Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, setembro 27, 2004

Primeiro Amor - parte III

E os dias iam rolando lá na Quinta. O Sporting era um cão pequeno, negro, muito vivo que me acompanhava para todo o lado. Certo dia, a minha Mãe, simulou uma queda num pequeno declive para testar a reacção dele. O Sporting ficou todo alvoraçado e entre gemidos de aflição, tentava puxa-la pela roupa. Então a minha Mãe lá o sossegou, acarinhando-o e dizendo-lhe que era a brincar.

A minha Mãe era muito brincalhona, pregava algumas partidas inofensivas, só para se divertir. Durante o tempo que permanecia na Quinta antes de me deixar entregue aos cuidados da Tia Ana, divertia-se imenso. Certo dia, sem a intenção de o fazer, provocou uma situação algo caricata protagonizada pelo Moço da quinta. A minha Mãe usava próteses dentarias desde os quarenta e tal anos de idade. Um dia estava ela junto a uma das bicas que brotavam a água do poço para o tanque, a lavar as próteses, pois não havia água canalizada lá na casa, quando o rapaz se aproximou. Após bochechar a boca, colocou as próteses no seu lugar. Foi então que, quando se afastava do tanque olhou para trás e reparou que o jovem trabalhador, puxava os próprios dentes na tentativa de fazer aquilo que tinha visto. Foi então que a minha Mãe soltou umas das suas peculiares e sonoras gargalhadas...

Como estou a falar na minha Mãe, recordei-me agora de outra situação. Nos anos 40 / 50, inspirados pela moda germanofila, no Portugal salazarento, começaram a aparecer nas montras das lojas de vestuário, as calças à "golf ", como então lhe chamavam, por terem um elástico na ponta e que ficavam ajustadas às pernas uns centímetros acima dos tornozelos. Haviam também, calções e calças com peitilho e uns conjuntos de casacos, com um cinto do mesmo tecido e calças ou calções, de cor creme, talvez uma mistura tipo colonial e germanofila. A minha Mãe e outras pessoas, apelidavam estes conjuntos de "balalaicas". Só que, este termo, na gíria popular, também tinha outro significado, pejorativo. Chamavam "balalaicas" aos homossexuais, que nessa época não eram designados assim, mas por invertidos, termo mais "soft" usado nesse tempo, a par de outros mais mordazes.

Um dia em que os meus Pais foram à Quinta para me trazer de volta à nossa Casa, os meus tios, entre muitas outras coisas, disseram-lhes que eu tinha ido a Setúbal, de carroça, como habitualmente, com o Tio Zé, então a minha Mãe, muito naturalmente perguntou: "Foi com o 'balalaica'"?. O Tio Zé, voltou-se com cara de poucos amigos para a minha Mãe e disse: "Com o 'balalaica', que conversa é essa"!? . A minha Mãe desatou-se a rir, apercebendo-se da confusão e calmamente explicou-lhe que aquilo a que ela se referia era ao meu fato novinho que tinha levado na bagagem. Ele lá resmungou qualquer coisa, não sei se convencido com a explicação. Mas garanto-vos que a minha Mãe naquele momento estava completamente inocente...

As viagens de carroça com o Tio Zé eram divertidas, mas ao fim de umas quantas horas a balouçar com o rabo no assento de madeira da carroça, puxada pela possante Russa, deixavam-me um bocado cansado. Saíamos da Quinta em direcção a Setúbal, para onde o meu Tio levava um carregamento de produtos hortícolas para vender, de manhã cedo e regressávamos já de noite. Levávamos farnel. A Russa já conhecia o caminho, a maior parte do qual, o fazia a "velocidade de cruzeiro". De vez em quando, o Tio Zé, sempre de chicote na mão, chegava-o ao dorso. Nesses momentos eu ficava amargurado, em silêncio. Passávamos junto à SAPEC, uma empresa de adubos, situada no caminho para a Cidade e que era praticamente impossível de ignorarmos, dado o cheiro nauseabundo exalado pelas suas chaminés.

Chegados à entrada da Cidade o Tio Zé, parava junto a uma "tasca" para ir tomar o seu "bagacinho". Depois era distribuir os produtos hortícolas pelos destinatários. À hora do almoço comíamos o farnel, mesmo em cima da carroça. Depois de aliviada da carga trazida da Quinta, a carroça aconchegava algumas compras que o meu Tio fazia para suprir as necessidades caseiras e agrícolas. Petróleo, sabão azul e branco, açúcar, farinha, sementes, etc., etc.

Então, era o regresso, metíamo-nos ao caminho pelo fim da tarde, quase noite. A carroça tinha numa das partes laterais, uma lanterna amovível, rectangular, prolongada por um tubo para encaixar e a parte cimeira era parecida com um campanário de igreja. Era alimentada a petróleo, que o meu tio acendia, quando começava a escurecer. Durante os trajectos de ida e volta, o meu Tio sacava do tabaco de onça e das mortalhas, enrolava o tabaco numa mortalha, humedecia-a longitudinalmente com a ponta da língua, seguindo-se o "cerimonial", com o polegar direito a rodar não sei quantas vezes o isqueiro de pederneira e com a mão esquerda em concha, para proteger do vento. Não fazia isto sem que antes olha-se em varias direcções por causa da Guarda. É que nesse tempo e ainda durante muitos anos, era necessário obter uma licença nas Repartições de Finanças, para usar um isqueiro na via pública.

(continua)

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Olha...nunca tinha aqui vindo: devo andar muito distraída porque geralmente bons Blogs "Não me escapam"... Gostei de tudo o que vo...gostei da expressividade dos texto...voltarei, certamente.
Abraço, WB
 
Fico ansiosa à espera da continuação...
 
Cçaro que já cá tinha vindo...ando mesmo distraída...que diabo;
Olha, eu vou explicar - o Blog Mocho é partilhado com o meu marido: ele assina Mocho, nos Post dele, eu assino whiteball, nos meus...
Abraço, WB
 
Um tipo deve dizer que aqui esteve, não é?
Inclusivamente, cada vez mais agradado com estas tuas histórias da Vida.
Deixo um abraço e a certeza que me tens por companhia.
 
Estou a adorar estes teus textos. Consegues mesmo transportar-me para essa época.
Um beijo.
 
:) é delicioso ler-te beijinhos* **
 
Fernando,
Concordo com os demais comentários a respeito da delícia que é ler os seus relatos. Você deveria pensar em um livro mais adiante.
Beijos.
Cathy (bailar)
Quanto ao Machado de Assis, conte comigo!
 
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