Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, junho 01, 2005

Cinza de Cigarro

O pequeno café-restaurante como habitualmente àquela hora estava cheio. Em frente ao balcão homens e mulheres mastigavam e bebiam em silêncio. Cerveja, taças de vinho e eventualmente xícaras de café. Nas mesas, atravancadas de gente, casadas aos pares com espaço diminuto entre elas, estavam igualmente sentados homens e mulheres, comendo e bebendo pachorrentamente. As palavras eram parcas e imperceptíveis jorradas através de semblantes imóveis e articuladas a maior parte das vezes de forma inaudível, acompanhadas pelos seus olhos baços e parados.

Quase toda esta gente estava sob o efeito de psicotrópicos, tendo como aditivo o álcool ali ingerido potenciando os efeitos indutores dos fármacos, tal como o manusear de um fósforo perigosamente junto de qualquer artefacto explosivo.

Curiosamente a única mesa vazia, era a que estava mais próxima à porta de entrada, encostada, tal como as outras, a uma parceira. Sentámo-nos. Na mesa que acasalava com a nossa, do meu lado, uma mulher. Pedimos os cafés.

Comecei a observa-la. Cabelos negros, bastante morena, mas de raça caucasiana, erecta, olhar fixado no vazio, um rosto sem qualquer contracção facial. Aparentava cinquenta e poucos anos de idade. Vestia de forma cuidada. Pelo porte parecia ser de estatura média alta. Dedos de unhas bem desenhadas, mãos compridas que permaneciam inertes sobre o tampo da mesa, repousando entre elas uma chávena vazia de café, um maço de cigarros e um isqueiro.

Da boca pendia-lhe um cigarro aceso quase a chegar ao filtro. A cinza permanecia incrivelmente imóvel, com um comprimento considerável. Sem qualquer esgar perceptível o fumo era expelido por entre os lábios envolvendo o que restava do cigarro, incluindo a respectiva cinza. Quando a brasa chegou finalmente ao filtro, ela pura e simplesmente deixou de comprimir os lábios. O filtro e a cinza espalharam-se pela mesa. Continuei a observa-la. Passado um curto lapso de tempo, agarrou com a mão esquerda o maço de tabaco e com a direita, sacou de mais um cigarro, acendendo-o de imediato. Tudo isto com gestos precisos, como um qualquer robot numa linha de montagem.

Paguei a conta e virei-me para ela despedindo-me. Não obtive qualquer resposta. De novo a cinza permanecia estática. O movimento perpétuo do seu mundo assim permanecia.

Distavam não mais que cinquenta metros do largo portão. Caminhámos na sua direcção, gente de todas as idades e sexos ia passando por nós ou permanecia imóvel nos passeios. Alguns vinham na nossa direcção e sem articular uma palavra, com os dois dedos da mão direita num movimento cadenciado exibiam o gesto de fumar. Era a sua maneira de pedirem cigarros. Fomos passando por elas e por eles, com um sorriso complacente e igualmente sem pronunciarmos qualquer palavra, encolhíamos os ombros e fazíamos um pequeno gesto que eles e elas entendiam conformadamente.

Cruzámos o portão. Caminhámos alguns metros pelo pátio até atingirmos a porta principal do edifício. Neste amplo espaço com alguns bancos de jardim e algumas árvores, corriam, estavam parados ou caminhavam com passadas imprecisas, vários doentes. Alguns pediram-nos também cigarros.

A minha Amiga, Delegada de Informação Médica, entrou no edifício para tratar dos seus deveres profissionais. Tinha-a acompanhado até aquele Hospício, pois tinha muita curiosidade de presenciar de perto tudo aquilo que eu sabia existir.

Lá dentro, um doente interno, ia apertando as mãos a pessoas que estavam a aguardar pela consulta externa de psiquiatria. Voltei para junto da porta do edifício, aguardando a minha Amiga. No local onde permanecia podia avistar todo o pátio. Tive de apertar as mãos a vários doentes e a recusar silenciosamente os cigarros que alguns me pediam.

A “roda da loucura” era bastante visível naquele pátio. Ouviam-se guinchos de uma ressonância gutural semelhante à emitida pelos grandes símios no seu habitat natural. Caminhavam descompassadamente, em ziguezague, uns calados e outros articulando frases desconexas. Um deles, um homem talvez na casa dos quarenta, alto e com uma gordura bastante disforme, lançava urros. Com aquela grande cabeçorra e face de patéticos esgares, de vez em quando agarrava um companheiro e beijava-o na boca.

Mantive-me imóvel ante aquele quase dantesco espectáculo do qual era um espectador privilegiado. As cenas sucediam-se em catadupa. O tal movimento perpétuo revelador de graves disfunções no sistema nervoso central daqueles seres.

Começámos a caminhar em direcção ao portão silenciosamente. Lá vinha ela de regresso à “sua casa”. Erecta. Passos cadenciados, mecânicos, da boca pendia-lhe um cigarro e a incrivelmente direita, cinza. Os seus olhos baços não acusaram qualquer estímulo à penetração dos meus. Mundos impenetráveis…

Um dia sentei-me diante do meu PC. Há muito que tinha de expurgar aquilo que senti durante todos estes anos, sempre que me recordava deste episódio. Estimulado por sons não comerciais de um CD rodando no leitor óptico, comecei a dedilhar o que há muito estava bem guardado no “baú” da minha memória.

Claro está, com um cigarro pendente nos lábios que por vezes inundavam de cinza o respectivo teclado.

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Comments:
Fernando,

Muito bem escrita esta crónica,que mais não é do que fragmentos da vida de cada um,da nossa vivência.
Parabéns pela escrita.
A proposito, acho que vou fumar um cigarrinho,mas com cuidado para não deixar cair a cinza no teclado como tantas vezes também já me aconteceu.
Abraço.
 
Hoje estou muito triste. Acho que estiveste a visitar o inferno, eu também já fui visitar um lugar desses e todos os dias faço esforços para me manter com a minha sanidade mental. Desgostos e muitas tribulações levam-nos a estados de alma bem doentios.
Um abraço Fernando.
 
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