Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, maio 24, 2005

O Ovo da Serpente


Danilo é um profissional de sucesso. Director de departamento de uma empresa de transportes aéreos, onde foi admitido nos anos 70 com cerca de trinta anos de idade, vindo de uma outra Empresa Publica.

Razoavelmente culto, de estatura média alta, sempre impecavelmente vestido, bem penteado, usando o corte da época, Danilo aparentava, se assim o podemos definir, um misto de intelectual e de burocrata bem polido. Mestre na arte gutural, as palavras que articulava meticulosa e prudentemente, por vezes impressionavam os seus interlocutores. Bastas eram as vezes que, a propósito de um qualquer assunto, se expressava como se estivesse à boca de cena, representando um papel dramático.

Casou-se logo após o regresso da guerra colonial. Helena, com quem namorara desde os bancos da secundária, era a antítese de Danilo. Filha única e serôdia, nunca cortou o cordão umbilical, continuando a viver o universo limitado dos seus progenitores.

Helena, nunca foi uma rapariga do seu tempo. A sua maneira de vestir, era de uma notória falta de gosto. Mais alta que Danilo, de andar desengonçado, impulsiva e estouvada qb, o seu QI denotava de igual modo um coeficiente muito baixo. Quando se empregou, o seu relacionamento com as colegas por vezes era alvo de situações caricatas e de chacota. As colegas riam-se e ela muitas das vezes chorava.

Antes e depois do casamento, Danilo demonstrava muita paciência. Ele aplacava de uma forma aparentemente doce, as posturas irreflectidas da sua “amada”, pacientemente corrigindo-a e dizendo-lhe vezes sem fim: “minha princesa, minha rainha, tu és tudo para mim, amo-te…”

Nasceu um rapaz. Danilo foi ascendendo dentro da empresa, até chegar a director de departamento. Tinham uma vida confortável, burguesa, eram aquilo a que costumamos ouvir designar por uma família equilibrada e feliz. Ele, o Rei, ela Rainha que ele idolatrava perante os outros até à exaustão. E o pequeno Príncipe ia crescendo naquele ninho de “paz e amor”.

Um dia, Danilo chega ao seu “doce lar” e com uma voz metálica e fria diz para a idolatrada Helena: “A nossa relação acabou. Vamo-nos separar imediatamente. O meu advogado já tem tudo preparado, portanto, se aceitas o comum acordo, muito bem, caso contrario arranja um advogado e vamos para o litigioso”.

Helena ficou paralisada e estupefacta, de olhos muito abertos, olhando para Danilo. Indiferente à reacção dela, ele continuou: “Parece que fui bem claro no que disse. Acabou-se. Tu já nada significas para mim”…

O filho tinha ouvido parte da conversa. Já era um adolescente. Agarrou-se às pernas do pai chorando convulsivamente e de joelhos, pediu-lhe para que não os abandonasse. Danilo de semblante petrificado, afastou o filho de forma abrupta e saiu daquela casa para sempre.

Danilo, após a ascensão a tão confortável lugar, libertou-se da mascara utilizada durante muitos anos. Revelou aquilo que tinha bem guardado no cofre do seu (in)consciente e começou a fazer jorrar o sangue que ele considerou necessário fazer verter. Os subalternos não lhe tinham respeito. Nutriam por ele ódio e medo. Mas, Danilo, qual réptil viscoso, continuava a garrotar as suas presas.

Marina, a sua secretária, uma mulher invulgarmente bela, elegante, de andar suave e angelicamente provocatório, desde sempre conduziu o relacionamento com o seu chefe com inteligência e determinação. Olhava-o nos olhos, envolvendo-o, mas sempre com um ar natural, de uma subalterna, responsável e excelente profissional. Conseguiu tornar-se sua confidente. Falava-lhe nos seus problemas conjugais. Dois filhos, uma vida, de desafogo económico, mas marcada pela rotina dos silêncios.

O frio e calculista Danilo, foi abandonando a postura hirta e fechada que o caracterizava, permitindo que Marina o envolvesse, progressivamente abandonando-se nos elos das escamas tentadoras daquela bela serpente que se tinha revelado quando ela acedeu a que ele a retirasse do refugio do seu ovo.

Danilo e Marina ainda vivem, ou sobrevivem uma vida comum. Socialmente, bem talhados um para o outro. Duas cobras sibilantes que percorrem as florestas urbanas, rastejando, de forma sempre ascendente, pelas arvores de grande porte.

Quanto a Helena, foi o desmoronar do seu castelo de sonhos limitados. Vive a solidão de um rainha destronada, degredada para um qualquer casarão bafiento, pleno de aranhas que vão tecendo teias para atraírem as suas presas.

Helena, tardiamente compreendeu a estratégia dos aracnídeos.

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Gostei imenso deste conto, da maneira como está escrito e porque me prendeu de inicio ao fim. Infelizmente há tantos contos reais como este...
Beijinho
 
é a realidade pura e dura.
nem palavras a mais nem palavras a menos.
acho que as cobras e as aranhas são bem mais respeitáveis do que esas duas criaturas.
é por isso que eu amo de paixão os meus Lobos.
escolhem o seu companheiro para a vida toda.
que bonito era que o ser humano aprendesse com Eles.
xi
maria
 
Tão verdadeira essa moral darwinista...Gostei muito,Fernando.
Beijos!
 
Meu caro Amigo,

Estes parágrafos são dignos de um livro de contos de Maria Archer. Conhece-a?
Gostei muito!
Getulio (Brasil)
 
bem, que estoria
 
Assusta-me o preto e branco da história. Onde estariam os cinzas? Nas menopausas? Nos crescimento de poderes. Na imaturidade? Na noção de que aceitarmos o outro falsamente contra o que acreditamos um dia se virará contra nós...? Na aranha que tecem a sua teia à nossa volta procurando o ponto fraco?
Conheci um dia uma serpente. Mas terá essa serpente sido apenas um ser melífluo? E "eu" onde estava? Onde estava tudo que foi vivido para trás? Os erros de parte a parte... os gritinho surdos que qs não se fazem ouvir. Os danos insanos de permitirmos continar uma farsa sem o percebermos. É fácil ser apenas mau ou ser bom. Ser humano é bem mais doloroso. Tendemos a afundarmo-nos.
 
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