Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, dezembro 20, 2004

O Milagre de Ann Sullivan

O Mundo nas Mãos

A vida de Helen Adams Keller nascida em 27 de Junho de 1880 em Tuscumbia, Alabama, descendente de uma família tradicional do Sul dos Estados Unidos, filha do Capitão Arthur Keller, Prefeito de Alabama do Norte em 1885, é a história de uma criança que aos dezoito meses de idade ficou cega e surda subitamente, devido a uma doença que foi diagnosticada naquela época como febre cerebral, sendo provável que tenha sido escarlatina, e da sua luta árdua e vitoriosa para se integrar na sociedade, tornando-se além de célebre escritora, filosofa e conferencista, uma personagem famosa pelo trabalho incessante que desenvolveu para o bem estar das pessoas portadoras de deficiências.

Helen Keller não completara ainda 2 anos de idade quando foi atingida por uma doença que a deixou cega e surda para toda a vida. Durante alguns anos, ela foi, segundo as suas próprias palavras, "selvagem e indisciplinada", expressando-se com violência.

Quando Helen não tinha ainda completado sete anos de idade, mais precisamente no dia 3 de Março de 1887, por indicação de ALEXANDER GRAHAM BELL, ANN SULLIVAN, uma professora de vinte e um anos, que tinha estudado na Escola Perkins para Cegos (Perkins School for the Blind), pois ela própria, quando criança tinha sido cega, mas recuperou a visão através de nove operações, foi morar para casa dos Keller com a missão de ajudar e ensinar Helen. Ann faleceu em 1936.

Utilizando o sentido do tacto como elo de ligação entre os mundos de ambas e escrevendo as palavras na mão da pupila, Ann tentou insistentemente dar a entender a Helen a relação entre as palavras e aquilo que elas significam.

Não foi uma tarefa fácil. As tentativas de interacção de Ann com Helen, foram terrivelmente dramáticas. E a postura conservadora e intolerante dos Keller para com a preceptora da filha, também não ajudaram e Ann chegou mesmo a pensar em desistir. Ann conseguiu que os Keller mudassem a sua atitude, propondo-lhes prosseguir com os seus próprios métodos de ensino.

Como três das funções perceptivas de Helen - visão, audição e fala - não funcionavam, o seu mundo externo não tinha qualquer significado. Manifestava reacções de violência comportamental e descoordenação motora.

O único contacto que Helen tinha com o mundo exterior era através do tacto, do paladar e do olfacto. Foi através destes três sentidos perceptivos, que Ann, com muita determinação e paciência, tentou transmitir a Helen a figuração e o comportamento socialmente correcto do e para o mundo exterior. E a sua gesta heróica haveria de dar os seus fruto.

O ponto de viragem deu-se com a palavra "água": enquanto a água de uma bica jorrava sobre uma das mãos da sua aluna, Ann Sullivan escrevia "água" na outra. "Mantive-me quieta, toda a minha atenção estava concentrada sobre o movimento dos seus dedos", recorda Helen. "Subitamente, senti a emoção de uma ideia que se repetia - e assim me foi revelado o mistério da linguagem." desde esse dia, Helen "viu" o mundo de outra maneira. O sentido do tacto tornou-se para ela uma espécie de visão: "Às vezes, é como se a própria essência da minha carne fosse uma miríade de olhos a ver... Não posso dizer se vemos melhor com as mãos ou com os olhos: sei apenas que o mundo que vejo com as minhas mãos é vivo, colorido e gratificante."

Helen descobriu maneiras engenhosas de sentir as imagens e os sons: "por vezes, se tiver sorte, coloco suavemente a mão numa pequena árvore e sinto o feliz estremecer de um passarinho que canta". e por meio do tacto, ela conseguia "detectar o riso, a tristeza e muitas outras emoções obvias. Conheço as minhas amigas só por tocar-lhes as faces".

Helen Keller, sentia que o silêncio e a escuridão em que vivia, lhe tinham aberto a porta para um mundo de sensações de que as pessoas mais "afortunadas" nunca se apercebem: "com os meus três guias fieis, o tacto, o olfacto e o paladar, faço muitas excursões ás zonas limites da cidade da luz".

O Silêncio dos Inocentes

Conheço esta historia da vida real, há mais de quarenta anos, quando a vi pela primeira vez levada à cena em Lisboa, não estou certo se no cinema Tivoli, ou no Teatro Avenida. Das duas principais personagens, uma, a figura de Ann Sullivan, tenho a certeza absoluta que foi interpretada por Eunice Muñoz, quanto à de Helen Keller, penso que foi a Guida Maria que lhe deu forma. De qualquer modo, considero estes pormenores de somenos importância. Lembro-me que estas duas actrizes tiveram uma interpretação magistral, impregnando uma carga dramática e emocional que nos tocava de forma comovente e nos questionava acerca dos valores mais importantes da Vida. Mais recentemente, assisti, mais do que uma vez à projecção de um filme dedicado a esta história.

A propósito de Helen Keller e de Ann Sullivan, tenho-me questionado a mim próprio, porque razão, os livros de Psicologia, pelo menos daqueles que conheço ou que possuo, não referem este e outros casos similares.

O Silêncio dos Inocentes, daqueles que, por razões de ordem biológica se viram privados de percepcionar o mundo que os envolve, merece da nossa parte e em particular das diversas áreas da Ciência, que lhes votemos toda a atenção e fraternidade, a que esses nossos Irmãos têm direito.

Helen Keller, uma mulher extraordinária, cega, surda e muda desde bebé, chama-nos a atenção para a apreciação dos nossos sentidos, algo a que normalmente não damos valor. Apenas de posse dos sentidos do tacto, olfacto e do paladar, e uma perseverança inigualável, sob a orientação de Ann Sullivan, Helen pôde aprender a ler e escrever pelo método Braille, chegando mesmo a falar, por imitação das vibrações da garganta da sua preceptora, as quais captava com as pontas dos dedos. O esforço da sua mente em procurar comunicar-se com o exterior teve como resultado o emergir de uma inteligência excepcional, considerada a maior vitória individual da história da educação. Ela foi uma educadora, escritora e advogada de cegos. Tinha muita ambição e grande poder de realização. Ao lado de Ann, percorreu vários países do mundo promovendo campanhas para melhorar a situação dos deficientes visuais e auditivos. É considerada uma das grandes heroínas do mundo. Helen Keller alterou a nossa percepção do deficiente.



"A Ciência poderá ter achado a
cura para a maioria dos males,
mas não achou ainda remédio
para o pior de todos: a apatia
dos seres humanos"

"As coisas melhores e mais
belas do mundo não podem ser
vistas nem tocadas. Elas têm
que ser sentidas com o coração"


Helen Keller


Nota: Este texto foi inserido num trabalho intitulado A Percepção, destinado a uma das Cadeiras do Curso de Psicologia, que ando a frequentar, numa Universidade Sénior.

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
"Não posso dizer se vemos melhor com as mãos ou com os olhos: sei apenas que o mundo que vejo com as minhas mãos é vivo, colorido e gratificante."

Esta frase é maravilhosa. Obrigada por partilhar connosco (os leitores e amigos) estes conhecimentos e estas palavras de humanismo, que tanta falta têm feito ao Homem.

:)

Soraia Simao
 
É uma história fantasticamente sensível.. adorei poder ler cada palavra aqui transformada em estímulo e beleza!

"As coisas melhores e mais
belas do mundo não podem ser
vistas nem tocadas. Elas têm
que ser sentidas com o coração"

belo!!! beijos mesmo muito grandes desta lado do mar..
 
Olá...cruzámo-nos e...a conchinha anilada veio de novo dar uma espreitadela...
Sim, conheço também a "história" ...e tens razão em tudo quanto dizes. Este é um post excepcional pela grande lição de vida que nos dá.
Obrigada...
Um abençoado Natal na presença de todos quantos amas. BShell
 
OLá Fernando, óptima ideia em voltar a publicar este texto sobre a história de Helen Keller e Ann Sullivan, no momento em que a humanidade, pelo menos a cristã, apela a solidariedade e à fraternidade. A vivência das duas é uma das mais belas páginas do livro da história humana.
Desejo-lhe um Bom Natal para si a para a sua família, fazendo votos para que o Novo Ano lhe traga tudo de bom.
Um grande abraço. Augusto
 
Amigo Fernando! Hoje meu filho faz 22 anos. Por isso e porque ele já poderia não estar entre nós, mas está e de boa saúde, estou muito feliz. Este artigo é refletido num filme inesquecível. MUITO BOM. Deixo aqui »»» BOAS FESTAS!... Para si todo o meu carinho, contido num POEMA feito por mim e de que deixo o final.
" Vamos Natal partilhar Abrindo o meu e teu coração, Feliz Natal, com paixão !… Sempre que alguém o fizer, todos os dias do ano, quando nasce uma criança, quando o amor é perdão. Feliz Natal com paixão !... "
Um grande abraço fraterno e 1BICA escaldada, com coscorão.
 
A verdade desta narração devia ser um exemplo para todos.
Há muitíssimos anos vi também o filme...
 
Um Natal feliz para ti, com muita paz e amor, junto das pessoas que mais amas. Um ano novo próspero , se possível melhor do que este. Um agradecimento por este ano de convívio bloguista.
Um Beijo
 
Magníco texto, Fernando. O humanismo e a compreensão dos "detalhes" que raramente são vistos pela maioria de quem os cerca estão bem patentes nas tuas palavras.
Tens A Percepção à flor da pele.

Um abraço.
 
Passo só para te desejar um Feliz Natal.
Um grande abraço.
 
Há uns bons anos li um livro sobre Helen Keller que foi o meu primeiro contacto com a sua história de vida e que me despertou para a importância dos sentidos, assunto em que nunca perdera muito tempo. Obrigada por mo recordares.
Apenas uma nota: se bem entendi, no quinto parágrafo querias dizer "conseguiu que os Keller mudassem a sua atitude"...?
 
Acho que tudo está dito no poema...
Mas é de facto um grande ensinamento para a vida, este magnifico texto!

Bom Natal
Andy
 
Feliz Natal! Que seja passado com muito Alegria junto aos que te são mais queridos! :)** (Achei o máximo a coincidência dos "arco-íris bizarros" e o outro Bizarro! )
 
Uma grande lição de vida que daqui levamos! Excelente post.
Um Natal pleno de Amor e de Paz para ti e para todos os teus. Beijinho
 
Fernando
Vim aqui para te desejar um grande Natal na companhia de todos e obrigado por tudo.
Para a semana cá nos encontramos.
 
Passei por cá para desejar um Feliz Natal e que este ano venha no sapatinho tudo o que desejar, saúde, paz e muito amor. E muito esperança que dias melhores virão.
Beijos Grandes
Ofeliazinha
 
Abraço fraterno meu querido amigo, tudo de Bom no sapatinho...
Um beijito da Ys
 
Uma amizade recente, a nossa, mas já cimentada pela sua enorme sensibilidade. Obrigada, Fernando. Votos de um Feliz Natal na companhia de quem mais ama. um beijinho
 
Olá Fernando;
passei para te desejar Um Bom E FELIZ NATAL e fazer votos para quem em 2005 alcances tudo o que desejas.
Um beijo da Mar Revolto
 
É com enorme alegria que me vejo aqui linkada desta forma. Obrigada Fernando.
Não sei fazer estes bonitos, mas o Fraternidades, lá no meu canto vai ficar lindamente.
Outro beijo
 
Venho desejar-te um Feliz Natal na companhia de todos os que amas. :-))
 
texto muito apropriado...


bom Natal e saúde !!
cuidado com os fritos
 
Eu acho admiravel a força interior que revelas ao evoluir constantemente na tua vida. Isso acima de tudo reflecte-se na tua escrita...

Sabes... o teu blog é como um baú misterioso, sempre recheado de ensinamentos valiosos...

um grande abraço
 
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