Loreena McKennitt - Dante's Prayer

terça-feira, julho 13, 2004

Valsa nas Brumas

Dois de Julho de mil novecentos e noventa e cinco. Meio dia e cinco minutos. Levei o garfo à boca. De imediato, senti uma sensação estranha a invadir uma parte do meu Corpo. Do Cérebro até à ponta dos dedos da mão direita. Um suave formigueiro percorreu os meus lábios. Senti descair o inferior direito. Apercebi-me imediatamente do que é que estava a acontecer-me e voltei-me para a minha mulher, que estava de pé, olhando-a fixamente, para o confirmar. "Despeja a boca imediatamente!...". A dormência acentuava-se. Um sabor estranho que não identificava. As imagens sucediam-se em catadupa. Fragmentos da minha Vida eram projectados por entre as Brumas do meu Consciente. Pois é meu caro estavas a pedi-las, aconteceu. Os teus sonhos visionários esfumaram-se por entre as Brumas do teu Imaginário. Agora, está na altura de pagares a conta... e o meu Consciente, tal como um qualquer Delegado do Ministério Público continuava a deduzir o Auto de Pronuncia: E agora? Será que vais acompanhar o crescimento do teu primeiro Neto? André, seis meses... A minha Filha... A minha Mulher.. E agora?

Saí da cozinha e fui sentar-me num sofá do meu escritório. Ingeri um ansiolítico. A pouco e pouco a dormência da minha face lateral direita, desvaneceu-se. A boca retomou a sua forma normal.

Portugal, de Norte a Sul. Parte da Galiza. Profissão: Vendedor de Sonhos!. O Rei Artur e os Cavaleiros da Tavola Redonda, Guinevere, Merlin, Morgana, Dragões, Unicórnios, Pegasus, etc., todo um imaginário criado a partir dos meus ideais da adolescência: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE!

Pois é, mas ser Idealista e Comerciante simultaneamente é complicado. Todas essas figurinhas tinham de ser pagas atempadamente e para não atrasarmos compromissos assumidos, então, vá de solicitar o apoio do Banco. E a Banca não tem qualquer linha de crédito especifica para Vendedores de Sonhos. Nem se compadece com os acidentes de percurso. E este Visionário, digeria em silêncio, a introspecção dos problemas inerentes à Utopia dos caminhos percorridos, sempre em frente, sem cuidar que, "sob o manto diáfano da fantasia" mais tarde ou mais cedo, somos confrontados com "a nudez crua da Verdade"

Decidiram levar-me para o Hospital de S. Francisco Xavier. Em menos de 10 minutos estávamos lá. Entretanto, durante o caminho, ainda não eram passadas duas horas do primeiro Aviso, as Brumas da Dormência envolveram-me de novo. A boca voltou a descair para o lado direito, uma leve impressão no braço do mesmo lado, o balbuciar de algumas palavras como um estranho sabor. Como que o resultado de uma anestesia local, que nos é ministrada quando sentados numa cadeira inclinada de um consultório de um Estomatologista e deixamos de sentir os nossos lábios, sendo simultaneamente invadidos pelo sabor desagradável do anestésico ministrado.

Entrada no SO. Primeiro exame efectuado pela equipa de serviço, para um diagnostico sumário. De hipotenso, passei a hipertenso. A minha pressão arterial tinha disparado assustadoramente. A sentença primaria: Doente 52 anos, sexo masculino, raça caucasiana... Acidente Vascular Cerebral. Sequelas? Só se chegará a uma conclusão, após os exames iniciais e a evolução nas 24 horas seguintes.

Acabou-se o pudor. Despiram-me. Fiquei despojado da minha roupa, óculos e relógio. Enfiaram-me uma bata azul hospitalar que me cobria a parte da frente e me deixava a descoberto uma parte razoável das costas, rabo e adjacentes... Deitado, ouvindo as circunstanciais palavras reconfortantes proferidas pelos humanos e eficientes membros da equipa, segui o percurso iniciático da Ordem Hospitalar.

Primeira picadinha para recolha de sangue para analise. Primeira Tomografia Axial Computorizada, vulgo TAC. Admirável e estranho Mundo Novo! Fui introduzido numa estranha e complexa maquina. Sentia-me como que uma personagem de um filme de ficção cientifica. Actor, no papel principal. Enquanto eu ia observando aquela imensidão de luzinhas sobre a minha cabeça, quais estrelas cintilando no espaço celeste, o meu corpo era deslocado horizontal e progressivamente, para a frente e para trás. Era a Variável Dependente, da qual eram recolhidas preciosas informações acerca do meu Sistema Nervoso Central, para memória futura.

O passo seguinte foi a transferencia para a Unidade de Cuidados Intensivos - UCI, já com o respectivo soro e adjacentes, a penetram-me as veias. Se bem me recordo, estavam lá mais uns dois ou três doentes. Eu fiquei logo à entrada, junto da casa de banho. Ouvia vozes de pessoas, das quais não conseguia distinguir os rostos, por me terem privado dos meus óculos, mas que vim posteriormente a constatar que eram dos Enfermeiros e Auxiliares de Acção Médica. Rodas das macas e das camas deslizando pelos corredores esventrando as salas do seu destino. Fim de turno. F.... doente da cama 1, deu entrada às ...horas, em principio trata-se de um AVC sem sequelas graves; o doente está a reagir favoravelmente... Com respeito ao meu companheiro mais próximo... O doente, senhor Francisco.... trata-se de um caso social, não tem família próxima para o apoiar... É casado com uma senhora de Gibraltar..., O doente da cama... blá, blá, blá,... Após a formalidade da passagem de testemunho, os Enfermeiros do turno anterior e os do seguinte, assumiram uma postura descontraída lançando algumas picardias uns aos outros. Comecei a descontrair-me da minha tensão inicial e ainda me diverti com as piadas que ouvia...

Dormi algumas horas. Pela manhã, uma Auxiliar de Acção Médica, veio perguntar-me se me encontrava em condições de tomar um banho e se necessitava que me ajuda-se. Agradeci e respondi que em principio iria desenvencilhar-me sozinho. Disse-me que na UCI não havia toalhas e que teria de me limpar a um lençol. Levantei-me cuidadosamente, começando a aprender a transportar o suporte do soro e lá dei uns passos até à casa de banho que estava ali ao lado. Pendurei a embalagem do soro no varão da cortina da banheira e com o braço que estava livre comecei a ensaboar-me. Terminei o meu primeiro banho hospitalar sem problemas. Habituei-me ao contacto desconfortável de um lençol, substituto da suavidade de um turco, para me enxugar. Com os movimentos efectuados desloquei a agulha do soro, mas tudo bem, o senhor Enfermeiro tratou imediatamente de resolver a situação.

Primeira visita da equipa médica de serviço, com os dados disponíveis para cada doente. Daí a pouco chegou a minha Mulher, ar aparentemente calmo e olhar perscrutador: "Então como é que te sentes?" Com sorte. Podia ser pior. À parte a minha boca inclinada, que me imprimia um ar patético e a minha perplexidade perante tudo o que me tinha acontecido, durante as quase 24 horas anteriores, estava calmo, com confiança e esperança de que iria dar a volta por cima. Com a voz balbuciante, pronunciei algumas palavras de ânimo para a sossegar, pois sabia que a sua aparente calma, era tão e somente, isso mesmo. E despedimo-nos com o conforto possível de uma previsível nova etapa para a nossa Vida.

Já com os meus óculos, que a minha mulher tinha trazido, comecei a descobrir o conjunto de máquinas e seres humanos à minha volta. Os meus olhos pousaram na cama mais próxima. Os contornos de alguém. Homem?, Mulher?. Sob a brancura de um lençol, esse Ser começou a despertar a minha atenção. Estava deitado lateralmente, parecia-me que quase juntava a cabeça com os pés. Um corpo frágil, que quase se confundia com as roupas que o cobriam. De vez em quando soltava um vagido muito ténue de dor e conformismo. "Olá senhor Francisco vamos mudar-lhe a fralda, está bem?". "Muito obrigado, desculpe, desculpe sim?". "Senhor Francisco, não esteja sempre a pedir desculpa. Nós estamos cá é para isto...". "Obrigado, muito obrigado, desculpe, desculpe". Era um caso Social. Um Homem sozinho no Inverno e no Labirinto da Vida. Ainda consegui dirigir-lhe algumas palavras Fraternas, quando o voltavam na minha direcção e os seus olhos vazios cruzavam os meus. Ainda ouvi os Enfermeiros comentarem a eventualidade da transferência do Senhor Francisco para um Lar. "Senhor Francisco, sente-se em condições de se levantar?". "Sim senhor, sim senhor, obrigado, obrigado, desculpe, desculpe sim?". "Vamos lá experimentar dar uns passinhos". Suavemente, o enfermeiro ajudou-o a erguer-se da cama. Tronco nu. Só com uma fralda a preservar o pudor daquele Corpo e a recolher a sua incontinência. Recordei as imagens registadas na Segunda Guerra Mundial, nos campos de concentração nazis, corpos despojados de carne, permaneciam estáticos, olhos inexpressivos à espera da Morte. "Vamos Senhor Francisco...". Aquele Corpo executava uma dança patética, agarrado pelo Enfermeiro, todo curvado, tocando o solo com as pontas dos dedos dos pés, qual Valsa Macabra, no Inferno de Dante.

Terça-feira, dia quatro. Já tinha ultrapassado o período critico. "Doente com um Quadro Clinico estável. Evoluindo favoravelmente...". Passadas mais de 48 horas, após um almoço não ingerido, fui enviado para a Unidade de Medicina. Até um Dia Senhor Francisco...

Não fossem a diversidade de batas brancas, verdes, azuis, rosa e aquela multiplicidade de aparelhos, eu diria que tinha sido levado para um Hotel, com quartos de quatro ou cinco camas. Quartos unisexo para perplexidade e por vezes alguma indignação de um ou outro visitante, mais preocupados com sentimentos primários de pudor do que com a qualidade da assistência prestada aos seus familiares e amigos.

Atribuíram-me a cama junto à janela. A única que estava vaga naquele quarto. Ao meu lado um homem alentejano. Seguia-se uma senhora, igualmente transferida para o Serviço de Medicina naquele dia, e, finamente, junto à porta, outro homem, Lisboeta como eu, oriundo de um Bairro popular com tradições proletárias.

Chegou a hora das visitas. O marido da Senhora, proferiu algumas palavras de indignação por a sua esposa estar para ali entre três homens... Tentei acalma-lo, com o atabalhoado das palavras que me saíam, dizendo-lhe, que todos estávamos ali para nos tratar e não para nos preocuparmos com o sexo dos nossos companheiros de quarto. Lá sossegou, embora não convencido com os meus argumentos. Do lado oposto ao meu, junto à porta, o companheiro lisboeta recebia a visita do filho, que paciente e carinhosamente, com as mãos que denotavam uma profissão não administrativa, o barbeava e lhe dirigia suaves palavras reconfortantes. Quanto ao meu parceiro do lado, embrenhado num sono delirante, com algumas pausas de lucidez, raramente tinha visitas. "Ó Maneli... anda cá Maneli...". "Então senhor Joaquim, veja se acalma. Não vê que está a incomodar o descanso dos outros doentes?". O Joaquim, olhava para o Enfermeiro ou Enfermeira, com os olhos esbugalhados, respondendo com frases desconexas. Tinha pausas no seu Universo delirante e nesses lapsos de tempo, levantava-se, ia à casa de banho e falava normalmente.

Como me sobrava tempo para dormir, à noite, não tinha sono e como tal, para me ajudar a passar as horas, arranjei um passatempo algo macabro. A janela do quarto dava para um pátio, onde se via a casa mortuária, e um túnel que dava acesso à morgue lá do Hotel. Então, o meu entretenimento, era observar e contar, o numero de corpos transportados nos carrinhos, num esquife, que fazia lembrar uma manteigueira metálica gigante...

Aprendemos a conviver com a Morte e muitas coisas mais. Sentimos a precariedade da nossa passagem pela Terra. Nada irá ser como dantes. As nossas motivações, comportamentos, sensibilidades, etc., sofrerão profundas alterações. Para o Bem e para o Mal.

Uns dez dias depois da minha entrada, deram-me alta, com as devidas prescrições e futuras consultas regulares de Cardiologia. Concluí assim o Primeiro Grau Iniciático Hospitalar. Desde esse Julho de 1995, até agora, fiz mais três estadias nesse Hotel da minha inteira confiança.

Independentemente da hierarquia ou natureza dos cargos que ocupam, a minha eterna admiração e gratidão a essa Gente Heróica, que faz os possíveis e impossíveis para nos devolver à Vida.

Ao mesmo tempo que tomei consciência das minhas fragilidades, apurei a minha Sensibilidade, Emotividade e Comportamento. Faço por conviver o melhor possível com as adversidades que se me deparam. Sei que não é fácil. São muitas as vezes que me sinto acossado pelas armadilhas da Vida. Escuridão labiríntica que me dificulta a Saída. Mas acabo por a encontrar.

Os Sonhos continuam. Serenos e simultaneamente vigorosos como a volúpia de uma dança valquirica. Uma eterna Valsa nas Brumas da Vida.




Nota: Este texto foi inserido num trabalho intitulado Acidente Vascular Cerebral, suas causas e sequelas no funcionamento do Sistema Nervoso Central, destinado a uma das Cadeiras do Curso de Psicologia, que ando a frequentar.


Comentários Alternativos - Haloscan:

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Comments:
Pois é :) Já tinha lido este textinho :) fiquei logo fascinada pela tua maneira de escrever...as emoções que transmites, os sentimentos... a descrição está mesmo fenomenal... é "pena" é ser do tema que é :( mas o que importa é que tudo correu da melhor maneira, que encheste um bocadinho mais o teu repertório de conhecimentos... que te levou a ser essa pessoa por a qual eu sinto um grande carinho... desejo-te as maiores felicidades e que descrições como essas não precises mais de as fazer... que a partir de agora sejam repletas de flores, de jardins, de sol, de andorinhas...

Beijinhos grandes.
 
Amigo Fernando. Bem vindo à blogoesfera. Li atentamente o seu post com a qualidade habitual dos seus escritos. Um abraço amigo do Viktor (Reis). http://ideotario.blogspot.com
 
Sr. Fernando,

peço desculpas por trata-lo assim,mas não consigo evitar o facto de eu ser uma pessoa com grande respeito pelos representantes da geração do meu pai, embora este seja mais velho, 67 anos...

Sou um jovem com uma idade miseravel, 21!, imagine só!

só que destes 21 anos de vida também já passei por coisas más, embora não vividas da mesma forma como voce... quando nasci tive um problema com incompatibilidade de sangues, tendo permanecido na encubadoura sendo tratado através de infra-vermelhos, aos 1/2 anos tive um problema nos adenoides, que tiveram como efeitos secundários imensas otites, que me estavam a deixar surdo, a partir daí nunca + tive problemas... o meu pai teve, do meu conhecimento 2problemas... um quase ataque de coração e o famoso e doloroso cancro dos homens (prostata)... aos medicos devo muito, pois o meu pai está "rico" (para mim uma pessoa com saúde é rica, o resto é só material)...

até aqui tudo bem,mas... existe sempre o mas...
tenho uma tia, Maria Manuela de seu nome, que aos 38 anos tinha uma vida estável, trabalhava no tribunal de Cascais, é casada, tem 2 filhos e uma neta muito linda... até aqui tudo bem...

agora um "á parte":
o meu avô e uma irmã dele morreram com cancro multifassetado (acho que é isso) no intestino grosso, ou seja, começava pelo intestino grosso e depois multiplicava-se, tendo o meu avô morrido com um pulmão e o cérebro intáctos, sendo sómente o que tinha a 100%, deresto estava tudo "minado".

... com este problema familiar, todos os meus tios inclusive a minha mãe, tiveram que fazer exames (foi o dia em que me senti mais pequenino) e foi descoberto um cancro na minha tia... foi de imediato operada, 1 mês depois... 1 semana depois da operação feita foi descoberto uma infecção, que foi prontamente controlada, através de uma segunda operação... agora vou fazer um salto temporal no qual lhe digo que foi encontrado metarzes (acho que é assim que se chama) no figado (+ uma operação), foi-lhe retirado o intestino grosso (+ 1), até que começou a quimio terapia... agora a minha tia tem 40anos e após ter sofrido desta forma durante 1ano e tal, os médicos disseram-lhe: " não podemos fazer + nada " :(... desculpe a minha indelicadeza, mas eles não têm o direito...

... lutaram por ela, admito, mas não me posso esquecer que ela 2 anos antes estava a 100% e que o cancro estáva estácionário, podendo ela viver como a minha tia avó até aos 70anos... com a ideia de ajudar, fizeram com que ela passa-se estes ultimos anos numa desgraça... e é com lágrimas nos olhos que lhe digo... " não tinham o direito de acabar com a vida de uma mulher como a minha tia" ...

desculpe, apoio toda a sua ideia sobre os médicos e com isto não o quero mudar de opinião, mas...

abraço.
Filipe Foz Santos
 
Prazer em (re)vê-lo, Fernando.
É sempre um enorme gosto encontrar lucidez neste Mundo cada vez mais em falta...
 
Prazer em (re)vê-lo, Fernando.
É sempre um enorme gosto encontrar lucidez neste Mundo cada vez mais em falta...

Pedro Ferraz
 
Caro amigo...

fico feliz pelo facto de mais uma vez ter regressado à nossa companhia, agora com uma disponibilidade diferente, talvez mais libertadora e tranquila :)
Seu texto nos toca no sentido do que É de facto Vida e quão frágil a vida é.

Os Sonhos são para serem sonhados, creia.
A Vida é por si só um maravilhoso sonho, que como todo o sonho, por vezes se torna pesadelo...
É então necessário despertar para se poder tornar a sonhar, sempre um sonho diferente a cada dia que passa.
Penso que foi um pouco assim que sucedeu consigo :)
Continua como todos nós sonhando a vida... até que um dia possamos viver a Realidade sonhada.

Todos estamos de passagem, fazendo um pouco de turismo nesta linda nave espacial e especial, o belo Planeta Azul que nos acolhe, e vagueia, por este imenso e infindo Universo...
É a Grande Viagem onde o aprendizado do Amor se perde e se encontra por entre as Brumas da Vida :)

Esta Nave-Escola serve para nos recordar e ensinar a fragilidade física e a consistência espiritual.
Nela estamos somente para experiênciarmos a matéria e enaltecermos o Espírito que nos anima.
Infelizmente o fascínio terreno nos olvida a mente... :0)
Mas de Coração sabemos que para lá das Brumas reencontraremos Avalon.

Num abraço infinito e profundo lhe agradeço por cada remada dada em sua delicada Barca da Vida.
Nossas Águas são as mesmas e o Encontro se dará mais Além...

Até lá, que sua Vida&Valsa seja tão saudável quão tranquila, plena de Amor, Paz e Serenidade...
Que sua Força Interior e Amor possam transformar a Escuridão labiríntica em Átrios de Luz... E a Saída, sempre numa Nova Entrada... :)

Com Amor e Gratidão,
G.
 
Caro amigo,
Muito obrigada por me permitir partilhar deste cantinho tão pessoal e tão cheio de talento. Muita força para continuar, e parabéns pela coragem.
Eu própria me decidi a voltar a estudar (C. Sup. de Radiologia), uma empreitada que me está a sair bastante mais difícil do que esperava... agora estou a meio dos exames, daí não ter tido oportunidade de fazer esta "visita" mais cedo...
Um grande abraço muito amigo
Fernanda

Sem me querer intrometer, mas porque me tocou (um sobrinho meu morreu de cancro aos 3 anos de idade), e porque gostaria de dar uma força, porque compreendo a revolta, gostaria de dirigir também uma palavra ao seu amigo que fala sobre a mãe falecida com um cancro... não sei se servirá de consolo, mas servirá pelo menos para esclarecer: metásteses são tumores que nascem normalmente noutras partes do corpo, como "ramificações" do tumor maligno (cancro) inicial. Apenas tumores malignos mestastizam. Ninguém sobrevive a um cancro destes sem um tratamento bastante agressivo como o que a sua mãe fez, e mesmo assim depende do tipo de tumor, onde se localiza e quantas metásteses já tem (ou o quanto está espalhado) à altura do início do tratamento. O facto de ter metásteses significa também que o cancro não estava circunscrito e muito menos estacionário, pelo contrário, estava a crescer, a espalhar-se. Ninguém é culpado da morte de sua mãe, muito menos os que tentaram salvá-la, providenciando-lhe o tratamento possível e únicA hipótese de poder vir a curá-la, o que infelizmente não se veio a verificar, mas conheço imensos casos em que resultou.
Desculpe o intrometimento, mas a sua carta está aqui de forma pública, por isso penso que não terá mal...
 
Caro Fernando Bizarro,

Tenho um cancro na próstata (PSA 35,2 a que se soma um índice Gleason de 8).
Tinha/tenho 55 anos e tudo - tudo mesmo - a que se pode aspirar.
A vida é outra quando, enfim, percebemos que não somos imortais. Mas,
a propósito de médicos, quero referir um caso exemplar, passado já este ano de 2004: após o resultado de uma primeira análise à próstata (PSA), dirigi-me a um urologista em Lisboa, de nome José F....z, que imediatamente após uma leitura rápida, APENAS dessa análise, me disse "ou é operado imediatamente, ou tem 15 dias de vida"(sic).
Óbvio que seria ele o operador,... óbvio que seria eu o pagador.
Dois dias de desespero,
até ter consulta com um reconhecido urologista (V.-Ay.): primeiro mil e um exames e SÓ DEPOIS, que não, que o caso era para tratamento com injecções + comprimidos + radiologia. A operação roçava a inutilidade - disse - e mais, era contra-indicada no meu caso específico.
Estou em pleno tratamento, que continuarei até final de 2004.

( Não sei quantas operações inúteis terá o homem feito desde essa altura,
nem sei se continua a cobrar mais de mil contos por cada operação )

Acredito, como o amigo Fernando, que vou viver mais "uma data" de anos e ainda um dia, quando lhe adquirir mais alguma das sua peças, lhe renovarei os votos de maiores felicidades que aqui deixo, agora.
 
Quero agradecer-lhe a experiência que partilha com quem o visita. Escrita de uma forma correctissima e interessante. De facto, é importante reflectir sobre este tipo de situação: estamos mesmo de passagem, não somos nada, de um momento para o outro tudo o que valorizamos deixa de ter importância. Também eu tive recentemente uma situação que me mandou para o Hospital. Acho que nunca mais vou ver a vida de outra forma. Toda a minha luta ficou sem sentido, na eminência da invalidez. E contra isso nada podemos fazer. Somos mesmo muito pequenos.
 
Amigo,
É um relato forte que nos toca o fundo da alma. É uma experiência que pode acontecer com qualquer pessoa, mas é difícil ler um texto que nos mostre isso com tamanha clareza. Cuide-se bem. Fique longe desse hotel.
Beijos.
Cathy (bailar das letras)
 
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