Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, setembro 29, 2004

Primeiro Amor - parte IV

Recordo-me que da primeira vez que os meus Pais me deixaram na Quinta para passar férias devia ter os meus seis anos de idade. O Dr. Damas Mora, médico da antiga Junta Geral dos Distritos, na Rua Capelo, em Lisboa, quase em frente às antigas instalações da Rádio Renascença, detectou-me uns gânglios nos pulmões e como tal a par da prescrição medicamentosa, recomendou contacto com o ar puro campestre. E foi essa a razão principal das minhas idas para a Quinta.

Já contei que os quartos lá da casa, ficavam paredes meias com o estábulo da mulas. Acontece que por causa disso, as primeiras noites lá passadas foram para mim um bocado dolorosas. Quantas vezes chamei pelo meu Tio, dizendo que andava gente a rondar (expressão actual) a casa, pois ouvia barulhos com frequência, junto à parede do quarto onde dormia. O Tio Zé levantava-se a resmungar, dava a volta à Casa e dizia que não estava ali ninguém. Até que chegaram à conclusão, de que os barulhos de que eu me queixava, eram provocados pelas mulas, presas a manjedoura por umas cordas que terminavam num nó nas argolas de ferro incrustadas na parede da manjedoura. Os animais ao comerem moviam as cordas que imprimiam um batimento intermitente das argolas contra a parede de cimento, que ecoavam pela madrugada campestre, martelando os ouvidos e provocando o sabor do medo num menino citadino.

O ritmo de Vida na Quinta era muito calmo e rotineiro. Por vezes aparecia uma, ou outra pessoa. Dois dedos de conversa, por vezes um petisco, um copo de vinho e passado algum tempo de fugaz convívio, seguiam o seu caminho. Entre os passantes, contavam-se alguns caçadores. Um dia apareceram lá dois. Um deles tinha sido alvo de um percalço provocado por um colega caçador. Levou com uns chumbos de raspão. Mas isso não obstou para que não se sentasse à mesa plantada na parte exterior e em frente à porta de entrada da Casa, colocada sob um frondoso sobreiro, o que proporcionava aos que se sentavam frente a ela, uma agradável sensação de bem estar, com os ramos da arvore Amiga a protegerem-nos da canícula, como braços estendidos pela Mãe Natureza para nos abraçar. Como é que, com toda esta envolvência ambiental, o caçador ferido, havia de resistir a sentar-se àquela mesa, comer um petisco e beber uns copitos de vinho?. De quando em vez, queixava-se de um ardor no lado direito do tronco. O que não o impedia de continuar a comer e a beber...

Noutra altura passaram lá, creio que também dois caçadores, que nas suas deambulações, tinham apanhado, não uma peça de caça habitual, mas um ouriço caixeiro. Combinaram com o meu Tio fazer ali um petisco com o espinhoso animal. Foi para mim um momento muito doloroso. Vi o meu Tio sacar da sua pequena e bem afiada navalha. O bicho tinha adoptado a sua postura de defesa habitual enrolando-se. Os outros homens, de mãos protegidas, forçaram o pobre animal a expor o seu lado vulnerável. Então, o meu Tio cravou-lhe a navalha, na parte superior. Não foram gritos de dor. Eram os vagidos de um recém nascido que se entranhavam nos meus ouvidos. Exactamente. Os ouriços caixeiros choram como um bebé perante a morte. Uma experiência muito marcante para o meu desenvolvimento como Ser Humano. Talvez por isso, a Criança que estava a ali a assistir ao degradante espectáculo da Morte, tivesse começado a questionar-se prematuramente sobre os valores da Vida. Também poderia ter provocado efeitos contrários. Pela negativa, não é verdade?.

Certo dia, tinha eu uns 9 ou 10 anos, uma das Netas dos meus Tios, uns anos mais velha, já uma adolescente, que vivia com os Pais em Setúbal, apareceu lá na Quinta. Vinha acompanhada de uma Amiga, também já a entrar na adolescência, mas mais nova, era Ela, a Suzete (nome fictício).

Esguia, olhos azuis, cabelo louro. Tipo celta, o que não era muito vulgar por aquelas paragens, visto estarmos a menos de quarenta quilómetros do Baixo Alentejo, onde a tez mourisca deixou marcas indeléveis.

Foi o fascínio do meu despertar. Foram, o começo dos meus encantos e desencantos...

(continua)

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Amigo:
Os seus posts são fragmentos de vida, têm alma. Dei uma vista geral aos anteriores e prometo voltar com mais tempo. Também já constatei que temos algumas afinidades, como a leitura do N.A., por exemplo. Mas o comentário vindo de Alenquer esclareceu uma dúvida que me assaltou na minha primeira visita ao blog...;)))
Votos de boa saúde e continuação de uma boa escrita.
 
Tenho passado por aqui com certa frequência, mas acho esta caixa de comentários meio complicada... Enfim, já lhe mandei recado pelo meu blogue que estou adorando as suas memórias. Ao contrário dos que desejam "fazer literatura", seus textos têm vida e, portanto, falam fundo na alma de quem lê. Agora só me esclareça um ponto: porque nós só entendemos a beleza da vida através das nossas lembranças? Encontro-me em fase idêntica, hehehe. Grande abraço! Deméter
 
felizmente nunca vi morrer ao pé de mim um ouriço caixeiro :(
fico à espera desses encantos...

fairy_morgaine
www.ogritodosilencio.weblog.com.pt
 
Bom dia, Fernando.
Que belo passeio este, pelas belas memórias da tua vida. Curioso como desde o primeiro capítulo temos várias passagens homónimas. Desta vez foram os gãnglios e as mulas, apenas sendo outros os "meus" quadrúpedes: eram vacas. O médico também aconselhou a minha mãe ao mesmo e lá fui eu para o Minho. Sempre fui um puto atrevidote e, mesmo sendo alfacinha, aliava-me muito bem aos costumes daquelas terras e daquelas gentes. Demasiado. O que até me fez ganhar o epíteto de "o diabinho de Lisboa" pela caça às galinhas e as pedradas aos gatos e às ovelhas. Mas... agora reparo que estou para aqui a extravasar-me quando a ideia foi dizer que gostei, mais uma vez, desta passagem.
Um abraço, companheiro.
 
Lindissimo, senti-me dento do ambiente que descreves, mais, vivi interiormente a cena da morte do ouriço, não imaginava sequer que alguem comesse esse animal e menos ainda, que tivesse uma morte tão comovente.
Virei mais vezes te visitar, é bom ler o que escreves.
Bom fim de semana
 
Que história tão bonita nos contas, Fernando.
Um beijo e bom fim de semana.
 
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