Loreena McKennitt - Dante's Prayer

sexta-feira, junho 17, 2005

A Mãe de Carlos - I


Carlos tinha a minha idade. Conhecemo-nos num Externato que já não existe e que funcionava em Lisboa, na zona dos Anjos. Quando nos empregámos, ainda adolescentes, decidimos prosseguir ali os nossos estudos, no período nocturno, pois já tínhamos sido alunos diurnos dessa Escola.

Estávamos nos anos derradeiros da década de 50. Muitos dos nossos colegas do Curso nocturno, eram homens já casados. Os professores, na sua maioria, eram funcionários de empresas públicas ou privadas. Recordo-me que o professor de Direito Comercial, era um licenciado em Direito, funcionário publico, que exercia a sua actividade na então designada Assembleia Nacional.

Conversas de carácter político eram tabu ali, tal como acontecia por esse Portugal fora. Pois ao nosso lado, por exemplo, naquele Externato, poderia haver um colega ou um professor, que a troco de uns escudos, exercessem a abjecta missão de informadores pidescos.

As conversas limitavam-se ao futebol, bailaricos, e banalidades de diverso cariz. E se por acaso alguém aflorasse, embora de forma inocente, algum outro assunto fora do contexto atrás referido, era olhado de lado, muitos afastavam-se e a conversa prosseguia de acordo com os cânones permitidos pelo lusitano poder, versão pacóvia do nazi-fascismo.

Carlos, sobressaía pela positiva, no meio da generalidade amórfica daqueles nossos colegas, que por medo ou por convicção, aceitavam as normas impostas pelo poder salazarento. De estatura média alta, seco, traços caucasianos/judaicos, tinha a figura típica de um jovem intelectual dos anos 50/60, tal como eram caracterizados pela nouvelle vague francófona. Como que um lusitano Jean-Luc Godard, mas de ar mais cuidado. Óculos de massa negra, sóbrio na sua maneira de vestir e devidamente arrumado. Um pouco introvertido, voz pausada e de dicção impecável. Carlos transportava sempre com ele para além dos livros escolares, um ou outro, de romance ou de ensaio literário.

Eu, na época tinha mais ou menos estas características, exceptuando o desalinho no cabelo e a minha extroversão, que por vezes me valeram alguns dissabores, com colegas e professores. Também transportava por vezes um ou outro romance, mas habitualmente, andava com o jornal República debaixo do braço ou entre os livros escolares com a Seara Nova que era editada mensalmente (quando a Censura deixava).

De início falávamos pouco. Observávamo-nos mutuamente e da mesma forma nos fomos aproximando. Trocávamos impressões sobre algumas notícias e artigos, inseridos no “meu jornal” ou na Seara Nova e que muitas vezes notávamos que tinham sido adulterados pela Censura mercê dos cortes efectuados pelos censores de serviço. Carlos falava-me dos “seus romances” e dos “seus ensaios”. Passado pouco tempo a nossa mútua empatia dava os seus frutos.

Um dia, Carlos pergunta-me calmamente se estou disposto a empenhar-me na luta politica devidamente organizada. Claro que não hesitei, pois já antes tinha andado a “meter o bedelho” nas Sedes de candidatura do General Humberto Delgado e do Dr. Arlindo Vicente


(continua)


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Comments:
Fernando,
Espero que continues esta tua história,porque por ser verdadeira,e de uma época que muitos não viveram e alguns fazem por esquecer,pode tornar-se num importante testemunho.
Bom fds.
Abraço.
 
Fernando amigo
Hoje tem festa lá em casa e estás convidado.
Ficaria imensamente feliz com tua presença amiga!
Deixo-te muitos beijinhos cheios de saudades.
 
Agora em: http://wwweditorial.blogspot.com/, todos podem participar e pede-se a todos que publiquem, uma vez por semana, os respectivos artigos, com os vossos próprios comentários.
 
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