Loreena McKennitt - Dante's Prayer

segunda-feira, julho 19, 2004

Soeiro Pereira Gomes

Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Eça de Queiroz, Camilo, Maximo Gorki, André Kedros, John Steinbeck, Jorge Amado e tantos outros, foram, a par de Platão, Descartes, Bertrand Russel, etc., as minhas fiéis companhias e as minhas referências desde a adolescência. E, com as suas diferente ópticas de nos descreverem o Mundo, tiveram uma influência muito importante na minha forma de o percepcionar, continuando a manter, contudo, uma postura, de permanente aprendizagem, através do que eu costumo designar por: caminhos labirínticos da Vida.

Soeiro Pereira Gomes, nasceu em Gestaçô, concelho de Baião, a 14 de Abril de 1909. Viveu em Espinho dos 6 aos 10 anos de idade onde efectuou os estudos primários e onde passou os meses de verão dos primeiros anos da sua vida. A casa em que residiu em Espinho, existe ainda, apesar de passar totalmente despercebida da maioria dos curiosos, pois nada a assinala.

Fez o curso de Regente Agrícola em Coimbra, casou-se com a compositora Manuela Câncio Reis. Trabalhou em África, mas na altura em que publica a sua primeira, e única obra publicada em vida ("Esteiros" - 1941) era empregado administrativo de uma fábrica de cimentos em Alhandra.

A militância no Partido Comunista obrigou-o a viver na clandestinidade desde 1945. Morreu em 5 de Dezembro de 1949.

Foi no Baixo Alentejo industrial que criou a sua consciência social, em época de grandes mudanças, quando tardiamente, relativamente ao resto da Europa, as novas e grandes fábricas, iam criando uma nova e inadaptada classe social de operariado assalariado e fortemente dependente da oferta de emprego.

O tema da exploração da mão de obra, os problemas dos adolescentes e crianças desde cedo trabalhadores por acção da miséria e da exploração é o tema de "Esteiros":

"Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro".

Considerado uma das grandes obras do neo-realismo Português, "ESTEIROS" (1941), foi a única obra publicada em vida do autor. É hoje considerado um clássico maior daquela corrente literária, traduzido em várias línguas, entre elas o francês, alemão, italiano, checo, eslovaco, polaco e russo

O rompimento violento dos precários equilibrios económicos e sociais portugueses, pela instalação de unidades industriais ávidas de mão de obra, principalmente nas zonas agrícolas onde o choque entre as grandes explorações e a economia agrícola de subsistência era mais uma garantia de solidariedade social e auto-sustento das famílias, que uma marca de exploração é traduzido principalmente na sua segunda obra "Engrenagem".

"ENGRENAGEM", o seu segundo e ultimo romance, só publicado após a sua morte, e aparentemente inacabado, segundo a intenção expressa do autor de o vir a rever completamente, foi escrito em 1944.


Os Filhos dos Homens que nunca foram Meninos

Soeiro Pereira Gomes é um clássico da literatura portuguesa do século XX: «Esteiros», romance dedicado aos filhos dos homens que nunca foram meninos, é um romance que se insere no neo-realismo, porque através da sua fluente e colorida representação de uma sociedade provinciana classista, logra, sem qualquer aparência de pedagogia política e social, demonstrar os crimes das classes dominantes da época, e a brutalidade dos capatazes, meros instrumentos do poder económico dos grandes senhores. É um romance que nos retrata a vida de crianças indefesas, humilhadas, vencidas pela miséria e pela peste social, que a sociedade de então, dominada pelos castradores da liberdade e da dignidade humana, lhes oferecia.

Em vez da Escola, o trabalho precoce. A exploração infantil. O acesso à Educação era-lhes negado. Nessa época, anos 30-40, do século XX, Educação, no que se refere ao ensino básico, era um privilégio da pequena, média e da grande burguesia lusitana. Em relação ao Ensino universitário, o filtro era ainda maior. Muito poucos jovens da pequena burguesia citadina, tinham acesso às Universidades. Os jovens pequeno burgueses na sua maioria, ficavam-se pelo Ensino Primário, hoje designado de Básico, principalmente por questões económicas, começando a trabalhar com menos de 15 anos de idade. Muito poucos prosseguiam os seus estudos no Ensino Secundário: Liceus, Escolas Comerciais e Industriais, como então se designavam. Destes, muito menos ainda, ingressavam numa Universidade.

Esta situação registou alguma melhoria nos anos 60 do passado século. E foi só após a Revolução de Abril de 1974, que se criaram as condições necessárias para que os nossos jovens tivessem acesso ao Conhecimento, independentemente, do seu estrato social. Não desconhecendo os graves problemas que nos afectam, principalmente nestes últimos anos, pois apesar de continuarmos a ser uma sociedade livre, que garante na sua Constituição, o livre acesso ao Conhecimento, aos seu cidadãos, houve uma regressão bastante acentuada, devida principalmente, à submissão a interesses económicos multinacionais, de que resultaram o encerramento de muitas unidades industriais e comerciais, provocando de forma crescente, o número de desempregados e os dramas sociais subsequentes, reflectido-se assim, em relação aos jovens, num precoce abandono Escolar.

Também os jovens licenciados, se encontram na sua maioria, numa grande encruzilhada, pois não existem saídas profissionais para eles, por saturação e falta de mercado de trabalho. Daí as frustrações, as crises de auto-estima, as psicoses, etc.

Já me alonguei demasiado, num tema que poderia eventualmente desenvolver para a Cadeira de Sociologia. No entanto, considerei interessante fazer esta análise, a qual, parecendo deslocada num trabalho sobre o desenvolvimento cognitivo, entendo, que é fundamental levarmos em linha de conta todas as suas variáveis que lhe são inerentes . Estes últimos jovens que referi, vão ser os pais de amanhã e se nós aceitamos que no processo evolutivo de uma criança, pesam os factores inatos e os adquiridos, eu interrogo-me como serão os desempenhos das crianças nascidas de Pais, com graves conflitos internos e externos.

Infelizmente ainda existem na nossa sociedade muitos filhos dos homens que nunca foram meninos. Crianças abandonadas ou utilizadas na rua, por adultos, na mendicidade. E outras que conseguiram ser acolhidas por qualquer instituição caritativa ou de solidariedade social, que, para além de não terem o afecto parental, muitas deles ainda são atraídas por adultos sem escrúpulos e criminosos, para praticas, em que são feridas e humilhadas na sua dignidade, ficando assim, com marcas indeléveis para o resto das suas Vidas.

O que eu pretendo dizer, é que todos nós somos responsáveis por este estado de coisas. Por omissão voluntária ou por falta de empenhamento activo, na condução dos destinos da Humanidade. Quando frequentarmos, por exemplo, um curso de Psicologia ou Sociologia, não podemos escamotear estes problemas, sob pena de estarmos a fomentar uma sociedade elitista que só ouve os estados de angustia ou de crise existencial, de pessoas que têm possibilidade de o fazer, passando ao lado dos inocentes silenciosos, que, entregues a si próprios, pelas circunstâncias dramáticas com que iniciaram as suas Vidas, não conseguem fazer-se ouvir.

Contudo, não desconheço o trabalho meritório e heróico, levado a cabo, principalmente, por um punhado de jovens, animadores culturais, educadores, psicólogos, etc., como é o caso do jovem psicólogo que tive a oportunidade de entrevistar para um trabalho, para esta Cadeira, no qual, o questionei, fundamentalmente, sobre crianças e adolescentes, inseridos nos chamados grupos de risco.

Estes jovens "missionários", não esquecendo o empenhamento dos profissionais de outras faixa etárias, desenvolvem o seu trabalho, inventando "ovos para fazerem as omeletes possíveis". Trabalham por paixão, a maioria das vezes, sem a retaguarda necessária (leia-se Estado) para desenvolverem a sua missão. Aqui expresso a minha admiração e a minha fraternal saudação, pela sua gesta heróica.

Existem problemas em crianças e jovens de todos os grupos sociais. Mas na realidade, enquanto alguns, têm pais ou familiares para os apoiarem e custearem a sua educação e acompanhamento clinico, existem por esse Mundo fora, milhões de outras crianças e jovens, sem os necessários cuidados primários de sobrevivência e de um correcto desenvolvimento, utilizados pelos senhores da Humanidade como "carne para canhão" ou para satisfazerem necessidades das suas mentes devassadas.



Nota: Este texto foi inserido num trabalho intitulado Estádios de Desenvolvimento, destinado a uma das Cadeiras do Curso de Psicologia, que ando a frequentar.


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