Loreena McKennitt - Dante's Prayer

sábado, outubro 02, 2004

Primeiro Amor - parte V (conclusão)

Suzete foi lá passar o dia. A Neta dos meus Tios, assim como a Filha mais nova destes, eram muito brincalhonas, "gozonas", que gostavam muito de pregar partidas. A Tia era uns anos mais velha do que a Sobrinha. Estas minhas Primas tinham uma grande cumplicidade. Apresentaram-me a "lourinha" e incentivaram-me a pedir-lhe namoro...

E o Menino da Capital, superprotegido pela sua Mãe, que lhe contava aquelas histórias de encantamentos, com finais felizes e que tinha, além de alguns Amigos, poucos, miúdos da mesma idade, uma Amiga, a Miká (nome fictício) do prédio do lado, na Rua da Adiça, dois anos mais nova, com quem brincava e considerava sua namorada, sem contudo, Miká lhe provocar qualquer sentimento de fascínio, talvez porque a proximidade e a habituação mutua assim o ditaram, ao deparar-se com Suzete, três ou quatro anos mais velha, talvez tenha experimentado as primeiras pulsões inocentes de atracção e fascinação, ficando extasiado a contempla-la.

Passados que foram aqueles primeiros momentos da "descoberta", comecei a entabular conversa com Ela. Demos largos passeios, pela Quinta, tomámos banhos juntos no tanque, continuámos depois de mãos dadas, pelo pomar, vinha, pinheiral e eucaliptal. Inebriado com o perfume emanado pelos seus olhos anilados, procurava cuidadosamente as palavras que lhe dirigia. Ela correspondia com uma expressão carinhosa e sedutora. Eu, estava completamente "apanhadinho". Trocámos juras de, Amor? Amizade? Qualquer coisa assim ou ambas entrelaçadas. Mas, pelo que me dizia respeito, algo etéreo, limitando a atracção carnal, ao brilho emanado por aqueles olhos, que eu penetrava, embalado por uma suave dança imaginária, estreitando nos meus braços uma Valquíria, que ao invés de aproveitar o meu corpo retalhado, me acompanhava por entre o delírio das Brumas dos meus Sonhos na procura do Paraíso do meu Imaginário.

Tal como começam, os Sonhos são lapsos de tempo diminutos. Momentos fugazes de Viagens do nosso Inconsciente, neste caso, por entre o pequeno Mundo de uma Criança erigido à medida exacta da sua Imaginação, fruto do inato, mas principalmente pela envolvência adquirida, que na minha opinião é decisiva, no seu processo de desenvolvimento e consequentemente na formação do seu caracter e desempenhos futuros perante o Mundo externo.

Os meus Sonhos, tal como aquele dia, rolaram céleres. Ao fim da tarde foi o regresso de Suzete a Setúbal. A angustia de uma despedida. Ela prometeu dar noticias. Nessa noite, sozinho no quarto, a musica emanada pelos grilos e pelas cigarras, quebrando o silêncio da noite no campo, acentuou mais a minha tristeza e desencanto. As lagrimas rolavam pela face, humedecendo o travesseiro. Soluçava em silêncio. Saboreava o amargo da perca da minha Deusa, por um dia.

Poucos dias depois os meus Pais foram buscar-me. As minhas Primas, matreiras, contaram-lhes divertidas que eu tinha arranjado uma namorada. Regressámos, a Lisboa, para o Bairro que me via crescer. Não conseguia esquece-la. Desabafei com a minha Mãe. Ela não gozou, pelo contrário, acarinhou-me, reconfortou-me, dizendo-me que eu ainda era um Menino e que quando crescesse haveria de encontrar alguém de quem gostasse. Mas o Mundo de uma Criança é isso mesmo. Embora reconfortado pelo Amor Maternal, Ela, continuava a povoar os meus Sonhos.
Passados poucos dias do meu regresso, recebia a minha primeira carta. Um envelope decorado com um par de bonecos, com dois corações entrelaçados. A carta estava decorada da mesma maneira. Era uma carta de Amor, com linguagem adulta, que eu devorei, povoando o meu Espirito de novas Ilusões. As minhas Primas tinham continuado aquela brincadeira de mau gosto, redigindo uma carta que Ela escreveu. Então a minha Mãe tomou uma atitude drástica. Contactou com as minhas Primas, dizendo-lhes para acabarem com a brincadeira. E a imagem da Suzete foi-se diluindo com o passar do tempo.

A minha Tia Ana, era Irmã do meu Pai. A minha Mãe também tinha uma Irmã, que vivia em Linda-a-Velha, curiosamente a freguesia vizinha de Carnaxide, para onde vim morar há vinte e oito anos atrás. E, coisas do destino, quando do casamento da Filha dessa minha Tia materna, vim a reencontrar a Suzete, como convidada. Já casada, tal como eu. Apesar deste reencontro ter sido há menos tempo, do que os factos relatados atrás, não me recordo como é que a reconheci. Lembro-me que, quando lhe dirigia a palavra, recordando-lhe quem eu era, deixando-a visivelmente incomodada, o marido, pressuroso abeirou-se de nós para saber do que se tratava. Expliquei-lhe quem era e a partir daí ignorei o casal. Pareceu-me que bem de Vida, em termos financeiros, claro. Ainda bem. Abomino pessoas ciumentas. O ciúme revela a insegurança e o caracter de um indivíduo. Que sejam muito felizes, que eu também o sou, com os valores morais que adquiri. E as situações descritas ao longo destes episódios, tiveram efeitos positivos na minha aprendizagem como Ser humano.

O ano passado, tive oportunidade de poupar ao meu Neto mais velho a idêntica situação de angústia. Numa das visitas semanais que fazemos à minha Sogra e aos meus cunhados, o André, então com oito anos, conheceu a Simara (nome fictício), três anos mais velha. Uma bonita pré adolescente. Morena, elegante, de cabelo negro. A História repetia-se.

Pediu um bocado de papel e escreveu "queres namorar comigo"? e quando a viu passar, entregou-lho. Passadas uma hora ou duas, a mãe da Simara, bateu à porta dos meus cunhados. A Filha tinha-lhe incumbido a missão da resposta. No mesmo papel, a miúda escreveu "não". Foi notória a expressão desencanto do meu Neto. Metemo-nos no automóvel para regressar a casa. No banco de trás, ele estava prostrado e com os olhos marejados de lagrimas. Durante os vinte minutos de caminho, conversámos com ele muito calmamente. O André tinha ainda aquela expressão de desencanto, mas aceitou as nossas palavra reconfortantes e conselhos adequados à sua idade. Um ou dois fins de semana seguintes, ainda pronunciou o nome dela, mas depois a imagem do seu deslumbramento, desvaneceu-se.

Para finalizar, quero expressar o quanto é importante respeitarmos os sentimentos de uma Criança, não brincando com eles, pelo contrario e de acordo com o seu desenvolvimento cognitivo, devemos apoia-las e aconselha-las, sem que isso signifique uma imposição de valores que elas deverão de forma natural, descobrir por si próprias. Só assim daremos a nossa quota parte para o aperfeiçoamento humano das nossa Crianças. Aquele estádio de desenvolvimento porque todos já passámos, mas que muitos já esqueceram.

Considero que este, foi um final Feliz. Não em relação ao meu Primeiro Amor. Onírico. Digerido pelo Compasso do Tempo, registado no arquivo da minha Memória. Mas pela lição colhida, que poderia ter sido negativa, mas que eu apreendi de forma positiva, para "memória futura"...

FIM

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Ai, estes amores da infância e da adolescência, que nos põem a sonhar acordados... Também os tive, embora já não me lembre do primeiro! ;)))
 
clap, clap, clap... (se me é permitido)
E mais não digo, porque já me fizeste voltar à Delita (nome fictício de quarenta anos atrás): a minha primeira paixão em terras minhotas.
Tive foi outro final: no dia a seguir apanhei o comboio para Lisboa a chorar todo o caminho. Não sei se de amor perdido ou por não ter pregado o olho nessa noite a pensar nela.
Um abraço, Fernando, e... obrigado.
 
Olá! Hoje venho aqui muito de fugida apenas para te deixar ** e te desejar um Bom fim de semana! Por questões profissionaistenho andado um pouco arredia mas parece que tudo está a voltar à normalidade nova de rotina nova! :) Passa bem...M.P.
 
realmente não devemos ler estes amores de ânimo leve. muitos anos depois ainda os lembramos com alguma ternura.
são eles provas máximas da inocência das crianças...
beijo doce

fairy_morgaine
www.ogritodosilencio.weblog.com.pt
 
Amores antigos, recentes. Isto é tudo um turbilhão de sentimentos. Mas valem sempre a pena pela aprendizagem que nos trazem adjacentes.

Oféliazinha
www.ofeliazinha.weblog.com.pt
 
Não diz o ditado "Não há amor como o primeiro"?? ... Gostei muito desta sequência de "posts" ... FIco à espera de mais.. **
 
Gosto de passar por aqui. Vou voltar...a proposito também moro em Carnaxide, há 25 anos
 
Essa descrição lírica nos envolve de uma forma magnífica. Não deve ser fim, e sim uma pausa.
;)
Cathy (bailardasletras)
 
realmente o primeiro amor é marcante e, muitas vezes, desvalorizado, menosprezado pelos adultos. uma criança apaixonada não é ridícula! é um ser humano cuja dimensão emocional está a gritar desenvolvimento.
 
Mas foi importante meu amigo, já que ficou registado.
E na verdade se aprendi algo em História, foi que ela se repete inexoravelmente.
Um conto belissimo e extremamente bem escrito.
Abraços de sincera amizade.
 
Fernandinho, disse que comentaria no final da história e aqui estou :)

Está lindo, lindo, lindo... a descrição de cada pormenor está magnífica...

Ao longo destes 5 episódios, sentia-me como uma personagem da história... parecia que estava a ler aqueles livros em que uma pessoa fica sempre na expectativa como continua...

O final está muito bonito... sem dúvida que, por vezes, o adulto, ao julgar-se superior, menospreza os sentimentos, as experiências das crianças... mas, cada vez mais me dou conta, que nós adultos (e 2º vários autores eu sou uma jovem adulta, fica no ar que etapa mais ambígua será esta...) temos muito para aprender com elas... elas são mágicas, são sinceras... um sorriso de uma coisinha tão pequenina enche de magia, de beleza tudo aquilo que a rodeia... quem não fica contagiado com o sorriso de um bebé?

Estás de parabéns por esta belíssima história e agradeço teres partilhado estas tuas experiencias... estamos sempre a aprender e desde que te conheço sinto-me mais enriquecida... agradeço-te todo o apoio e carinho que me tens dado.

Beijinhos grandes.
 
História muito bonita e muito bem escrita. Recheada de pormenores que permitem uma viagem no tempo.
Gostei também do texto sobre 5 de Outubro há 49 anos atrás, gostei de perceber o ambiente pela boca de quem o viveu.
Um grande Beijo, Fernando.
 
Caro Amigo,

Terminei a leitura da sua bucólica e singela narrativa, passada e sempre actual, no âmbito do amor.

Interessante como o tempo passa, as pessoas se transformam, as paisagens se alteram, mas os sentimentos se mantêm em nossa mente e coração, como um sonho vivo, vivido ou por viver...

Como a mente retém em memória presente, os rostos, os trajes, os sons, as cores, os odores e paladares... que surgindo em qualquer momento presente, nos fazem retroceder no tempo e viver novamente a experiência passada...
Como o coração guarda os registos quase palpáveis das grandes sensações e emoções... as tristezas, angústias, alegrias, alvoroços, sabores e dissabores vividos em cada etapa da Vida, e como é fácil reviver cada momento, quase senti-lo por inteiro, mesmo que passado...

Tudo isto nos faz pesar a importância de cada experiência, de cada minuto de Vida, agora Presente para de imediato ser Passado;
Faz-nos pensar na importância de albergar e gerar nobres sentimentos, gestos e pensamentos...
Faz-nos relembrar o quanto somos responsáveis, pelo Futuro, como construtores de Vida e da própria Vida...
Torna-nos conscientes do conteúdo de uma simples, mas complexa realidade... " Recordar é Viver..."

Obrigada Caro Amigo, por mais um "Despertar"...

Fraternamente,
G.
 
Ferando,
Faz-nos passear por estes tempos e terras e a sentir outra vez o que um dia todos nós já vivenciamos.. a primeira paixão.. está na sequencia divinamente bem escrito.
beijos mesmo muito grande deste outro lado do mar...
 
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