Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quinta-feira, setembro 22, 2005

À Beira de um Penhasco




Naquele dia Ele decidiu ir ao seu encontro. Sabia que Ela apareceria de um modo qualquer naquele lugar.

Abandonou o seu espaço e saiu. Dirigiu-se ao automóvel, entrou no habitáculo sentando-se o mais confortavelmente possível. Accionou a ignição e a viatura começou a rodar em direcção à Auto-estrada. Ao fim de uns três quilómetros percorridos naquela via rápida, abandonou-a rumando em direcção à marginal. O odor da maresia inundou-lhe o Corpo e o Espírito. Do auto rádio vinham os acordes dos Pink Floyd, que o acompanhavam naquele serpear, umas vezes suave, outras vezes pronunciado da estrada. O calor do Verão naquele fim de tarde era atenuado por aquela refrescante ténue brisa marítima. O grande rio encontrava-se ali com o Oceano. Nas várias praias, ainda com alguma gente povoando o areal e alguns resistentes imersos na água, em que se destacavam surfistas. Mais adiante, aqui e ali, alguns pescadores amadores tentavam a sua sorte.

Chegou à cidadela e atravessou-a. Lá no cimo encontrou a via que o conduzia de novo à beira mar, onde varias moradias e alguns prédios roubaram o bucólico daquele lugar. Lá estava ele, o grande Oceano. Percorreu aquela estrada menos ondulante do que a que tinha percorrido até à cidadela, chegando ao vasto areal que forma pequenas dunas de ambos os lados, com o alcatrão salpicado do ouro que o vento depositava quando beijava a areia com mais vigor. Entrou na aprazível via, ladeada de acolhedores pinheiros bravos. Ao chegar ao entroncamento das duas estrada que conduzem à Serra, deixou para trás a que atravessa o seu interior, virou à esquerda iniciando assim a subida. O Sol ainda tinha brilho suficiente para decorar a água com tons de verde-esmeralda e argenta. Com o progressivo serpentear da subida deixou quase completamente de ver aquele Mar, onde através de perigosos barrancos, de quando em vez, aparecia, como que a convidar os caminhantes para prosseguirem em frente até o poderem desfrutar em toda a sua plenitude. Lá no alto daquele troço da Serra, alguns metros de via descendente e novo entroncamento. Virou à esquerda seguindo por aquela estreita estrada coleante que finda nas fragas altaneiras que antecedem o belo farol prestes a iniciar o seu movimento perpétuo durante a noite ou enquanto pairarem as brumas marinhas.

A loja de artesanato estava prestes a encerrar. O bar também denotava pouco ou nenhum movimento. Conduziu o carro até ao limite permitido. Estava praticamente só. Duas ou três viaturas ainda permaneciam em frente ao bar. Abriu o vidro do lado oposto. Uma fragrância forte de maresia invadiu o habitáculo. Com os braços em triângulo sobre no volante apoiou o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Os olhos, como uma câmara fotográfica com zoom, iam vasculhando aquela imensidão oceânica até à linha do horizonte. Quase no limite desta divisavam-se os contornos do parecia ser um cargueiro. Bandos de gaivotas pairavam no ar emitindo os seus sons característicos. Acendeu um cigarro que foi consumido compassadamente sem deixar de contemplar um dos quatro (?) elementos da Natureza, ali, do alto daquele imponente e privilegiado lugar. Apagou o cigarro. Reclinou o banco, espreguiçou-se aprazivelmente, recostando-se com as pernas quase esticadas, cerrou os olhos e abandonou-se a um estado de auto-hipnose.

O Sol, com tons mesclados de ouro e carmim, estava prestes a beijar o Oceano quão próximo se prefigurava o seu ocaso. Ele caminhou compassadamente até à zona de segurança. Ultrapassou-a, até atingir umas rochas que aparentavam uma cadeira de encosto.

Éolo, na sua eterna disputa com Neptuno, desestabilizando a água dos Mares, empurrava-a vigorosamente contra as fragas. Um barulho quase ensurdecedor que abafava o tagarelar das gaivotas. Formavam-se extensos montes de espuma através das piruetas da água oceânica.

Como que indiferente àquela força da Natureza, ele recordou o primeiro dia em que os seus olhos se cruzaram. Entrou na velha sala e sentou-se. Dos participantes, pouco mais de meia dúzia, predominava o sexo feminino. Ela estava de pé fazendo a sua explanação tendo de permeio uma velha secretaria. Uma Senhora, tipo balzaquiano, de provecta idade, sentava-se do lado oposto. De vez em quando levantava-se interrompendo a oradora, enfatizando o tema. Pacientemente, Ela, esboçava um sorriso iluminado que lhe acentuava o brilho dos seus belos olhos, fitando a velha Senhora com um ar misto de ternura e complacência.

Ele nunca foi um espectador passivo. Com uma cultura geral, razoável, embora anárquica, nada do que ali se estava a falar lhe era indiferente. Logo que considerou oportuno, interveio. A velha Senhora fitava-o atentamente. Ela, prosseguiu a sua intervenção. De cabelo ligeiramente curto e cuidadosamente tratado, tez morena, impecavelmente vestida, com um conjunto clássico de cor azul escura, composto por casaco, calça e sapatos a condizer. Completavam o seu vestuário, um camiseiro, do qual avultava, gentilmente, um fino lenço de seda. Ele, um eterno apaixonado pela beleza da Vida, observava-a enquanto fazia nova intervenção. Os olhos de ambos estavam como magnetizados. Ela escutava-o, saboreando-lhe as palavras. Ele notou-lhe um leve aflorar rosáceo nas faces. Não foi Amor, mas uma empatia poderosamente cúmplice, à primeira vista.

O Compasso do Tempo prosseguia a sua rota. Ele reconhecia-lhe os passos. Postado no largo portão, costumava fazer uma pausa fumando um cigarro, antes de iniciar a descida por aquela rua íngreme.

Naquele dia, ao senti-la, foi ao seu encontro. Os seus lábios selaram-se pela primeira vez. Repetiram o gesto, três ou quatro vezes, silenciosamente.

Ele lia-lhe a sua luta interior e as feridas em chaga. Respeitava a sua fragilidade emocional. Deixava-a prosseguir o seu Caminho de veredas escarpadas pelas encruzilhadas da Vida.

Decidiu afastar-se Dela por tempo não planificado, mas nunca a esqueceu.

As imagens iam-se sucedendo, tendo como ecrã, as densas Brumas que progressivamente desciam sobre aquele Mar em ebulição.

Os acordes de Wagner ecoaram no Espaço. As Brumas sublimaram a sua união a prazo com Oceano. A Lua Cheia permitiu-lhe descortinar por entre aquele nevoeiro, um sem número de silhuetas. Estavam cada vez mais próximas. Montavam Pegasus brancos e negros. Um gigantesco tabuleiro de xadrez. Corpos desnudados, maravilhosamente esculpidos, com os seus seios erectos e longos cabelos ondulantes.

Ao chegarem próximo daquele Penhasco, as belas Valquírias começaram a executar uma envolvente dança em espiral à sua volta.

Sentiu uma fragrância familiar. Manteve-se na sua posição de espectador fisicamente estático. Só o seu Espírito fazia o seu desempenho em catadupa. Aquele odor era cada vez mais intenso. Sentiu-se envolvido por aquelas delicadas mãos que lhe acariciavam a fronte. O seu Corpo estava completamente em descompressão. Ela sentou-se no seu colo, agarrando-o e beijando-o sofregamente. Estavam prestes a consumar a Utopia do seu Amor, quando, num lapso de tempo, os seus Corpos unidos rolaram por entre as escarpas até o Mar os acolher. Os acordes de Wagner eram cada vez mais intensos. As belas Valquírias desceram até a linha de água formando um enorme círculo. Com a força das ondas os dois Corpos unidos iam-se afastando até ficarem exactamente no centro daquele círculo. Imergiram suavemente e à medida que iam descendo, afloravam à superfície, centenas ou milhares, de rosas e cravos vermelhos. O Sangue dos Amantes.

Sentiu tocarem-lhe no braço. Soergueu-se e endireitou o banco.

“O senhor sente-se bem?” “Sim, sim, obrigado, estou bem”, respondeu Ele ao agente da Policia Marítima. “Acha que está em condições de conduzir?” “Estou com certeza, grato pelo seu cuidado”.

Pôs o carro a trabalhar, ligou os faróis e começou a rolar. A viatura da Policia ainda o acompanhou até ao entroncamento de estradas. Reduziu a velocidade, colocou o braço esquerdo de fora num cumprimento de despedida. Introduziu uma cassete dos Dead Can Dance no leitor.

Acompanhado por aquela música de que tanto gostava e o embalava no caleidoscópio da Vida e da sua escrita, reiniciou o caminho de volta…

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Há espaços que são um desafio para a escrita. Neste caso um paisagem maravilhosa proporcionou-nos um belo conto, sem esbater a paisagem mítica.
 
Um bom equinócio de outono para todos...
 
Fui andando e pareceu-me que chegava para os lados do Guincho. Ou sería noutro lado ? Foz do Douro ? Cape Town ( onde nunca estive )? . Às vezes viajamos assim...
Um abraço.
 
a vida dá voltas, so faltam os saltos, essesqur nos levam aos sonhos.
 
Belo momento... e a polícia a estragar tudo! :-)
 
Que texto maravilhoso! Simplesmente, maravilhoso!
E a foto, que bem ilustra o local que descreves!
Quase sem palavras,fascinada mesmo, fico-me por aqui!
Parabéns amigo,
Um beijo.
 
Uma visitinha a esta casa é sempre gratificante.
Voltei ao velho TADECHUVA. Estou em www.tadechuva.weblog.com.pt

Já falta pouquinho p'ró jantar

Aquele abração do
Zecatelhado
 
Bom fim de semana...

Continua a sorrir!
 
olá! por vezes andamos e andamos e ñ sabemos para onde,até que parece por alguma força maior vamos parar a sitios que nunca imaginariamos um dia lá estar e quando nos supreendemos c paisagens lindas,ou que nos causam calafrios,ou desejos que sonhamos,viajamos por momentos e conseguimos sentir na pele um sonho que parece tão real,sentir auelas vibrações são uma aventura e as vezes muito melhor que na realidade,todos aqueles sentimentos,nunca ficamos a saber,se o policia não chegasse até onde ias,...quem sabe continuasses a viajar,ou atirastes daquele penhasco,sorte ou azar viveste intensamente o teu momento,sonastes e não foi preciso pagar,heheh,enfim o que quero dizer é que tudo pode ser fantasia,mas nã deixa de ser uma realidade à sitios que nos proporcionam um belo momento de inspiração..
beijinhos
fatima 29 anos
 
Gostei de te ler...

Fica bem!
 
Um conto ou uma realidade!que caminhos foram percorridos no sonho de uma fantasia. Lindo conto em que cada palavra descrita parece contada na primeira pessoa.Descreves a paisagem, as serras, as rosas e essa paixão tão intensa com tanto realismo, se não fosse o policia, como acabaria? Gostei muito Fernando. É uma delicia ler os teus textos.
 
Mesmo ausente...apeteceu-me...tanto visitar-te, e só posso dizer que adorei!! Muitos beijos
 
Amigo qualquer dia peço-te para que coloques todos os teus escritos numa pasta que mos envies para eu poder imprimir e ler tranquilamente na cama ao adormecer e sonhar com as maravilhosas histórias :)
 
Adorei o teu texto. bjinho
 
há muitas escarpas, umas belas e doces, outras belas e cortantes.Bom feriado. bjs e ;)
 
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