Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, outubro 05, 2004

5 de Outubro de 1955

Há 49 anos atrás, tinha eu 12 anos de idade e já fumava há dois... Mas isso é outra conversa, que relatarei, quando escrever algo sobre a minha entrada no então designado Ciclo Preparatório.

Era uma Quarta-feira, feriado Nacional, mantido a contragosto pelos senhores do chamado Estado Novo, de má memória.

Os meus Pais, tal como a maioria dos Pais portugueses de então, não "ligavam" à política. Ou para ser mais exacto, era um termo que lhes causava temor e arrepios gélidos através da medula espinal. Eu era um pré adolescente irrequieto, muito diferente em termos comportamentais, daquele menino, estudante certinho, que até completar a Instrução Primaria e o exame de admissão ao Secundário, tinha desempenhos brilhantes. Mas ao entrar no Ciclo Preparatório, o meu comportamento alterou-se, tendo chegado a frequentar um conhecido Colégio católico, que teve a virtude de me por a questionar sobre certos valores. Mas, adiante...

Nesse dia, há 49 anos, a minha Mãe, sempre muito diligente no aprumo dos Filhos, deu-me para vestir o fato das ocasiões especiais, ou seja, o domingueiro, camisa branca, gravata, sapatos bem engraxados pelo meu Pai, que era um Mestre na Arte de bem engraxar, sapatos (nada de confusões), com graxa e algum cuspo à mistura. Ficavam a brilhar de forma resplandecente. A D. Carolina deu-me uns escudos e disse-me:

"Meu Filho, já estás com 12 anos e é altura de começares a aprender a ser um homem. Hoje comemora-se o dia da implantação da República e tu vais até cemitério do Alto de S. João, porque vão lá uns Senhores fazer uma cerimónia e tu com certeza que vais gostar".

Lá foi o Fernandinho, a caminho da paragem do eléctrico, rumo ao Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Chegado lá, este menino começou a observar o que se passava em seu redor. Muitos policias com a farda normal de caqui, na parte exterior do portão. Lá dentro umas dezenas ou centenas de pessoas, predominantemente do sexo masculino, falavam muito baixinho. Os homens, na sua maioria, trajavam fatos cinzentos, camisas brancas e chapéu de feltro na cabeça. Uma ou outra bandeira dos Centros Escolares Republicanos e bandeiras Nacionais.

A determinado momento aquelas pessoas começaram a movimentar-se silenciosa e ordeiramente. Paravam num ou noutro jazigo onde iam depositando coroas de flores. E eu ia acompanhando aquela gente de silêncios contidos, com muita curiosidade e tentando obter resposta do que estava a observar. Na última paragem que fizeram, as pessoas dispuseram-se em circulo, os senhores, todos, com os seus chapéus junto ao peito. Até que irrompendo o silêncio, um deles pôs-se a discursar muito baixinho. Foram palavras muito breves, pausadas e no final, todos disseram num tom não muito alto: "Viva a Republica!". Nessa ocasião reparei, que não muito longe, um grupo de policias e de outros indivíduos vestidos à civil (Pides, vim algum tempo mais tarde a saber), observam-nos muito atentamente. Um oficial da policia foi falar com o Senhor que tinha discursado e apercebi-me que ele lhe estava a dar instruções para as pessoas dispersarem rapidamente.

O grupo fez o caminho de volta. Alguns trocavam palavras quase imperceptíveis. Já perto do portão, abeirou-se de mim, um homem, que não estava engravatado e que eu conhecia de vista. Alto, seco e moreno. Vendia jornais e revistas, no Terreiro do Paço (Praça do Comércio), nas arcadas, com esquina para a Rua da Prata. Falou brevemente comigo. Incentivou-me a voltar no ano seguinte e a ler o jornal A República. Achei piada, porque ele disse-me que à noite ia participar num jantar com algumas daquelas pessoas e que também levaria fato e gravata como eu.

E fomos saindo do Cemitério. Cá fora, um grande aparato policial. Policias com capacetes. Iam berrando ordens de dispersar com ar ameaçador para aqueles pacatos cidadãos e fizeram-nos seguir em pequenos grupos. Penso que nesse dia não houve agressões, mas nos anos seguintes assisti a algumas.

Regressei a casa a pensar naquilo tudo que tinha visto e ouvido. Almocei e durante a tarde, pela primeira vez, comprei o jornal A Republica. Sem ser essa a sua intenção, a minha Mãe abriu-me os horizontes para a Vida. A partir desse dia, comecei a por de parte o Mosquito, o Cavaleiro Andante, o Mundo de Aventuras, etc. e comecei a interessar-me pelo fenómeno político e social.

Para além do jornal A Republica, o vespertino mais diminuto em termos de paginas, bem crivadas pela Censura, passei a frequentar os alfarrabistas da zona do Carmo. Aos 14 anos descobri num deles o Pequeno Manual de Filosofia do Professor Vitorino de Magalhães Vilhena e assim por diante...

Obrigado Mãe pelo conselho inocente que me deste!

Comentários Alternativos - Haloscan:

|


Comments:
E que grande conselho, caro Fernando.
Um abraço.
 
De pquenino se torce o pepino, amigo... ;))
Um abraço.
 
...obrigado pelas palavras em relação às "minhas" palavras... :) um abraço fraterno
 
Um conselho na hora certa. Bela narrativa, acompanhado por uma excelente música.
 
eu despertei para a política bastante mais tarde... Faculdade de Letras, 1961, lembras-te?
 
O meu querido amigo é um cronista e tanto.
Diria que a Mãe o "empurrou" para a cidadania.
A tal ponto estas suas crónicas são excelentes que não vejo razão para não as incluír no meu jornal.
Aceitaria fazer uma de qd em vez?
Fico-lhe grato pelas palavras que deixou no "letras"
Respondi, penso que à altura com um post fora do contexto do blog, mas na verdade, tal atitude impunha-se.
Pela crónica, obrigado.
Pela solidariedade, o meu bem haja.
 
E... Viva a República apesar de ser um dia mais tarde! :) Gosto muito de vir aqui e ler todos estes textos que são tão informativos e ricos em detalhes de uma mundividência que por vezes passa ao lado de muitos de nós! :)**
 
Há aqui duas coisas "engraçadas":

1. No dia seguinte nasci eu, eh,eh,eh!

2. Catorze anos depois, não motivado pela minha mãe mas sim por um quarteto de camaradas de trabalho, comprava o 1º jornal "República".

Ainda lembro ( e de que maneira ) as crónicas do Raúl Rêgo, do Magalhães Godinho, do Vítor Direito, do Tavares Rodrigues, etc...

Um abração do
Zecatelhado
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

* Apelo para a Humanidade *

* Lista de Subscritores *



Contacta-me:
contacta-me
Fala comigo:
hotmail

Visitantes desde
13/07/2004:

web stats
Blogarama - The Blog Directory

Arquivos
  • Julho 2004
  • Agosto 2004
  • Setembro 2004
  • Outubro 2004
  • Novembro 2004
  • Dezembro 2004
  • Janeiro 2005
  • Fevereiro 2005
  • Março 2005
  • Abril 2005
  • Maio 2005
  • Junho 2005
  • Julho 2005
  • Agosto 2005
  • Setembro 2005
  • Outubro 2005
  • Novembro 2005
  • Dezembro 2005
  • Janeiro 2006
  • Fevereiro 2006
  • Março 2006
  • Abril 2006
  • Maio 2006
  • Junho 2006

  • Entradas Recentes
  • Primeiro Amor - parte V (conclusão)
  • Primeiro Amor - parte IV
  • Primeiro Amor - parte III
  • Bodas de Ouro
  • Primeiro Amor - parte II
  • Primeiro Amor - parte I
  • O Mundo do Silêncio
  • Para uma Pérola no Atlântico
  • Desencanto
  • Vida versus Morte
  • Sugestão de Visitas

  • Notícias da Amadora
  • Voz das Beiras
  • Voz das Beiras - Blogs
  • Este Blog apoia esta campanha
  • Associação Animal
  • INTERVALO - GRUPO DE TEATRO
  • Os Sítios do Arco-da-Velha
  • PobrezaZero
  • Associação Gaita de Foles
  • Registe o seu e-mail para ser avisado
    dos mais recentes textos deste Blog



    powered by Bloglet


    Linkar este Blog?
    Fraternidade

    Se deseja linkar este blog com esta imagem por favor copie este código




    O meu Amigo muito especial


    Image hosted by Photobucket.com

    Também escrevo aqui:


    Redescobrir
    Joy Division

    15,00 Euros
    Para encomendar clica na imagem

  • Mundo Bizarro

  • Estúdio de Dança

  • Castelo de Thor
  • O Portal da História
  • Round Table
  • Cancro da Mama


  • Free Photo Albums from Bravenet.com
    Free Photo Albums from Bravenet.com

    Estou no Blog.com.pt

    Fases da Lua
     

    velocimetro


    More blogs about lusomerlin.blogspot.com

    eXTReMe Tracker

    Are you talkin' to me?

    BlogRating