inesqueciveis.
Abraço.
 
Gostei particularmente deste texto. Mentalmente segui-te por essas ruas que me são tão familiares...

Todos temos um amigo que gostaríamos de rever e ele, de vez em quando, assoma à porta da saudade... Comigo acontece e sinto um vazio, uma ansiedade...
 
memorias, sementes de vida k foste deixando por aí e k agora, fraternalmente,partilhas conosco.Ia dizer boas e más. mas não. Não são nem uma coisa nem outra. são memórias tuas e de um tempo. São memórias k antes de o serem foram actos e te construíram como és. por isso todas são boas. Bj de luz
 
Fernando, continuo a gostar muito de te ler.
Beijinho fraterno
 
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