Loreena McKennitt - Dante's Prayer

sábado, julho 31, 2004

Desenrascanço

Está o desenrascanço contido nos genes de todos nós lusitanos?. Veja com os seus próprios olhos como a Wikipedia nos define, clicando sobre a imagem:

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sexta-feira, julho 30, 2004

Liberdade, Igualdade e Fraternidade

A História ensina-nos que o Mundo é feito de avanços e recuos. Como sempre me recusei a ser indiferente ao que me rodeia, pretendo com esta modesta contribuição, aproveitar este espaço para lhe transmitir as minhas esperanças e angustias.

Se tiver paciência leia e comente. E já agora um apelo: Não use este meio de comunicação para outros fins que não sejam o de contribuir para a edificação de um Mundo condigno, não violando as consciências alheias e, já agora, recomendo-lhe cuidado com os muitos candidatos a Messias que conspurcam o Universo.

Agradeço a sua visita e deixo-lhe uma mensagem de esperança na LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE!.

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sábado, julho 24, 2004

Deuses e Demónios da Medicina

A propósito de dois comentários, insertos no meu texto Valsa nas Brumas, expressos por dois Amigos, um muito jovem e outro que por lá já passou, tal como eu, vou deixar aqui, especialmente para eles, algumas palavras, neste texto cujo titulo foi "plagiado" de uma obra do saudoso médico e escritor Fernando Namora (1919-1989).

Compreendo perfeitamente o vosso sentimento de revolta, porém, enquanto que no caso do primeiro Amigo, o Filipe, não se tratou, pelo que me analisei, de negligência ou de qualquer tipo de aproveitamento comercial, conforme a minha Amiga Fernanda escreveu a propósito da revolta deste Jovem, no caso do outro Amigo, segundo o seu relato, o que se passou, foram questões de leviandade, chamemos assim, e de exploração financeira, aproveitando a sua debilidade física, e consequente afectação psíquica decorrente da sua enfermidade.

Desde 1995, que iniciei a minha ronda hospitalar, como descrevi no citado texto. Desde essa data até ao passado ano, já lá voltei mais três vezes. Em 2002, por exemplo, dei entrada na urgência do Hospital, com problemas cardio respiratórios. Quando acabei de relatar os meus antecedentes clínicos à médica de serviço, deixei de respirar completamente. Pedi-lhe um ansiolitico, vi o pessoal da equipa a correr e desfaleci.

Como devem saber, por principio, o nosso cérebro, poderá aguentar, o máximo três minutos sem oxigenação. A partir desse período de tempo, isto de um modo geral, ou se verifica a morte cerebral ou o paciente poderá ficar com danos irreversíveis.

Pois bem meus Estimados Amigos, eu não sei ao certo quanto tempo estive sem oxigenação cerebral. Sei sim, que estive quase 48 horas ligado ao ventilador, findas as quais, regressei a este lado. Soube também posteriormente, que durante o período em que estive inconsciente, as minhas hipóteses, segundo os médicos, de sobreviver, seriam de cerca de 20%. E caso sobrevivesse, segundo o seu prognostico reservado, era bem possível que ficasse com danos irreversíveis.

Pois sobrevivi, graças ao grande espirito profissional de toda aquela gente heróica. Daí o meu eterno reconhecimento a todos eles: Médicos, Enfermeiros, Auxiliares de Acção Médica, etc., que não só nessas 48 horas dramáticas da minha vida, como nos outros períodos de internamento, merecem toda a minha gratidão.

Esses são os meus Deuses. Pessoas que não fazem do juramento Hipocratico, uma mera cerimónia de retórica. Os outros, tal como muita gente, que conhecemos ou ouvimos, falar são os tais Demónios, pessoas sem escrúpulos, para quem a ética é uma palavra maldita.

Termino, como o fiz na minha Valsa nas Brumas, com um Bem Hajam, a todos os excelentes profissionais que encontrei no Hospital de S. Francisco Xavier, em especial, para minha querida Amiga e médica assistente, Cardiologista, Dr.ª. Fátima Pina Cabral, o meu Anjo da Guarda, para quem a Medicina é um sacerdócio, em detrimento dos valores superficiais da Vida.

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sexta-feira, julho 23, 2004

Sociedade de Consumo

A sociedade de consumo
É um aborto
Mal parido
Anónimo
Ilimitado
Consomem-se parasitas
Putas e proxenetas
Consomem-se políticos
Burgueses e traidores
Consomem-se neutrões empacotados
E gringos empalhados
Consomem-se a trampa
O chicote, a fome
Consomem-se cadáveres
E sexo aos quadradinhos
Consomem-se consumidores
De capital consumido
Consomem-se as merdas enlatadas
Do capitalismo!


f.b.


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quinta-feira, julho 22, 2004

O Dito Senhor

O Dito Senhor
Foi um homem de Bem
Formado
Excomungou servos
Protegeu os doutores
Sentou-se à mesa
De respeitáveis senhores
Espalhou o coito
Por todo o lado
Botou sementes
Fome e gente
Fornicou, correu
Ficou contente
Da batina negra
Fez um colchão
Cumpriu a lei
Da multiplicação
Mas no dia que
O primeiro resultado
Lhe pediu pão
Benzeu-se e fugiu
Com a cruz do pecado
Da puta que o pariu
Dizendo em segredo
Ao fiel sacristão
Que partia para longe
Para pregar
O Principio do Criação...


f. b.

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segunda-feira, julho 19, 2004

Soeiro Pereira Gomes

Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Eça de Queiroz, Camilo, Maximo Gorki, André Kedros, John Steinbeck, Jorge Amado e tantos outros, foram, a par de Platão, Descartes, Bertrand Russel, etc., as minhas fiéis companhias e as minhas referências desde a adolescência. E, com as suas diferente ópticas de nos descreverem o Mundo, tiveram uma influência muito importante na minha forma de o percepcionar, continuando a manter, contudo, uma postura, de permanente aprendizagem, através do que eu costumo designar por: caminhos labirínticos da Vida.

Soeiro Pereira Gomes, nasceu em Gestaçô, concelho de Baião, a 14 de Abril de 1909. Viveu em Espinho dos 6 aos 10 anos de idade onde efectuou os estudos primários e onde passou os meses de verão dos primeiros anos da sua vida. A casa em que residiu em Espinho, existe ainda, apesar de passar totalmente despercebida da maioria dos curiosos, pois nada a assinala.

Fez o curso de Regente Agrícola em Coimbra, casou-se com a compositora Manuela Câncio Reis. Trabalhou em África, mas na altura em que publica a sua primeira, e única obra publicada em vida ("Esteiros" - 1941) era empregado administrativo de uma fábrica de cimentos em Alhandra.

A militância no Partido Comunista obrigou-o a viver na clandestinidade desde 1945. Morreu em 5 de Dezembro de 1949.

Foi no Baixo Alentejo industrial que criou a sua consciência social, em época de grandes mudanças, quando tardiamente, relativamente ao resto da Europa, as novas e grandes fábricas, iam criando uma nova e inadaptada classe social de operariado assalariado e fortemente dependente da oferta de emprego.

O tema da exploração da mão de obra, os problemas dos adolescentes e crianças desde cedo trabalhadores por acção da miséria e da exploração é o tema de "Esteiros":

"Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro".

Considerado uma das grandes obras do neo-realismo Português, "ESTEIROS" (1941), foi a única obra publicada em vida do autor. É hoje considerado um clássico maior daquela corrente literária, traduzido em várias línguas, entre elas o francês, alemão, italiano, checo, eslovaco, polaco e russo

O rompimento violento dos precários equilibrios económicos e sociais portugueses, pela instalação de unidades industriais ávidas de mão de obra, principalmente nas zonas agrícolas onde o choque entre as grandes explorações e a economia agrícola de subsistência era mais uma garantia de solidariedade social e auto-sustento das famílias, que uma marca de exploração é traduzido principalmente na sua segunda obra "Engrenagem".

"ENGRENAGEM", o seu segundo e ultimo romance, só publicado após a sua morte, e aparentemente inacabado, segundo a intenção expressa do autor de o vir a rever completamente, foi escrito em 1944.


Os Filhos dos Homens que nunca foram Meninos

Soeiro Pereira Gomes é um clássico da literatura portuguesa do século XX: «Esteiros», romance dedicado aos filhos dos homens que nunca foram meninos, é um romance que se insere no neo-realismo, porque através da sua fluente e colorida representação de uma sociedade provinciana classista, logra, sem qualquer aparência de pedagogia política e social, demonstrar os crimes das classes dominantes da época, e a brutalidade dos capatazes, meros instrumentos do poder económico dos grandes senhores. É um romance que nos retrata a vida de crianças indefesas, humilhadas, vencidas pela miséria e pela peste social, que a sociedade de então, dominada pelos castradores da liberdade e da dignidade humana, lhes oferecia.

Em vez da Escola, o trabalho precoce. A exploração infantil. O acesso à Educação era-lhes negado. Nessa época, anos 30-40, do século XX, Educação, no que se refere ao ensino básico, era um privilégio da pequena, média e da grande burguesia lusitana. Em relação ao Ensino universitário, o filtro era ainda maior. Muito poucos jovens da pequena burguesia citadina, tinham acesso às Universidades. Os jovens pequeno burgueses na sua maioria, ficavam-se pelo Ensino Primário, hoje designado de Básico, principalmente por questões económicas, começando a trabalhar com menos de 15 anos de idade. Muito poucos prosseguiam os seus estudos no Ensino Secundário: Liceus, Escolas Comerciais e Industriais, como então se designavam. Destes, muito menos ainda, ingressavam numa Universidade.

Esta situação registou alguma melhoria nos anos 60 do passado século. E foi só após a Revolução de Abril de 1974, que se criaram as condições necessárias para que os nossos jovens tivessem acesso ao Conhecimento, independentemente, do seu estrato social. Não desconhecendo os graves problemas que nos afectam, principalmente nestes últimos anos, pois apesar de continuarmos a ser uma sociedade livre, que garante na sua Constituição, o livre acesso ao Conhecimento, aos seu cidadãos, houve uma regressão bastante acentuada, devida principalmente, à submissão a interesses económicos multinacionais, de que resultaram o encerramento de muitas unidades industriais e comerciais, provocando de forma crescente, o número de desempregados e os dramas sociais subsequentes, reflectido-se assim, em relação aos jovens, num precoce abandono Escolar.

Também os jovens licenciados, se encontram na sua maioria, numa grande encruzilhada, pois não existem saídas profissionais para eles, por saturação e falta de mercado de trabalho. Daí as frustrações, as crises de auto-estima, as psicoses, etc.

Já me alonguei demasiado, num tema que poderia eventualmente desenvolver para a Cadeira de Sociologia. No entanto, considerei interessante fazer esta análise, a qual, parecendo deslocada num trabalho sobre o desenvolvimento cognitivo, entendo, que é fundamental levarmos em linha de conta todas as suas variáveis que lhe são inerentes . Estes últimos jovens que referi, vão ser os pais de amanhã e se nós aceitamos que no processo evolutivo de uma criança, pesam os factores inatos e os adquiridos, eu interrogo-me como serão os desempenhos das crianças nascidas de Pais, com graves conflitos internos e externos.

Infelizmente ainda existem na nossa sociedade muitos filhos dos homens que nunca foram meninos. Crianças abandonadas ou utilizadas na rua, por adultos, na mendicidade. E outras que conseguiram ser acolhidas por qualquer instituição caritativa ou de solidariedade social, que, para além de não terem o afecto parental, muitas deles ainda são atraídas por adultos sem escrúpulos e criminosos, para praticas, em que são feridas e humilhadas na sua dignidade, ficando assim, com marcas indeléveis para o resto das suas Vidas.

O que eu pretendo dizer, é que todos nós somos responsáveis por este estado de coisas. Por omissão voluntária ou por falta de empenhamento activo, na condução dos destinos da Humanidade. Quando frequentarmos, por exemplo, um curso de Psicologia ou Sociologia, não podemos escamotear estes problemas, sob pena de estarmos a fomentar uma sociedade elitista que só ouve os estados de angustia ou de crise existencial, de pessoas que têm possibilidade de o fazer, passando ao lado dos inocentes silenciosos, que, entregues a si próprios, pelas circunstâncias dramáticas com que iniciaram as suas Vidas, não conseguem fazer-se ouvir.

Contudo, não desconheço o trabalho meritório e heróico, levado a cabo, principalmente, por um punhado de jovens, animadores culturais, educadores, psicólogos, etc., como é o caso do jovem psicólogo que tive a oportunidade de entrevistar para um trabalho, para esta Cadeira, no qual, o questionei, fundamentalmente, sobre crianças e adolescentes, inseridos nos chamados grupos de risco.

Estes jovens "missionários", não esquecendo o empenhamento dos profissionais de outras faixa etárias, desenvolvem o seu trabalho, inventando "ovos para fazerem as omeletes possíveis". Trabalham por paixão, a maioria das vezes, sem a retaguarda necessária (leia-se Estado) para desenvolverem a sua missão. Aqui expresso a minha admiração e a minha fraternal saudação, pela sua gesta heróica.

Existem problemas em crianças e jovens de todos os grupos sociais. Mas na realidade, enquanto alguns, têm pais ou familiares para os apoiarem e custearem a sua educação e acompanhamento clinico, existem por esse Mundo fora, milhões de outras crianças e jovens, sem os necessários cuidados primários de sobrevivência e de um correcto desenvolvimento, utilizados pelos senhores da Humanidade como "carne para canhão" ou para satisfazerem necessidades das suas mentes devassadas.



Nota: Este texto foi inserido num trabalho intitulado Estádios de Desenvolvimento, destinado a uma das Cadeiras do Curso de Psicologia, que ando a frequentar.


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terça-feira, julho 13, 2004

Valsa nas Brumas

Dois de Julho de mil novecentos e noventa e cinco. Meio dia e cinco minutos. Levei o garfo à boca. De imediato, senti uma sensação estranha a invadir uma parte do meu Corpo. Do Cérebro até à ponta dos dedos da mão direita. Um suave formigueiro percorreu os meus lábios. Senti descair o inferior direito. Apercebi-me imediatamente do que é que estava a acontecer-me e voltei-me para a minha mulher, que estava de pé, olhando-a fixamente, para o confirmar. "Despeja a boca imediatamente!...". A dormência acentuava-se. Um sabor estranho que não identificava. As imagens sucediam-se em catadupa. Fragmentos da minha Vida eram projectados por entre as Brumas do meu Consciente. Pois é meu caro estavas a pedi-las, aconteceu. Os teus sonhos visionários esfumaram-se por entre as Brumas do teu Imaginário. Agora, está na altura de pagares a conta... e o meu Consciente, tal como um qualquer Delegado do Ministério Público continuava a deduzir o Auto de Pronuncia: E agora? Será que vais acompanhar o crescimento do teu primeiro Neto? André, seis meses... A minha Filha... A minha Mulher.. E agora?

Saí da cozinha e fui sentar-me num sofá do meu escritório. Ingeri um ansiolítico. A pouco e pouco a dormência da minha face lateral direita, desvaneceu-se. A boca retomou a sua forma normal.

Portugal, de Norte a Sul. Parte da Galiza. Profissão: Vendedor de Sonhos!. O Rei Artur e os Cavaleiros da Tavola Redonda, Guinevere, Merlin, Morgana, Dragões, Unicórnios, Pegasus, etc., todo um imaginário criado a partir dos meus ideais da adolescência: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE!

Pois é, mas ser Idealista e Comerciante simultaneamente é complicado. Todas essas figurinhas tinham de ser pagas atempadamente e para não atrasarmos compromissos assumidos, então, vá de solicitar o apoio do Banco. E a Banca não tem qualquer linha de crédito especifica para Vendedores de Sonhos. Nem se compadece com os acidentes de percurso. E este Visionário, digeria em silêncio, a introspecção dos problemas inerentes à Utopia dos caminhos percorridos, sempre em frente, sem cuidar que, "sob o manto diáfano da fantasia" mais tarde ou mais cedo, somos confrontados com "a nudez crua da Verdade"

Decidiram levar-me para o Hospital de S. Francisco Xavier. Em menos de 10 minutos estávamos lá. Entretanto, durante o caminho, ainda não eram passadas duas horas do primeiro Aviso, as Brumas da Dormência envolveram-me de novo. A boca voltou a descair para o lado direito, uma leve impressão no braço do mesmo lado, o balbuciar de algumas palavras como um estranho sabor. Como que o resultado de uma anestesia local, que nos é ministrada quando sentados numa cadeira inclinada de um consultório de um Estomatologista e deixamos de sentir os nossos lábios, sendo simultaneamente invadidos pelo sabor desagradável do anestésico ministrado.

Entrada no SO. Primeiro exame efectuado pela equipa de serviço, para um diagnostico sumário. De hipotenso, passei a hipertenso. A minha pressão arterial tinha disparado assustadoramente. A sentença primaria: Doente 52 anos, sexo masculino, raça caucasiana... Acidente Vascular Cerebral. Sequelas? Só se chegará a uma conclusão, após os exames iniciais e a evolução nas 24 horas seguintes.

Acabou-se o pudor. Despiram-me. Fiquei despojado da minha roupa, óculos e relógio. Enfiaram-me uma bata azul hospitalar que me cobria a parte da frente e me deixava a descoberto uma parte razoável das costas, rabo e adjacentes... Deitado, ouvindo as circunstanciais palavras reconfortantes proferidas pelos humanos e eficientes membros da equipa, segui o percurso iniciático da Ordem Hospitalar.

Primeira picadinha para recolha de sangue para analise. Primeira Tomografia Axial Computorizada, vulgo TAC. Admirável e estranho Mundo Novo! Fui introduzido numa estranha e complexa maquina. Sentia-me como que uma personagem de um filme de ficção cientifica. Actor, no papel principal. Enquanto eu ia observando aquela imensidão de luzinhas sobre a minha cabeça, quais estrelas cintilando no espaço celeste, o meu corpo era deslocado horizontal e progressivamente, para a frente e para trás. Era a Variável Dependente, da qual eram recolhidas preciosas informações acerca do meu Sistema Nervoso Central, para memória futura.

O passo seguinte foi a transferencia para a Unidade de Cuidados Intensivos - UCI, já com o respectivo soro e adjacentes, a penetram-me as veias. Se bem me recordo, estavam lá mais uns dois ou três doentes. Eu fiquei logo à entrada, junto da casa de banho. Ouvia vozes de pessoas, das quais não conseguia distinguir os rostos, por me terem privado dos meus óculos, mas que vim posteriormente a constatar que eram dos Enfermeiros e Auxiliares de Acção Médica. Rodas das macas e das camas deslizando pelos corredores esventrando as salas do seu destino. Fim de turno. F.... doente da cama 1, deu entrada às ...horas, em principio trata-se de um AVC sem sequelas graves; o doente está a reagir favoravelmente... Com respeito ao meu companheiro mais próximo... O doente, senhor Francisco.... trata-se de um caso social, não tem família próxima para o apoiar... É casado com uma senhora de Gibraltar..., O doente da cama... blá, blá, blá,... Após a formalidade da passagem de testemunho, os Enfermeiros do turno anterior e os do seguinte, assumiram uma postura descontraída lançando algumas picardias uns aos outros. Comecei a descontrair-me da minha tensão inicial e ainda me diverti com as piadas que ouvia...

Dormi algumas horas. Pela manhã, uma Auxiliar de Acção Médica, veio perguntar-me se me encontrava em condições de tomar um banho e se necessitava que me ajuda-se. Agradeci e respondi que em principio iria desenvencilhar-me sozinho. Disse-me que na UCI não havia toalhas e que teria de me limpar a um lençol. Levantei-me cuidadosamente, começando a aprender a transportar o suporte do soro e lá dei uns passos até à casa de banho que estava ali ao lado. Pendurei a embalagem do soro no varão da cortina da banheira e com o braço que estava livre comecei a ensaboar-me. Terminei o meu primeiro banho hospitalar sem problemas. Habituei-me ao contacto desconfortável de um lençol, substituto da suavidade de um turco, para me enxugar. Com os movimentos efectuados desloquei a agulha do soro, mas tudo bem, o senhor Enfermeiro tratou imediatamente de resolver a situação.

Primeira visita da equipa médica de serviço, com os dados disponíveis para cada doente. Daí a pouco chegou a minha Mulher, ar aparentemente calmo e olhar perscrutador: "Então como é que te sentes?" Com sorte. Podia ser pior. À parte a minha boca inclinada, que me imprimia um ar patético e a minha perplexidade perante tudo o que me tinha acontecido, durante as quase 24 horas anteriores, estava calmo, com confiança e esperança de que iria dar a volta por cima. Com a voz balbuciante, pronunciei algumas palavras de ânimo para a sossegar, pois sabia que a sua aparente calma, era tão e somente, isso mesmo. E despedimo-nos com o conforto possível de uma previsível nova etapa para a nossa Vida.

Já com os meus óculos, que a minha mulher tinha trazido, comecei a descobrir o conjunto de máquinas e seres humanos à minha volta. Os meus olhos pousaram na cama mais próxima. Os contornos de alguém. Homem?, Mulher?. Sob a brancura de um lençol, esse Ser começou a despertar a minha atenção. Estava deitado lateralmente, parecia-me que quase juntava a cabeça com os pés. Um corpo frágil, que quase se confundia com as roupas que o cobriam. De vez em quando soltava um vagido muito ténue de dor e conformismo. "Olá senhor Francisco vamos mudar-lhe a fralda, está bem?". "Muito obrigado, desculpe, desculpe sim?". "Senhor Francisco, não esteja sempre a pedir desculpa. Nós estamos cá é para isto...". "Obrigado, muito obrigado, desculpe, desculpe". Era um caso Social. Um Homem sozinho no Inverno e no Labirinto da Vida. Ainda consegui dirigir-lhe algumas palavras Fraternas, quando o voltavam na minha direcção e os seus olhos vazios cruzavam os meus. Ainda ouvi os Enfermeiros comentarem a eventualidade da transferência do Senhor Francisco para um Lar. "Senhor Francisco, sente-se em condições de se levantar?". "Sim senhor, sim senhor, obrigado, obrigado, desculpe, desculpe sim?". "Vamos lá experimentar dar uns passinhos". Suavemente, o enfermeiro ajudou-o a erguer-se da cama. Tronco nu. Só com uma fralda a preservar o pudor daquele Corpo e a recolher a sua incontinência. Recordei as imagens registadas na Segunda Guerra Mundial, nos campos de concentração nazis, corpos despojados de carne, permaneciam estáticos, olhos inexpressivos à espera da Morte. "Vamos Senhor Francisco...". Aquele Corpo executava uma dança patética, agarrado pelo Enfermeiro, todo curvado, tocando o solo com as pontas dos dedos dos pés, qual Valsa Macabra, no Inferno de Dante.

Terça-feira, dia quatro. Já tinha ultrapassado o período critico. "Doente com um Quadro Clinico estável. Evoluindo favoravelmente...". Passadas mais de 48 horas, após um almoço não ingerido, fui enviado para a Unidade de Medicina. Até um Dia Senhor Francisco...

Não fossem a diversidade de batas brancas, verdes, azuis, rosa e aquela multiplicidade de aparelhos, eu diria que tinha sido levado para um Hotel, com quartos de quatro ou cinco camas. Quartos unisexo para perplexidade e por vezes alguma indignação de um ou outro visitante, mais preocupados com sentimentos primários de pudor do que com a qualidade da assistência prestada aos seus familiares e amigos.

Atribuíram-me a cama junto à janela. A única que estava vaga naquele quarto. Ao meu lado um homem alentejano. Seguia-se uma senhora, igualmente transferida para o Serviço de Medicina naquele dia, e, finamente, junto à porta, outro homem, Lisboeta como eu, oriundo de um Bairro popular com tradições proletárias.

Chegou a hora das visitas. O marido da Senhora, proferiu algumas palavras de indignação por a sua esposa estar para ali entre três homens... Tentei acalma-lo, com o atabalhoado das palavras que me saíam, dizendo-lhe, que todos estávamos ali para nos tratar e não para nos preocuparmos com o sexo dos nossos companheiros de quarto. Lá sossegou, embora não convencido com os meus argumentos. Do lado oposto ao meu, junto à porta, o companheiro lisboeta recebia a visita do filho, que paciente e carinhosamente, com as mãos que denotavam uma profissão não administrativa, o barbeava e lhe dirigia suaves palavras reconfortantes. Quanto ao meu parceiro do lado, embrenhado num sono delirante, com algumas pausas de lucidez, raramente tinha visitas. "Ó Maneli... anda cá Maneli...". "Então senhor Joaquim, veja se acalma. Não vê que está a incomodar o descanso dos outros doentes?". O Joaquim, olhava para o Enfermeiro ou Enfermeira, com os olhos esbugalhados, respondendo com frases desconexas. Tinha pausas no seu Universo delirante e nesses lapsos de tempo, levantava-se, ia à casa de banho e falava normalmente.

Como me sobrava tempo para dormir, à noite, não tinha sono e como tal, para me ajudar a passar as horas, arranjei um passatempo algo macabro. A janela do quarto dava para um pátio, onde se via a casa mortuária, e um túnel que dava acesso à morgue lá do Hotel. Então, o meu entretenimento, era observar e contar, o numero de corpos transportados nos carrinhos, num esquife, que fazia lembrar uma manteigueira metálica gigante...

Aprendemos a conviver com a Morte e muitas coisas mais. Sentimos a precariedade da nossa passagem pela Terra. Nada irá ser como dantes. As nossas motivações, comportamentos, sensibilidades, etc., sofrerão profundas alterações. Para o Bem e para o Mal.

Uns dez dias depois da minha entrada, deram-me alta, com as devidas prescrições e futuras consultas regulares de Cardiologia. Concluí assim o Primeiro Grau Iniciático Hospitalar. Desde esse Julho de 1995, até agora, fiz mais três estadias nesse Hotel da minha inteira confiança.

Independentemente da hierarquia ou natureza dos cargos que ocupam, a minha eterna admiração e gratidão a essa Gente Heróica, que faz os possíveis e impossíveis para nos devolver à Vida.

Ao mesmo tempo que tomei consciência das minhas fragilidades, apurei a minha Sensibilidade, Emotividade e Comportamento. Faço por conviver o melhor possível com as adversidades que se me deparam. Sei que não é fácil. São muitas as vezes que me sinto acossado pelas armadilhas da Vida. Escuridão labiríntica que me dificulta a Saída. Mas acabo por a encontrar.

Os Sonhos continuam. Serenos e simultaneamente vigorosos como a volúpia de uma dança valquirica. Uma eterna Valsa nas Brumas da Vida.




Nota: Este texto foi inserido num trabalho intitulado Acidente Vascular Cerebral, suas causas e sequelas no funcionamento do Sistema Nervoso Central, destinado a uma das Cadeiras do Curso de Psicologia, que ando a frequentar.


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