Loreena McKennitt - Dante's Prayer

domingo, março 20, 2005

Pai


Raros são os dias em que não converso, na dinâmica do silêncio, contigo, meu querido Pai.

Muitas são as vezes em que as prosas, os poemas, que leio e oiço, fazem brotar lágrimas que vão rolando pela face detendo-se na minha barba salpicada de argenta e em que ainda sobressaem uns resquícios do negro que elegi como a minha cor preferida.

Eu ainda aqui estou, procurando sobreviver, lutando sempre, vivendo a Vida que nunca tiveste a ousadia de Viver. O teu Filho mais novo, que te fazia sorrir, perante a tua postura de Homem simples mas vertical, a quem todos respeitosamente, mas de igual forma afável, saudavam e tu retribuías descobrindo a cabeça de que retiravas com a mão direita, o sempre aprumado chapéu de feltro.

Com a tua altura mediana e o fato e demais acessórios meticulosamente preparados pela nossa Carolina, a pasta com a papelada burocrática, bem segura numa das mãos, passavas por entre aquela gente lá do Bairro, olhando-os, mas sem os reconheceres, através das grossas lentes dos teus óculos.

De cliente em cliente. De uma repartição para outra. Eram dos momentos em que sentias preenchida uma parte da tua Vida. Os outros, eram aqueles em que o teu Filho rebelde te fazia Feliz. Dizendo-te piadas, metendo-se contigo. Muitas das vezes querias mostrar-te impávido às minhas adolescentes impertinências, mas não conseguias “desmanchavas-te a rir” e quantas vezes a Carolina dizia “tão maluco é o Pai como o Filho…”.

Até que um dia o teu filho foi encarcerado pelos abutres. Nos primeiros dois meses só vos via de 15 em 15 dias, quando abriam as duas portas de uma cela escura, com pouco mais de um metro de largura e de onde pendiam, presos por correntes, ao longo de uma das paredes, dois estreitos catres. Depois levavam-me para baixo onde um Pide ia passeando cadenciadamente, interpondo-se entre nós e as grades que nos separavam. Trinta, quarenta e cinco minutos? Sei que o tempo voava e que me levavam de volta para o “curro”, nome, que entre nós resistentes, dávamos àquela celas.

Foi um tempo de angústia para mim e para todos vós. No terceiro mês, mandaram-me para uma sala comum, junto com outros companheiros da Resistência. Lá de cima, por entre as grades, víamos a parte lateral da Sé Patriarcal. Pelo passeio que acompanhava o edifício passava gente, entre os quais turistas que se dirigiam ou regressavam, do, ou para o, Castelo de S. Jorge. Um jovem companheiro alentejano, então, berrava a plenos pulmões “nous sommes prisonniers politiques”.

Nesse terceiro mês, mais que uma vez por dia, para cima ou para baixo, lá andavas tu, com a tua pasta, olhando com a tua forte miopia atenuada pelas lentes grossas, mão servindo de pala, tentando descortinar a silhueta do teu Menino. Por vezes os GNR’s berravam: “toca a circular, não pare”! Claro que tu obedecias e creio que até os saudavas com um leve aceno de desculpas e a costumada “chapelada”. Quantas vezes terias feito esse mesmo percurso nos primeiros meses em que estive “encurralado”?

Depois foram mais três meses em Caxias. No mês seguinte à minha libertação, foi o meu casamento, ainda com vinte anos de idade. No ano seguinte, tropa, Mafra, Sacavém. Trem-Auto, Tomar e mais um mobilizado para guerra colonial. Lá estavam vocês, lá estavas tu, parco em palavras, mas com os olhos marejados de lágrimas, gerindo em silêncio a angústia comum a toda aquela gente que via partir os seus entes queridos com a incerteza de voltarem ali ao cais para vê-los retornar com Vida.

Fui dos que tive a sorte de regressar, são e salvo. A Mira fez-me a surpresa de já ter uma casa alugada só para nós. Não muito longe do “ninho” em que vivi convosco, mesmo alguns meses após o meu casamento. Arranjavas sempre pretexto para passar lá por casa. A Mira apaparicava-te. Café com leite, o pão com queijo que tanto apreciavas ou não fosses tu um Alentejano do Alto.

Quando aos fins-de-semana juntávamos as famílias eram momentos muito agradáveis para todos. Tu querias ir sempre no meu carro. Eu e a Mira nunca te deixávamos em paz. Era uma festa todo o caminho. Lembras-te daquela vez no Portinho da Arrábida? Bebes-te um copito a mais e tu, sempre um Senhor de ar respeitável abandonas-te os formalismos e toca de tentar trepar a uma árvore!

E os anos foram rolando e a aterosclerose foi invadindo precocemente o teu Corpo. Ainda saboreaste a nossa alegria dos cravos vermelhos que nunca deixámos murchar. Ainda conheces-te a casa nova que adquirimos em Carnaxide, para pagar em 25 anos. Vinte e cinco, o número de Abril! Já pouco te apercebeste da minha raiva por ver a Revolução enredar-se por rotas ínvias.

Dois anos depois dos cravos, ainda caminhavas com a tua pasta plena daquela papelada burocrática. Até que em Junho, ao desceres do segundo andar, o teu Sistema Nervoso Central não aguentou mais. Rolaste pelos degraus até ao primeiro andar. As vizinhas, daquele Bairro popular, sempre solidárias, pegaram no teu Corpo com Vida, mas sem vitalidade e levaram-te para o teu quarto.

Foram nove meses de angústia para nós. Em que passaste por um Lar situado numa zona nobre da Cidade. Uma ou duas semanas. Um palacete, transformado em deposito de Seres que esperavam ser chamados para o outro Lado. Gerido por gente sem escrúpulos. Um dia, até formigas passeavam pela tua face e tu, quase completamente inerte, como se não as sentisses. Tiramos-te daquele local grotesco. Regressas-te à tua Casa e nós combinámos revezarmo-nos para cuidar de Ti.

Nove meses em que o teu Corpo ia definhando, sem um lamento saído da tua boca. A cabeça aproximando-se progressivamente dos teus joelhos dobrados. Quando a Mira e a Mãe te lavavam, por vezes soltavas um ténue ai. De resto, poucas palavras pronunciavas, limitando-as a monossílabos que carinhosamente te obrigávamos a verter.

Quase nos finais de Janeiro partis-te, o teu Corpo inerte pôde finalmente endireitar-se para assumir uma postura condigna dentro da caixa de madeira em que te colocaram. Finalmente libertaste-te de uma Vida que nunca te apaixonou e pela qual foste passando.

O António, o teu Filho mais velho, também está a passar por momentos dramáticos. De ti herdou os genes da passividade perante a Luta. Mas sei que te consola saberes que este teu Filho irreverente estará sempre presente para obrigar o Irmão a Lutar e que enquanto puder não o deixará afundar-se.

Geneticamente devo-te a postura fraterna, solidária e de honra, transmitidas mais pela tua praxis, do que pelas poucas palavras que pronunciavas. Da Mãe, tua Companheira, a Abelha-mestra do nosso Lar, herdei a Coragem, a Ousadia, a Força, enfim, a determinação para Viver, não passando só pela Vida.

Para ti meu Pai, meu Mestre de palavras mudas, mas de gestos muito Nobres, o Amor do Filho em cuja memória permanecerás silenciosamente para Sempre!

Querido Julinho, até um Dia…

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Este texto simples no estilo mas belo merece mais comentários, ou poucos, mas sérios...relata sem dúvida a dor que se exprime por quem mereceu a vida.
há mais gente assim...
 
Amigo Fernando. Recordar, sentir, querer, neste verdadeiro poema de vida. Um abraço.
 
Comovi-me imenso, Fernando, também eu recordo o meu pai todos os dias. Dá força ao teu irmão.
Um beijo grande.
 
Companheiro Fernando,
Gostoso saber que "AS ÀRVORES MORREM DE PÉ". Minhas lágrimas revêm-se nos mesmos dias e rolam quentes pelo meu rosto. Companheiro estou contigo, estou convosco. Abraço bem forte. "A LUTA CONTINUA", "A VIDA CONTINUA" muita FORÇA SEMPRE...
 
"Podem cortar meu corpo às chicotadas/podem calar meu grito enrouquecido/que p'ra viver de alma ajoelhada/vale bem mais morrer de rosto erguido"... Bem hajam a todos os resistentes...
 
Teu texto é comovedor, amigo Fernando... Custa-me segurar as lágrimas, pois a mim meu pai também faz imensa falta e foi imensamente difícil aprender a conviver com esta dor... Nao me restou outra!
Muitos beijinhos!
 
Fiquei emocionada ao ler este texto. Ainda tenho pai e espero que por muitos mais anos, pois não sei como irei reagir a essa dor a essa perda.
Beijinho e Boa Páscoa amigo.
 
Feliz Páscoa com muitas amêndoas!
:)**
 
ontem falámos de si lá na feira da amadora. a Carolina (das Idiotices) tava falando dos avós dela e disse que quem ela também considerava avós era o Fernando e asua esposa:) ela gosta muito de si, senti isso ao ouvi-la. lembrei-me disso agora que vim aqui ao seu blog dar uma voltinha e ler esse texto sobre o seu pai.

beijinho grande
 
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