Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quinta-feira, setembro 23, 2004

Primeiro Amor - parte II

Era uma calma e um silêncio paradisíacos. Ruídos, sons? Só o chilrear dos pássaros, o latir dos cães, o cacarejar das galinhas, e o toc, toc, ,toc, produzido pelos alcatruzes da nora que uma das mulas de olhos vendados accionava com as suas quase infindáveis voltas circulares pelo poço. Por vezes, o Tio Zé, recostado numa espreguiçadeira, com um chicote na mão, erguia-o ameaçando o pobre animal, que mesmo de olhos vendados, pressentia o perigo e andava mais depressa. Outras vezes o meu Tio concretizava mesmo o castigo. Eu ficava deprimido perante aquilo que presenciava.

Em frente, o estábulo do gado bovino , albergava dois tipos de vacas. As designadas de trabalho, castanhas, que executavam os trabalhos da Quinta puxando, aos pares, o carro ou carreta. Por vezes uma delas também trabalhava na nora. Às outras, chamavam-lhe as vacas leiteiras, precisamente porque diariamente lhes iam extrair o leite para dentro de um balde. Eu gostava de estar ali a contemplar os simpáticos animais e era raro perder o "cerimonial" da extracção do leite. O Moço da quinta sentava-se num banco pequeno, friccionava por breves instantes a parte superior das tetas, apertava uma delas e com o primeiro esguicho de leite esfregava as suas próprias mãos para as lavar. Depois começava a mugi-la, alternando, as varias tetas do animal. Normalmente eu levava um copo. Quantas vezes eu bebi o leite morninho, acabado de sair. Diziam que não devia fazer isso, que o leite tinha de ser fervido por causa das bactérias. Mas eu, miúdo que era, nunca liguei a isso e creio que não fiquei com "sequelas" resultantes do consumo de leite não fervido "saído directamente da produtora"...

Se estava bom tempo, à tarde, vestia os calções de banho e toca a mergulhar, no tanque onde o gado ia matar a sede. Quantas vezes eu andava lá a esbracejar e chegava o meu Tio ou o Moço da quinta com os animais para estes beberem pachorrentamente.

A Quinta vizinha, era explorada por uns caseiros, que tinham um filho, mais ou menos da minha idade, meu companheiro de brincadeiras e de passeios, através do campo. Recordo-me que esse rapaz tinha uma deficiência nos polegares de ambas as mãos. Ausência de cartilagens. Quando movia as mãos, fazia-me muita impressão ver os seus dedos polegares dançarem desordenadamente e tentava desviar o olhar. Que será feito dele?. Espero que ainda cá esteja entre nós e de boa saúde.

Varias vezes assisti ao esmagar das uvas no lagar. O meu Tio, um dos Netos o Moço da quinta e mais um ou outro homem, Amigos, descalçavam-se, lavavam os pés num balde e saltavam para dentro do lugar. Eu também participava neste "cerimonial". Enfiavam-me lá dentro e toca pisar. E como me divertia...

Eu percorria toda a Quinta. Tinha todo o tempo do Mundo para o fazer. Uma vez, quanto me dirigia para o eucaliptal deparei com dois homens sentados e encostados a uma das arvores. Creio que chamei um dos meus Primos. Abeirámo-nos deles. Ambos tinham um naco de pão numa das mãos e uma navalha na outra. Cada um tinha o seu saco de pano com um magro farnel e uma cabaça com água. Eram trabalhadores alentejanos, que tinham palmilhado, muitos, muitos quilómetros, para chegar ali. Andavam em demanda de trabalho. Trabalho que lhes era negado no seu Alentejo. Isto vim a compreender alguns anos depois. O meu Primo falou com eles. Concluímos que eram gente de Paz. Alimentamo-los e eles lá prosseguiram o seu caminho.

Antes de terminar o presente episódio e especialmente para os mais jovens e para as Amigas e Amigos brasileiros que têm a paciência de ler os meus escritos, quero referir, que o que relatei no parágrafo anterior, era bastante vulgar de acontecer. Homens e também Mulheres, particularmente do Baixo Alentejo, eram obrigados, a palmilharem quilómetro e quilómetros, à procura do trabalho que lhes era negado nas terras onde nasceram. O Baixo Alentejo, nesse tempo, era uma vasta área pertença de um punhado de latifundiários, que ao invés de se preocuparem em fazer florescer os cereais, dando assim trabalho a toda aquela gente, usavam as suas propriedades como coutadas de caça ou pura e simplesmente as votavam ao abandono.

Após a Revolução dos Cravos, as condições de vida do Povo Alentejano alteram-se para melhor. Passados trinta anos, muitos esqueceram-se ou venderam-se. Mas... fico-me por aqui.

(continua)

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Olá! Ainda não tinha começado a ler a tua nova narrativa. Demonstras um conhecimento profundo da vida do campo e é bonito teres tido a ideia de partilhar esses teus conecimentos numa narrativa como a que te propuseste. Estou para ver a continuação! :)**
 
Também aqui nas beiras a vida era difícil...mas as pessoas esquecem facilmente...
Obrigada pelas tuas palavras fraternas. Abraço, WB
 
Está tão bem escrito que até me imaginei a passear por essa quinta. E como em pequena passava os fins de semana no campo, acrescentei ao teu cenário os cheiros, o calor, os sons.
Um beijo e bom fim de semana.
 
então e o primeiro amor? nunca mais lá chegamos? ;)
 
Palavras para quê?
Sente-se, como se fossemos nós a viver a recordação.
Antonio
 
Pois é amigo Fernando, encantado por ver um pouco da tua nudez (é metáfora) e a vontade com que a partilhas. Provavelmente, estaremos separados na vida por uma década mas, engraçado ou curioso, é que os caminhos que traças e descreves, as vivências e os costumes que retratas são-me familiares e estão cruzados. O tanque e as vacas, incluídos. O leite bebido em púcaros e muitas coisas mais que vais contar e faço questão de continuar a acompanhar.
Divinal.

Vê-mo-nos por aqui se não for antes. Um abraço e bom fim de semana.
 
Não, meu caro Fernando, não te fiques por aí.
Diz TUDO !
Deixa jorrar a verdade do teu coração.
É preciso e urgente que os mais experientes, por via da idade, passem às gerações seguintes o seu conhecimento para que os jovens de hoje não se deixem levar em cantigas fascizantes como as do Bagão, do Portas e companhia!
É bom que se saiba porque razão muitos chamam "salazarista" ao discurso da direita retrógrada que pretende fazer recuar este país para as trevas do pré vinte e cinco de Abril.
Nunca é demais relembrar, meu amigo.
 
Fernando,
Gosto muito da tua narrativa... os detalhes nos remete a estes anos passados e nos faz sentir a emoção que sentistes.Já desde o post anterior que estou de olhos pregados a ler-te. Já fico aqui ansiosa pela continuação.. vai, não nos faça esperar!
beijos grandes,
 
Estou a gostar cada vez mais deste blog! E a música é um espanto! A propósito, como é que isso se faz?
Quanto ao poema que ficou como "comentário" ao meu, acho que ficaria muito melhor aqui... Um abraço, companheiro!
 
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