Loreena McKennitt - Dante's Prayer

domingo, junho 19, 2005

A Mãe de Carlos – II


O Carlos e eu frequentávamos as últimas quatro cadeiras do Curso Comercial. Havia noites que não tínhamos aulas, então combinámos reunirmo-nos na sua casa. Eu residia na pitoresca Alfama lisboeta e o Carlos no Poço do Bispo.

Tinha de usar a mentira perante os meus Pais para as saídas nessas noites. O estudo era a desculpa. Depois de jantar, pegava nalguns livros e numa sebenta. Saía de casa, um segundo andar na Rua da Adiça, passava pelo Largo de S. Rafael, descia umas escadinhas, daquelas muito estreitinhas, como são usuais naquele Bairro, passava para o outro lado da Rua da Alfandega e estava na paragem do carro eléctrico da Carris.

Santa Apolónia, Xabregas, Marvila, Beato, Madre Deus e finalmente o terminal da carreira, Poço do Bispo. Aí chegado, começava a subir a Rua Vale Formoso de Baixo, passava sob a velha ponte do comboio, andava mais umas centenas de metros, virava à direita, para uma rua cujo nome já não me recordo, mais umas passadas e chegava a casa do meu Amigo e Camarada Carlos. Um rés-do-chão. Os dois mapas cujos links direcciono atrás são só para se fazer uma pálida ideia do meu percurso. Porque nos dias de hoje, após as obras efectuadas, principalmente as de requalificação da zona oriental de Lisboa, aquando da Expo 98, alteraram completamente a fisionomia daquele local. A casa de Carlos ficava, sensivelmente a meio caminho, entre a última paragem da Carris no Poço do Bispo e a chamada Rotunda Baptista Russo.

Carlos já me esperava, abria-me a porta e conduzia-me para a sala de jantar. Só me recordo daquela dependência e do pequeno corredor da entrada. Pelo que observei, era uma casa modesta, mas bastante bem cuidada.

Sentávamo-nos diante da mesa onde já repousavam alguns livros e documentos devidamente empilhados. Depois de conversarmos sobre o nosso quotidiano, entravamos na temática politica. Carlos fazia o ponto da situação, sobre o que se passava no país em geral. Nas reuniões que se seguiram após o eclodir da luta armada nas ex-colónias, conversávamos sobre toda a recolha de informação conseguida pelo Partido em relação aos movimentos de libertação.

As lutas, principalmente, nas fabricas existentes na cintura industrial de Lisboa; dos trabalhadores dos campos alentejanos e ribatejanos; as perseguições e prisões efectuadas pela Pide, não só a militantes políticos como a quaisquer trabalhadores que ousassem erguer a sua voz contra qualquer injustiça praticada pelo patronato, na sua grande maioria reaccionário, com especial destaque para as grandes famílias detentoras de vastos monopólios, como eram o caso, por exemplo, dos Mellos, Espírito Santo, Champalimaud, etc., etc., pilares principais de sustentação do regime corporativista, a tal versão pacóvia do nazi-fascismo. Assim como também existiam os Sindicatos Nacionais a que todos os trabalhadores das empresas privadas eram obrigados a pertencer, estando a sua filiação nesses organismos fantoches e respectiva dedução no salário dos trabalhadores e respectivo pagamento a cargo das empresas empregadoras.

Voltando às nossas reuniões - Definiam-se tarefas a realizar. A minha era de publicitar “pela calada da noite”, em locais de passagem tais como: paragens de transportes públicos, igrejas, à porta de empresas, nos prédios de habitação, etc., os materiais impressos nas tipografias artesanais e clandestinas do Partido, que existiam no país e que constantemente os camaradas seus responsáveis eram obrigados a desmontar e a transferir de local por razões de segurança. Esses documentos, como o jornal Avante!, que tinha o formato A5, eram impressos num papel muito fino, com letra muito pequena, para se poder publicar o máximo possível num espaço diminuto e que podia ser rapidamente mastigado e engolido em situações de perigo, como a percepção da aproximação das forças repressoras: Pide, GNR e PSP. Nestas duas ultimas existiam agentes com formação dada pela Pide. Isto para além dos milhares de informadores, os chamados bufos, existentes na Função Pública, Fabricas, Escritórios etc.

Depois, conversávamos sobre os últimos livros editados ou a editar. Daqueles que nós sabíamos que iam ser apreendidos pela Pide e que, dentro da medida do nosso parco orçamento, procurávamos adquirir alguns. Como esclarecimento para os mais jovens, isto acontecia porque ao contrário dos jornais, os livros não eram previamente censurados. Sendo posteriormente apreendidos nas livrarias e nas editoras.

Líamos, estudávamos e interpretávamos alguns autores de referência tais como Marx e Engels. Dos ensaios, António Sérgio e António José Saraiva, eram alguns dos nomes falados. Dos romancistas, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino Ribeiro, Jorge Amado, John Steinbeck, Jean Paul Sartre, Máximo Gorki, etc., etc., etc., passavam por ali. Recordo-me que o primeiro livro que li de Gorki foi a Mãe.

E era sensivelmente no momento em que começávamos a falar de livros, que Ela aparecia, a Mãe de Carlos.

(continua)


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Comments:
Fernando, afinal tinhas explicado tão bem aqui como era o Ávante clandestino e eu não tinha visto! :)
Ainda bem que voltei para ler mais. Lembras-me os meus companheiros, os que cantavam comigo o Guantanamera e La Cucaracha.
Um beijo grande e fica a recordação:

Guantanamera
(Música de Jose Fernandez Diaz;
Poema de Jose Marti)

Yo soy un hombre sincero
De donde crecen las palmas
Yo soy un hombre sincero
De donde crecen las palmas
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma

Refrão:
Guantanamera
Guajira Guantanamera
Guantanamera
Guajira Guantanamera

Mis versos san de un verde claro
Y de un carmin encendido
Mis versos san de un verde claro
Y de un carmin encendido
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo

Refrão

Y para el cruel que me arranca
El corazon con que vivo
Y para el cruel que me arranca
El corazon con que vivo
Cardo ni ortiga cultivo
Cultivo la rosa blanca

Refrão

Con los pobres de la tierra
Quiero yo mi suerte echar
Con los pobres de la tierra
Quiero yo mi suerte echar
El arroyo de la sierra
Me complace mas que el mar

(infelizmente só os encontrei traduzidos num espanhol um pouco estranho e o meu não está à mão!)

:)

A sensação que tenho, e cada dia é mais forte, é que a luta por cá tem de recomeçar mesmo a sério!
 
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