Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, setembro 07, 2005

Autópsia


Quando falece um familiar próximo, a maioria das pessoas tem como preocupação primaria livrar-se da incomodidade do cadáver.

Será compreensível esta atitude, não só em termos afectação psicológica, como também por uma questão de salubridade pública. Mas de igual modo estão inerentes a estes factos questões de natureza ética.

Quando alguém exala o último suspiro num Hospital e se o quadro clínico do falecido apresentar duvidas quanto à causa de morte, de um modo geral, o responsável da equipa médica determina o envio do cadáver para os serviços de Medicina Legal onde uma equipa de médicos legistas irá determinar, mais ou menos com precisão, as causas da morte de um determinado individuo.

Ora, se nos Hospitais, que em principio deveriam estar devidamente apetrechados com toda a maquinaria inerente ao seu desempenho, tais com: Aparelhos de Raios X, de Ecografias, de Tomografias Axiais Computorizadas (TAC), de Laboratórios de Patologia, etc., etc., sendo assim possível essas unidades hospitalares terem o máximo de informação clínica sobre cada um dos seus doentes e mesmo assim os responsáveis de determinada Equipa, consideram, face à morte de um seu doente, que deverá ser efectuada uma autopsia para determinar as verdadeiras causas do óbito, isto revela, um alto grau de profissionalismo e consciência responsável por parte daqueles que prestaram o seu juramento Hipocrático.

Acontece que na maioria dos casos, os familiares da pessoa falecida, ficam como que apavorados, pela dissecação ou talvez profanação no conceito de alguns, do ente desaparecido. Apressam-se a revolver “o céu e a terra” para evitarem tal acto, a maior parte das vezes com o “empurrão” dos agentes funerários que pululam nos Hospitais, sendo muitas das vezes eles, que se antecipam aos serviços hospitalares comunicando o óbito aos familiares e oferecendo de imediato os seus préstimos.

Quanto a mim, penso que seria de todo o interesse não só dos familiares próximos, como também e principalmente da Ciência, determinar-se com o maior grau de exactidão possível a causa da morte de determinada pessoa sobre a qual pairassem algumas dúvidas. Para os familiares teria uma função pedagógica, alertando-os para cuidados futuros a terem consigo próprios, de forma a evitar ou a minorar o surgimento ou desenvolvimento de determinadas patologias indesejadas. Para a Ciência, seria uma forma de aquisição de novos Conhecimentos que evitassem ou minorassem a propagação de determinadas doenças e por fim possibilitasse o seu despiste e respectiva cura.

Mas existem outras situações que considero muito mais graves. É o caso das pessoas que falecem na via pública, nas suas residências ou em lares. Nestes casos sou de opinião que o envio do corpo para os serviços de Medicina Legal devia ser obrigatório, ainda que os seus familiares próximos não estivessem de acordo.

Cada vez mais pessoas manifestam em Vida o desejo de que o seu Corpo seja cremado ao invés de ser enterrado ou colocado num jazigo. Eu também sou daqueles que tenho esse desejo.

Mas pensem nisto: Determinada pessoa vai a andar normalmente na rua e cai de repente e quando alguém responsável lhe faz um exame primário constata que morreu. Causas da morte? Normalmente determinam um ataque cardíaco fulminante. A maior parte dos casos assim será, mas, se não for?

Nas residências e nos lares, mantêm-se as mesmas dúvidas. Toda a gente morre porque o coração deixa de funcionar, não irrigando o cérebro e este, ao fim de três minutos ou pouco mais, face à ausência de oxigenação é afectado por lesões irreversíveis que na maioria dos casos culminam com a morte cerebral e assim a pessoa é declarada clinicamente morta.

Como sabem, há muita gente que não tem médicos privados e os que os têm, os seus familiares contactam o médico comunicando a morte do familiar embora a maior parte das vezes estes clínicos não se desloquem às residências ou aos lares onde viviam os seus pacientes para atestarem o óbito, fazendo com que a família tenha que ir busca-lo de outra maneira. Quanto aos que não tem o seu próprio médico, os familiares recorrem a médicos conhecidos ou, na maioria dos casos, pelo que tenho sabido, são os próprios agentes funerários que oferecem os serviços de um médico das suas relações. O que é que pensam disto?

Suponham que uma determinada pessoa, doente do foro cardio vascular, devidamente medicada, mas por causa do seu desempenho intelectual, não consegue por si só realizar as tomas dos medicamentos prescritos e como tal está dependente dos cuidados do cônjuge para a realização de tais actos. Considerem também, que a sua parceira ou parceiro, que tem outro tipo de disfunção mental, como por exemplo, fazer uso abusivo das chamadas mezinhas caseiras normalmente vendidas e recomendadas por uma certa gente disseminada por aí em "consultórios".

Seguindo o curso a este tipo de suposições, imaginemos que a segunda pessoa referida, face à caracterização acima descrita, saturada do companheiro ou da companheira, traça um plano meticulosamente elaborado para acelerar a sua morte.

Como a maioria de vocês sabem, um dos procedimentos de prevenção ou para o tratamento de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) é a toma diária de um antipirético, normalmente entre 125 ou 150 miligramas. Estes fármacos vão provocar uma maior fluidez do sangue, prevenindo assim uma obstrução das artérias e consequentemente o risco de formação de trombos quando as tomas são efectuadas de acordo com a prescrição do clínico. No caso de, por exemplo, se duplicar a dose prescrita, este procedimento poderá provocar efeitos contrários.

Imaginemos então que uma pessoa com distúrbios mentais administre gradualmente ao seu cônjuge doses elevadas e que proceda exactamente ao contrário em relação à alimentação, confeccionando alimentos ricos em colesterol. Sabem qual será o desfecho, não é verdade? O paciente começa a sentir dificuldades respiratórias que se vão agravando até que ocorra o tal ataque fatal. Telefona para um médico conhecido solicitando-lhe a emissão de uma certidão de óbito. Em seguida, contacta uma agência funerária dando indicações expressas para a cremação do corpo, sem que tenha havido qualquer manifestação da pessoa em vida nesse sentido.(*)

A ocultação perfeita de um crime. Que eu saiba a Medicina Legal, até hoje, não conseguiu chegar a quaisquer conclusões, se é que alguma vez o tentaram fazer, tendo por elementos as cinzas de um indivíduo.

Quero deixar aqui expresso que tenho um grande respeito pelos profissionais de Medicina nas suas várias especialidades. Não tenho médico particular. Desde 1995, nas quatro vezes que me conduziram ao Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa, fui exemplarmente assistido. A eles devo o facto de estar hoje aqui a escrever para vocês. Para eles a minha eterna gratidão e o meu Bem Hajam.

Dos profissionais que referi negativamente, estou certo que a maioria deles procedeu de boa fé ao emitirem as certidões de óbito. Mas faço daqui um apelo a esses profissionais, para que se detenham nas dúvidas aqui expressas.

Não pretendo acusar ninguém mas, as décadas já vividas, não como mero passante, mas como espectador e interveniente na Vida, obrigam-me a consciência a tornar público as minhas dúvidas, tentando assim, contribuir para um transparente funcionamento de todos os sectores da sociedade em que nos encontramos inseridos.

Imaginação fértil? Olhem que não…

In
Voz das Beiras.



(*) Esclarecimento: O texto que acabaram de ler é o correcto. Na semana anterior a esta, foi enviado para o Voz das Beiras um primeiro original, que, vim a verificar, em menos de 24 horas depois, que continha várias incorrecções, sendo a mais grave a do parágrafo evidenciado a azul. Imediatamente fiz a correcção de todo o texto e enviei-o, como normalmente, via e-mail para o director do Jornal com a indicação de urgente. Infelizmente, o Jornal na sua versão on-line e creio que também na impressa, publicou o texto errado, o que, principalmente no paragrafo evidenciado a azul, pode desvirtuar o sentido que eu lhe quis dar.

Por esta lamentável ocorrência apresento aqui as minhas públicas desculpas aos leitores do Voz das Beiras. Quanto a questões de pormenor, nomeadamente o esclarecimento deste caso na próxima edição do Jornal, espero, em breve, conseguir contactar o seu Director e meu prezado amigo Pinto Correia.


Esclarecimento - 2: Hoje, quinta-feira dia 8, cerca das 13 horas, entrei em contacto com uma colaboradora da Dom Digital, empresa de informática que faz a manutenção e colocação da edição on-line do Voz das Beiras, que prontamente fez a alteração ao citado paragrafo. A essa Senhora expresso aqui os meus reconhecidos agradecimentos pela forma pronta e eficaz como tratou o assunto. Quanto à edição impressa do Jornal, que ainda não recebi, presumo que terá sido editada com o texto errado. E se assim tiver acontecido, solicitarei à Direcção do Voz das Beiras uma explicação clara aos seus leitores sobre este lapso.


Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Muito pertinente este teu texto.
Um corpo sem vida...é um simples aglomerado de ossos, carne, pele...sem sentimentos, nem ideias, completamente desprovisto da energia vital... Alguns impulsos electricos ainda ficam, findando aos poucos...
Tambem quero ser cremado, mais se meu "aglomerado" poderia vir a servir para ajudar aos vivos, estejam a vontade!
A parte cultural da questão é que é preocupante. A morte traz sempre ideias ancestrais...supertições, medo e repulsa.
Nunca me agradou a ideia do culto aos mortos...prefiro o respeito por aquilo que deixaram enquanto vivos...sem cultos de nenhuma índole.

Bom texto!

Abraço
 
Começa neste momento, a faltar-me tempo para dar vazão a todas a minhas tarefas que desafio constantemente... O que algumas ficarão sempre para amanhã, por conseguinte apenas me perdoem por não comentar tanto como gostaria

Abraços Fernando, volto mais logo, logo!

Voltarei com mais tempo para te ler a preceito...
 
Óptimo texto sobre um assunto, sem dúvida polémico, mas a ser encarado de frente como so tu o encaras!
Não há dúvida que, na hora da partida, a dor que nos assola é tão devastadora que,nem pensamos na importância de com verdade, se saber "o último porquê" que determinou o final.
Ou então...queremos evitá-lo a todo o custo, comprando o silêncio que nos é oferecido pelos "homens de preto".
É uma forma de fugir à dor???
Ou a comodidade de vivê-la sem saber o que a causou???
Bem-hajas pelo teu alerta!
Dá que pensar!
Um abraço com amizade.
MFátima.
 
Bom dia, Fernando.

Pode parecer que não te acompanho, mas é errada essa ideia. Tenho o previlégio de te ler todos os dias que publicas um texto em primeira mão. Depois esqueço-me que é mais importante vir aqui e deixar uma palavra e um abraço.
Tou desculpado, ou é preciso fazer um xinfrim daqueles que se faziam contra a pide?

Aqui estou mais à vontade porque sei que não levo com o bastão.

Um abraço, amigo Fernando.
Estou por aí.
 
Com tanta nota explicativa, limito-me a desejar um bom fim de semana!
 
tens razão.Não deviam ser colocados obstáculos às autópsias.Bom f.s. Ah, passa lá por casa, precisamos de ti. Bjs e ;)
 
Este assunto tao importante foi escrito com muita perspicacia. Ha sempre duas faces em cada moeda, e em tudo na vida como na morte tambem. Emocionalmente a dor e devastadora e qualquer invasao das nossas emocoes e como um insulto a nos proprios e ao ente querido que acaba de falecer mas por outro lado ha a questao etica, cientifica e moral e em que a emocao nao pode estar presente. Dai haver tanta polemica em relacao a autopsias, a eutanasia, ao suicidio e ao aborto, no fundo todas as situacoes onde a fronteira entre o vivo e o morto e tao dificil de se distinguir.
A sua analise sobre este assunto tao complicado e bastante inteligente e daria para uma discussao muito interessante principalmente porque nunca chegariamos a uma so conclusao.
Um beijo da filha da raposinhadalinha :)
 
Concordo plenamento com tudo o que está descrito no texto...principalmente em relação ás "aves de rapina" dos chamados "cangalheiros"...
Quanto á eutanásia, que a mana refere no seu comentário, também sou um apoiante da permissão á mesma....mais um assunto que daria "pano para mangas"....
Abraço,
 
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