Loreena McKennitt - Dante's Prayer

quarta-feira, setembro 22, 2004

Primeiro Amor - parte I

Residi com os meus Pais até quase aos vinte anos, pois a duas semanas exactas de os completar, fui detido e enfiado nas prisões da Pide: no Aljube e em Caxias, durante seis meses. Por motivos políticos, como é evidente. Mas isso é outra história que em devido tempo relatarei.

Morávamos em Alfama, na Rua da Adiça. Eu, os meus Pais e o meu irmão mais velho, até ele se casar.

Naquele tempo, anos 40 / 50, pouca gente tinha automóvel particular e nós, uma família pequeno burguesa, também não usufruímos daquilo que nessa época era considerado um objecto de luxo.

Aos domingos, os meus Pais costumavam levar-me a passear. O meu Irmão, doze anos mais velho, já tinha outros entretenimentos. Íamos várias vezes a Linda-a-Velha, visitar uns tios maternos e os respectivos filhos, os meus primos. Apanhávamos o eléctrico até Algés e daí uma camioneta (hoje diz-se autocarro), para Linda-a-Velha.

Outras vezes íamos até o Aeroporto, ver aterrar e levantar os aviões. Lembro-me que, quando isso acontecia, descíamos do eléctrico no Areeiro e depois ainda nos fartávamos de andar para lá chegar, pois essa zona, nesse tempo, eram uma sucessão de quintas ou de terrenos baldios.

Quando chegava o Verão, íamos visitar uns tios paternos que tinham uma quinta nos arredores de Setúbal. Algumas vezes, eu ficava lá uns quinze dias e os meus Pais regressavam a Lisboa. Lembro-me que chorava quando eles partiam, mas depois tudo voltava à normalidade. Os cães , eram a minha grande companhia e a quem eu devotava a minha amizade e eles retribuíam-me, claro.

A Ti Ana, com o seu carrapito, e a cara marcada por sulcos de uma Vida nada fácil, acarinhava-me muito. O Tio Zé, um homem de estatura médio alta, seco, tez queimada, com o seu fiel chapéu e sempre com cigarro feito de tabaco de onça na boca, durante o dia tratava da quinta, bebia o seu copito pelo meio da faina e à noite quando chegava a hora da janta já ia "bem convidado". Comia pouco, mas "atestava" ainda mais o "depósito". Tirava o tabaco de onça e o papel das mortalhas da algibeira do colete. Cigarro, atrás de cigarro, a cinza caía para cima da mesa. Depois, inevitavelmente punha-se a dormitar, cabeceando e ressonando. Braços sobre a mesa e a cabeça sobre eles. "Zé, vem-te deitar" "já vou". E estas duas frases repetiam-se vezes sem fim, entrecortadas por: "rais parta a mulher, já vou!". E por fim, a paciente Ti Ana lá conseguia que ele fosse para o quarto. Eu dormia no quarto ao lado, paredes meias com o estábulo das mulas. Eram duas, a Russa e outra de que não me recordo o nome, que era cega, "de gota serena" dizia o meu tio. De manhã cedo, ainda escuro era acordado pela tosse "nicotiniana" do meu Tio Zé. Sempre, era um cerimonial "catarronico" e "etílicoloso" de uns pulmões à beira de rebentarem, que durava minutos infindáveis. Ele lá sossegava. Levantava-se, fazia os seus cuidados primários de higiene, comia um naco de pão, umas azeitonas, sorvia café de cevada e um cálice de aguardente para rematar... e lá ia ele à sua Vida e eu reatava o meu sono.

Era uma casa rasteira, cuja metade era ocupada pela estrebaria, cujo portão ficava localizado, na parte lateral do edifício. A entrada para a zona habitacional situava-se na frente, onde se entrava pela cozinha, tendo ao fundo desta o quarto do casal, que tinha ao lado outro quarto, o das visitas, e em frente a este, uma sala. Sob o estábulo, era a adega, que tinha a porta, do lado oposto.

A quinta tinha umas dimensões razoáveis. Não consigo calcular qual seria a sua área, mas recordo-me perfeitamente da sua grande extensão. Em frente à casa principal existia uma pequena casa que servia para guardar, entre outras coisas, alfaias agrícolas. Do lado contrário a esta casita, situava-se o galinheiro. No terreno por baixo do galinheiro, ficava a vacaria. Em frente a esta, o poço envolvido por um pomar enorme, seguido longitudinalmente por uma grande extensão de vinha. Muito perto do poço e novamente em direcção ao edifício principal, dois tanques. Um servia para o gado ir saciar-se e também de piscina, o outro para lavar a roupa. Na parte alta do terreno, uma eira. Seguiam-se uma área descampada e um conjunto de pinheiros e eucaliptos.

E foi neste ambiente bucólico que eu encontrei o meu primeiro Amor.

(continua)

Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Excelente post amigo fernando.

Vou voltar.

Abraço
cachucho
http://enresinados.weblog.com.pt
 
Excelente descrição de um ambiente pitoresco. Agora fico à espera da história do primeiro amor.
Um beijo.
 
Quase Camiliana a forma usada na descrição de lugares.
Um texto excelente, bem cuidado em termos de escrita.
Un abraço fraterno e amigo.
 
"O Fim é deixarmos de lutar!" Concordo contigo:) eu nao deixo de lutar obrigada pelo teu comentario:) gostei muito do que aqui li beijo Black Rose
 
Fernando : Vou estar atento ao desenrolar das tuas ...memórias , Excelente . Abraço !

Finúrias
 
Gosto do nome do blog... :)
Não vou dizer que li tudo e tudo, nem vou prometer que leio tudo e tudo, mas adoro histórias de amor... voltarei! :)
 
Gostei da desenvoltura da escrita, dos pormenores, das descrições, do fio da história... enfim.
Se fosse um livro podia dizer que fiquei "agarrado".
Como é um blogue digo que voltarei para ler mais.
Um abraço.
 
Gostei do fio da história. Não há lugar nem tempo para encontrar o amor...
 
hmm..delicioso. gosto muito de ler lembranças especialmente tão pitorescas como as tuas.

fairy_morgaine
www.ogritodosilencio.weblog.com.pt
 
Gostei muito do estilo da tua escrita. Lembra um bocadinho o Miguel Torga, ao mesmo tempo que se sente ser muito tua.

Cá voltarei, certamente!

Estou curiosa sobre a tua divulgação das personagens arturianas. Não há um site onde se possam ver? Gostava, sem querer ser pedinchona...

Gosto de Fraternidade. Tenho pena que se vivam tempos de puro umbiguismo, acho que o que há se reparte enquanto houver... e quando tal coisa rara se pratica é muito raro ver a "fonte" secar.

Saudações fraternas!
 
Excelente a recordação do passado. Magnífica a forma como está exposta.
Um abraço do Antonio
 
Alfama? hummm...
Vou ler a continuação.
 
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