Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, abril 25, 2005

Os Cravos e os cardos


Foi há trinta e um anos. O acordar da Esperança dos nossos Sonhos, depois de uma longa letargia permitida pelo conformismo e pelos gritos mudos da maioria dos nossos concidadãos, que remetiam para o sacrifício de um punhado de gente que trespassava o medo, a tarefa da reposição da dignidade de todos nós.

Há três décadas, esse punhado de gente, vislumbrou a luz por entre as trevas, quando os primeiros acordes de marchas militares, interrompeu a programação de algumas Emissoras.

Naquela noite, como habitualmente, ao deitarmo-nos, ligámos um pequeno rádio que estava numa das mesas-de-cabeceira. O hábito de saltar da Rádio Renascença para o Rádio Clube Português, mantinha-se e acabámos por adormecer com o rádio sintonizado numa daquelas estações. No quarto ao lado, dormia a nossa filha, quase a completar 4 anos no mês seguinte.

Quando de repente eu acordo ao som de uma marcha militar. Achei estranho e mantive-me atento. Quando acabou aquele tema, outro igualmente militar. Acordei a minha mulher e dei-lhe conta da situação. Comecei a juntar as peças do puzzle. Ela não, por uma questão da sua preservação e segurança, mas eu sabia que estava para acontecer alguma coisa, a qualquer momento. Já há algum tempo que eu tinha reiniciado a minha actividade politica “subterrânea” através de um “inocente” grupo de trabalho sindical, no Sindicato “Nacional” dos Empregados de Escritório, como, creio, então se designava. Algum tempo antes do 25 de Abril, o nosso “grupo” teve de se dispersar, pois uma noite, o Zé Manel foi a nossa “tábua de salvação”, quando nas proximidades da Rua Castilho, em Lisboa, nos fez sinal, entrando no meu automóvel. Eram eles, os pides que estavam à nossa espera. Passado algum tempo o Zé Manel, foi “engavetado”, noutro local, só alcançando a liberdade com a Revolução.

Depois das marchas militares, as “canções de protesto” e a nossa ansiedade aumentava. Até que ouvimos o primeiro comunicado. “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas”…

Como uma mola levantámo-nos da cama e gritámos em uníssono Viva a Liberdade! Devemos ter acordado muitos dos nossos vizinhos. Continuávamos a gritar, indiferentes ao facto se o Movimento seria bem sucedido ou não. A Sandra acordou e associou-se na sua inocência à nossa Festa. “Biba a Bibedade”, repetia ela tentando imitar-nos. Comecei a acordar pelo telefone os meus familiares e amigos. Preparámo-nos e saímos com a miúda, deixando-a à guarda dos avós maternos.

Seriam cerca das seis horas da manhã quando iniciámos a nossa jornada. Da casa dos meus sogros, muito perto do Panteão Nacional, dirigimo-nos ao Terreiro do Paço (ou Praça do Comércio). Ao chegarmos à Rua da Alfandega vimos os primeiros militares na confluência com a Rua da Madalena por onde de forma simpática e cortês nos mandaram seguir. E o nosso périplo na baixa lisboeta começou. As pessoas iam-se apercebendo do que estava a passar-se. Erguiam o braço direito levantando-o em frente aos militares e desenhavam o V de Vitoria com dois dedos da mão. Não sei de quem é que teria partido a ideia, mas o que é certo, é que ainda durante aquela manhã, os jovens militares, começaram a receber de presente belos Cravos Vermelhos, o abraço fraterno da gente masculina e muitos beijos de mulheres de todas as idades.

Estacionámos o carro num lugar qualquer e a pé fomos percorrendo aquela zona da Cidade. Terreiro do Paço, Largo do Carmo, Rua António Maria Cardoso, onde se situava a sede da pide/dgs, da qual, alguns facínoras, sentindo-se acossados, disparam indiscriminadamente na direcção dos militares e dos muitos populares que os apoiavam e incentivavam, manchando aquela rua de sangue e morte.

O que se passou a seguir, alguns sabem, outros esqueceram e, infelizmente, a maioria dos Filhos (e agora os Netos) da geração de 60, ou pelo silêncio dos seus progenitores ou por muitas outras e variadas razões, não entendem a razão de ser dos valores por que Lutámos. Foram crescendo, assistindo ao triste espectáculo protagonizado por oportunistas ditos de esquerda, que em 1974, logo começaram a fazer grande alarido, arrastando até com o seu aventureirismo, muitas pessoas crédulas, que momentaneamente se deixaram embalar pelos seus cânticos enganadores.

Grande parte desses “Educadores do Povo”, depois de passados os seus devaneios de verborreias e acções pseudo revolucionarias, alojaram-se no seu lugar, deixando cair a mascara e são hoje em dia, muitos dos protagonizam praticas que diziam combater.

Evidentemente que nada disto constituirá surpresa para aqueles que procuram estar minimamente informados e estudam o processo de evolução da Humanidade. Pois sabem que uma Revolução também produz oportunistas e traidores. Mas de igual modo, sabemos, que o trigo se separa do joio e assim, ainda encontramos muita gente que nunca se vendeu, nem nunca traiu os seus ideais. Muitos dos “Filhos de Abril” têm adquirido consciência cívica e continuado a luta dos seus progenitores, não ignorando os novos desafios que permanente e progressivamente se vão colocando no seu dia-a-dia.

Continuar a Lutar pela edificação de um Homem novo, é, não só possível, como obrigação de todos nós. Para tal não precisamos de pessoas providência a quem prestaremos culto. A unidade, dentro da diversidade de conceitos é possível entre todos aqueles que verdadeiramente desejem colocar as suas capacidades e potencialidades ao serviço do colectivo, em detrimento do egoísmo individualista.

Não há verdades absolutas, mas certamente encontraremos um conjunto de princípios que nos permitirão dar a nossa quota-parte de serviços prestados ao colectivo, permitindo assim, para além de algumas diferenças de pormenor ideológico, encontrarmos pontos comuns para partilharmos, defendendo o essencial que nos une, deixando de lado, embora não ignorando, o acessório que nos separa.

Pessoalmente, reconheço, nas suas diferenças naturais, a beleza de muitas flores, independentemente dos odores emanados. Todas requerem a nossa atenção e os nossos cuidados. Mais umas do que outras. Os cravos não são pertença exclusiva de ninguém. Não são flores aristocráticas. Pelo contrário, eram e são carinhosamente cultivadas e acarinhadas pela gente simples (aqui ultrapassando o conceito meramente económico-financeiro).
Mas os cravos, com a sua beleza e fragrância plebeia, simbolizam a vontade de um Povo que despertou e que deve permanecer atento aos cardos de diferentes colorações, sempre prontos a destruir o seu símbolo de Luta e Resistência.

Viva a Liberdade!

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Caro Fernando,
Gostei imenso desta tua vivência do 25 de Abril.
Estes testemunhos são muito úteis para as gerações que se seguiram à nossa.
Obrigado por teres relembrado ABRIL.
Um abraço
 
Obrigada por esta tua "história de vida", gostei muito.

---
Hoje acordei a pensar no emprego que mais importante foi para mim...
Há dias assim, em que por qq razão, em vez de culparmos o gato voltamos mais atrás e achamos que encontrámos "o culpado" numa outra história qq q já sucedeu na nossa vida...

Como sou uma pessoa tímida mas tenho um feitio terrível, costumo dizer o que me passa pela cabeça se considerar q o devo fazer, o meu ex-patrão - numa fase pior da empresa - achou q a minha forma de colocar os assuntos só podia ter um nome: eu certamente era uma "sindicalista"...

Nessa má fase tinhamos ido colocar algumas perguntas ao IDICT. Caso fossemos despedidos queriamos saber com q linhas nos cosiamos... (experimentem pensar q podem perder o vosso ganha-pão e vejam se não tentam descobrir qt podem receber de indemnização, se têm direito a um aviso, etc... pq na verdade, em empresas pequenas ninguém pensa efectivamente em iniciar um processo e teimar em ficar... seria loucura e não era de todo essa a nossa ideia).

Assim, talvez por ser uma pessoa q já podia estar a chorar mas dizia q n era verdade alguma acusação q achasse q n fosse correcta, fui acusada em surdina por de ser "sindicalista"...

Poderá tb ter sido pq um dia comentei entre colegas q o achava um cobarde qd ele encostou uma colega nossa à parede com dois contratos - com datas erradas, de propósito - p ela assinar e lhe disse "ou assina ou vai hoje para a rua"... Claro que convém explicar que ela estava efectiva há pouquinho tempo e assinando os contratos voltava qs à estaca "0"... e q ela perante o susto q apanhou, assinou...

Considerei-o um cobarde pq utilizou-se de ela ter bloqueado e entrado em pânico (ganhava um tudo nada mais q o pai que ganha uma miséria e a mãe n tinha emprego) qd ele podia ter gasto algum dinheiro a despedi-la honestamente, pq aquilo foi apenas para mostrar q acima de tudo ele é q mandava... (Foi despedida meses mais tarde... e os valores entregues devem de ter sido mt parecidos com os q entregaria sendo ela efectiva...)
......


Desculpa o desabafo... eu já n acredito tanto nos direitos e liberdade do ser humano... e o mais "giro" é q nem fui eu q dei a ideia de ir ao IDICT... eu n sabia o q isso era...
 
Menino Fernando, posso começar assim? O teu texto fez-me relembrar essa madrugada impar nas nossas vidas.
Será verdade o que estamos a ver e a ouvir na Televisão?Interrogavamo-nos em casa eu e a Teresa.
Não me contive e fui para a rua contra vontade dela, mas tinha de ver para querer, não como S. Tomé mas como português.
Quando ia do Príncipe Real para o Largo do Carmo, apanhei um susto, pois a rua estava cheia de GNR armada até aos dentes. Felizmente que tiveram o bom senso de ficarem quietos onde estavam. No largo do Carmo assisti a tudo no meio da malta.
É muito difícil mas tens razão quando escreves "A unidade, dentro da diversidade de conceitos é possível entre todos aqueles que verdadeiramente desejem colocar as suas capacidades e potencialidades ao serviço do colectivo, em determimento do egoísmo individual".
Os cardos há-os sempre, são os oportunistas. Conheci muito bem alguns desses "Educadores do Povo", um dia contarei o que se passou entre mim e alguns deles.
Um abraço e parabéns pelo texto. Augusto
 
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