Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, março 08, 2005

A Última Batalha


Oito de Março de mil novecentos e noventa e oito.

Último dia, o décimo, de uma participação minha, integrada numa feira de Artesanato, onde eu expunha umas peças em “pewter” que importava do Reino Unido. Lendas Arturianas, do Tolkien, Dragões, Unicórnios, Pegasus, enfim todo um mundo magico, o meu.

Tinha acabado de almoçar e preparava-me para o último dia daquela etapa de Vendedor de Sonhos. Toca o telefone. Era do Lar onde a minha Mãe se auto-internou. “Como sabe a sua Mãe nestes últimos dias não se tem sentido muito bem. Hoje queixou-se de umas dores no peito e de dificuldades respiratórias, chamámos o 112 e seguiu para o Hospital de S. José”.

A minha Filha foi fazer o fecho de Exposição. E eu segui imediatamente para o Hospital com a minha mulher. Depois das primeiras informações que obtivemos, não nos permitindo, como é habitual, a nossa presença nos Cuidados Intensivos, telefonei para o meu Irmão, o único, mais velho que eu 12 anos, colocando-o ao corrente da situação, mas dizendo-lhe que não se deslocasse, que nós dar-lhe-ia mos noticias do evoluir da situação.

Até às 17 horas foram-nos dizendo que a situação clínica da minha Mãe continuava estável. Cerca de meia hora depois, através da instalação sonora: “Familiares de Carolina…”, voltei-me para a minha mulher e disse-lhe, “acabou”. Dirigimo-nos para o médico de serviço, um jovem, que começou por dizer: “Como o senhor sabe a sua Mãe…” “Doutor, agradeço o seu cuidado, mas pode dizer-me já, acabou”? “Sim, cerca das 17,15h. Depois da entrada no serviço, estabilizou, estava muito bem disposta, conversou connosco até uns minutos antes do coração ter parado”.

A velha Carolina pregou-me a partida. Está bem, ela nos últimos dias andava um bocado em baixo, mas isso já tinha acontecido antes e ela, que tinha uma enorme força de viver, embora, eu desde miúdo a ouvisse queixar que “a Mãe é muito doente”. E eu dizia-lhe, nos últimos anos de Vida, “pois é, a Mãe sempre disse que era muito doente e está quase nos 90 faria se não fosse…” Ela amuava, mas passava-lhe. Conheceu duas Netas, Filhas dos Filhos, uma Bisneta e um Bisneto, Filhos das respectivas Netas. A Matriarca tinha noventa anos à data do seu falecimento, e a Bisneta já estava com 18. Por isso eu dizia para a minha Mãe, que Ela andava sempre a queixar-se das doenças, mas que passaria dos 100 e ainda haveria de conhecer um trineto.

E estava mesmo esperançado que assim fosse. Pois a minha Carolina, de porte altivo e de difícil trato, tal como uma “abelha-mestra” como eu lhe chamava, não parava. Sempre muito repentista, até ao fim, nas decisões. Aos oitenta e tal anos resolveu entregar a casa ao senhorio e hospedar-se no Lar que escolheu e só depois deu conta aos filhos. Antes tinha elaborado um documento, que levou ao Notário para ficar oficializado, declarando que desejava ser cremada. Não queria que o seu Corpo ficasse soterrado, pois tinha pavor de ser sepultada viva. Fez várias cópias desse documento e entregou-nos. Em casa tinha o original exposto em local bem visível. Quando se mudou para o Lar, procedeu do mesmo modo.

Tinha completado 90 anos em 19 de Outubro de 1997. Até praticamente essa data, ela não parava, saía do Lar para passear, participava nas Festas, mas não gostava de cantar em Coro. Sozinha, interpretava, o que sempre fez muito bem, o Fado. Ela sentia e cantava o Fado. E a sua entrega e maneira de cantar era tal, que mexia connosco interiormente, deixando-nos como que angustiados. Eu lembro-me que em miúdo chorava de comoção.

Cumprimos o desejo da minha Mãe e ainda outro que ela pediu à minha Mulher. Não queria coroas de flores, nem levar sapatos e assim partiu o seu Corpo, descalça, com umas rosas vermelhas por entre as mãos sem Vida. Dois dias depois de nos ter deixado, postadas em silêncio junto ao Crematório, algumas pessoas dizendo um último adeus àquela caixa de madeira contendo os restos daquela que foi a nossa Mãe. O meu Irmão estava um pouco afastado, como que petrificado. Junto da urna fiz um leve aceno de cabeça para os funcionários. Colocaram-na no tapete rolante. Começou a deslizar e ao passar a cortina ouviu-se um baque. O Fogo estava à espera.

Não foi Feliz. Mas também não foi Infeliz: Não passou pela Vida, procurou vive-la e partiu de cabeça erguida. Levou com Ela a angustia, que sempre a acompanhou, de não ter conhecido o Pai. Transportou até ao fim o estigma de “Filha de Pai incógnito”. O nosso Avô, sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, procedeu como milhares dos seus comparsas ao longo da História, cumpriu uma das que eles dizem ser uma determinação de Deus: “Crescei e multiplicai-vos”. Mas parece-me que esse Deus que sempre nos foi incutido, também falava no Espírito de Família.

Quando se viu confrontado com a presença de uma recém-nascida, a Sua Filha, ao invés de a tomar nos braços oferecendo-lhe Amor, fugiu. Tal como muitos dos seus confrades fizeram e ainda fazem, continuando hipocritamente a pregar pela defesa da Vida.

Neste dia 8 de Março, em que alguém decidiu consagrar à Mulher, presto aqui, perante vós, meus Amigos, a homenagem à memória da Minha Mãe e a todas as Mulheres que procuram sobreviver com dignidade, não obstante os escolhos que se lhes têm deparado e deparam, ao longo das suas Vidas.



Sugiro a leitura ou releitura de dois Poemas meus, relacionados com o conteúdo deste texto:

O Dito Senhor - Aristóteles e a minha Avó


Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Uma bonita e mais que merecida homenagem. Gostei imenso de ler este texto. Obrigada pela partilha deste pedaço da tua vida. Beijo
 
Fernando amigo!
Obrigada imenso por tuas lindas palavras deixadas no meu canto...
Recebe de mim um fraterno abraço e o desejo sincero de que tenhas um lindo fim de tarde e noite!
 
Amigo Fernando
Quem o lê até pode pensar que tudo isto é fácil. Até se permitirá, como eu, criar cenários maravilhosos para fases tão negras da vida.
Você encanta-nos, caro Fernando.
Bem haja e um abraço.
 
Lindíssima homenagem a quem bem a merece!
 
tao sentida essa homengaem... senti-a enquanto a lia. tao bonita. mesmo muito bonita.

beijo no coração
 
Estou tolhida de comoção. Meio paralisado o pensamento, os dedos tmb. Belíssima homenagem k a todos nos enriqueceu. Obrigada pela partilha. Bjs e :) para enfeitar as esquinas da vida:)
 
Fernanado gosto muito da maneira como escreve e dos temas que escolhe. Hoje superou-se a si próprio na lindíssima homenagem que faz à sua mãe. Compreendo muito bem os seus sentimentos de ternura por ela, pois felizmente ainda tenho a minha viva com 83 anos, e é um mulher, como foi a sua, de uma determinação do caraças. O seu assunto preferido é a política, e diga-se de passagem, que sabe argumentar e defender as suas ideias muito bem. O seu desporto favorito é ir jogar ao bingo, e tem cá uma sorte que só visto, farta-se de ganhar dinheiro, tendo uma vez ganho 1700 contos no acumulado. Vive sozinha e movimenta-se na vida optimamente. Na nossa idade, as nossas mães são mesmo as maiores heroinas. Ainda um dia nos havemos de conhecer pessoalmente.
Um abraço. Augusto
 
Um dia vi um caixão começar a desaparecer da mesma forma...
Ainda hoje a morte para mim tem os dois lados de uma moeda. Entendo-a mas por vezes não a aceito.
Tenho pânico de passar de novo pelo mesmo. E tento não pensar nisso.



Foi uma hoemnagem corajosa e muitíssimo bonita.

A.
 
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